ENSAIO - Seung, o massacre
(*) Denise de Camargo
Impossível tomar conhecimento do massacre da Universidade Tecnológica de Virginia nos Estados Unidos sem perguntar: o que levou Cho Seung-hui, um jovem sul coreano de 23 anos, matar 32 pessoas e depois suicidar-se?
Muitas explicações convincentes são possíveis. Desde considerá-lo um “doente mental”, identificá-lo com o perfil de serial killers , até as explicações sociológicas mais sofisticadas como, por exemplo, tratar o caso como se fosse um fenômeno da sociedade do espetáculo.
A explicação pela via da psicopatologia remete aos transtornos delirantes, ou ainda, a paranóia em estado de crise, segundo os clássicos manuais de psiquiatria. Os indicadores dos sintomas de transtornos delirantes estão presentes em vários momentos. Tanto nas expectativas de receber tratamento sádico: "Vocês adoravam crucificar-me. Adoravam induzir o câncer na minha cabeça, terror no meu coração, arrancando a minha alma". Também presentes no isolamento social: Cho Segung-hui, era um menino calado e tímido que tinha problemas de comunicação, afirmou o avô. Transtorno delirante aparece no aumento da inveja: Cho formula perguntas: "Vocês sabem o que se sente ao ser humilhado e crucificado? As suas Mercedes não eram suficientes, seus fedelhos. Os seus colares de ouro não bastavam, seus esnobes. Os seus fundos de investimento... a sua vodka e conhaque não eram suficientes. Os seus deboches não eram suficientes... para preencher as suas necessidades hedonísticas. ...Você têm tudo”.
Indicadores nos sintomas de ciúme delirante quando pergunta sobre sua noiva: “Você sabe onde está minha noiva?, logo disparava contra as pessoas.
Está presente também a revelação de sentimento de baixa auto-estima seguido de delírio. “Eu fiz isso por eles. Fiz isso para impedir que o que vocês fizeram comigo seja feito às futuras gerações de fracos e indefesos”. Ele se sentia em posição rebaixada e tenta com seu ato heróico identificar-se com a figura de Cristo, como se fosse o salvador de futuras gerações de perdedores como ele. No compendio de Psiquiatria de Kaplan - professor de Psiquiatria na Universidade de Nova York - o delírio é descrito como a elaboração para incluir pessoas reais e imaginárias com atribuições de motivações malévolas construindo uma pseudocomunidade – isto é, comunidade de conspiradores. Esta comunidade delirante une medos e desejos para justificar a agressão dirigida a algo.
Se o interesse fosse encontrar uma classificação para o jovem e atribuir à violência do episódio a alguma patologia, poderíamos ocupar páginas e mais páginas com descrições de situações e evidencias. Sem esquecer, é lógico, de considerar o peso dos fatores biológicos constitutivos do sujeito. Descritos os sintomas e encontrada a classificação adequada, a questão de o que levou Cho Seung-hui realizar o massacre estaria respondida.
Dormiríamos tranqüilos se Foucault não tivesse escrito a História da Loucura e não tivesse demonstrado o papel da psicologia e da psiquiatria criminal como álibi para se manter a política de correção psicológica. Política que encarcerou e ainda isola milhares de pessoas e dá ao médico e ao psicoterapeuta um poder de vigilância generalizada. E ainda, se Foucault, quando iniciava sua pesquisa sobre a história da psiquiatria, não tivesse feito a pergunta: Como tão pouco saber no campo da psicopatologia poderia gerar tanto poder? Pergunta que ele vai responder em História da loucura e Vigiar e punir.
Dormiríamos tranqüilos se fosse convincente a explicação da psicopatologia. No entanto, ela não explica por que acontece, ainda hoje, massacre como este e, principalmente, não responde a questão de como se constituem pessoas como Cho Seung-hui. Em que lugar o autor do massacre foi buscar o conteúdo para a construção do seu delírio e, assim, do seu personagem?
Quando sabemos que as pessoas se constituem nas relações com outras pessoas no processo de apropriação da cultura, em uma posição em dada sociedade, a explicação precisa ser ampliada. A explicação que super-dimensiona os fatores orgânicos na compreensão da subjetividade não satisfaz.
Uma outra explicação é que se trata de um fenômeno específico da sociedade do espetáculo. No caso de premeditar não só o crime, mas também a maneira de planejar a veiculação na mídia, isto é, como uma história a ser contada nos meios de comunicação de massa. Este é o dado novo. A pessoa quer ser reconhecida e ficar famosa como os astros do cinema e da televisão. Quer ser apresentada como as “pessoas bem sucedidas” e “vencedoras” são apresentadas pela mídia, mesmo que seja como anti-herói. Mesmo que seja matando John Lennon. É o momento em que vira notícia. Aí se revela um outro aspecto destas pessoas: eles se consideram perdedores.
Em uma sociedade super competitiva como a norte americana - e o Brasil está indo pelo mesmo caminho, os jovens que o digam - as expectativas dirigidas as crianças e jovens são muito altas. Principalmente com os do sexo masculino. Um dado interessante: de 1996 para cá aconteceram 55 chacinas em escolas, segundo a Rede de Ação Internacional contra Armas de Pequeno Porte, e todos os massacres foram cometidos por homens, ou garotos.
Segundo entrevista publicada em 22 de abril, no jornal O Estado de São Paulo, a antropóloga Katherine Newman - autora do livro “Violência, as raízes sociais de tiroteios em escolas”- interpreta as fotos que Cho Seung-hui enviou para a rede CBN como indicadoras de que ele estava tentando resolver um problema. “Acreditava que as pessoas duvidavam de sua masculinidade, o viam como um fraco. Então, ele foi buscar na cultura popular as imagens que representam a antítese disso. E o que ele encontrou de referencia para macheza é um homem com uma arma. Há muito disso em Hollywood, do anti-herói violento que faz sucesso com as mulheres. O objetivo do atirador é se definir como esse tipo de homem perante os outros”, falou a antropóloga.
A escolha de referencias brutais não surpreende em uma sociedade onde a crença na eficácia da violência esta presente no imaginário dos cidadãos e, principalmente, na afirmação da política externa.
O que chama atenção em Cho Seung-hui é o potencial de ruminação presente em sua fala. E quando encontramos rancores, invejas, desejos de vingança e os fantasmas da morte, estamos diante de sentimentos e representações chamados pelo nome de ressentimento. Pode ser outro argumento possível de explicar o comportamento do jovem assassino da Virgínia. Pode ser também, um sentimento que explique muitas outras expressões de violência em nossa sociedade. Falando em expressão. Cho Seung-hui tinha muita necessidade de expressão. As pessoas expressam o que cultivam se o cultivo é de ruminação a expressão será a violência.
A origem do ressentimento é a emoção derivada da percepção de se sentir em uma posição injustamente subordinada em relação a uma pessoa ou um grupo de pessoas. O ressentimento é muito comum em pessoas que gostariam de ser ou ter o que outras pessoas são ou têm. Veja bem, é um sentimento próximo da inveja.
O que é então este sentimento capaz de gerar comportamentos tão violentos?
Primeiro é preciso atentar para à diversidade das formas de ressentimentos no plural e não de um ressentimento que tomaria as dimensões de uma essência universal. Até porque a experiência emocional é cultural. As emoções e significados atribuídos a experiência emocional são uma conquista social e não individual – um produto que emerge da vida social. Isto quer dizer que as representações, as ideologias, os imaginário, as crenças, os discursos desempenham papel relevante no devir dos ressentimentos.
O que há de comum nos ressentimentos é o caráter de inibição e impotência do ódio. Nietzsche chamava de “ódio recalcado” próprio do ressentimento para diferenciar da agressividade direta do guerreiro quando em combate. Max Scheler fala da “ruminação” própria do ressentimento. Roberto Melton associa o ressentimento à impotência, caracterizando-o como “a experiência continuada de impotente hostilidade”. A questão passa então para a necessidade de compreender e explicar como o ressentimento se manifesta, a quais comportamentos estão associado e que condutas inspira, consciente ou inconscientemente.
(*) Denise Camargo é doutora em Psicologia Social.
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