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O mito migratório dos M`bya

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 – Um CONTO de Karoso Zuetta –

Era a primeira lua cheia da primavera, quando várias famílias Mbya , navegando com rústicas embarcações, atravessaram o rio Paraná para assistir ao ritual que os Kurupí, bonitos e alegres duendes que habitam as cavernas e os precipícios, tributavam a Piragüí , belíssima sereia de água doce.
Sobre um banco de areia, localizado no remanso que forma o rio ao chocar-se contra o penhasco do Tejú Kuaré, as danças e a música giravam em torno de uma fogueira que lançava clarões vermelhos e amarelos sobre a superfície da água prateada pela lua.
Escondidos pelo amparo da sombra que o paredão de pedra projeta sobre o rio, os Mbya contemplavam secretamente aquela mítica cena.
Os Kurupí adoravam Piragüí . Ela os seduzia com o poder de seu canto fundo e doce, e eles expressavam-lhe sua religiosa devoção, deixando transparecer o coletivo desejo por sentir, ao menos por uma vez, o aroma das douradas escamas de seus quadris ou a umidade morna da pele escura de seus ombros.
Respiravam as últimas brasas da fogueira, quando Piragüí, acompanhada pelo mais esbelto e melhor dotado dos duendes, se afastou lentamente até sua misteriosa morada.
Em sigilo, também os Mbya empreendiam o regresso a seu Yvy mbyté , quando uma tempestade repentina provocou a fúria do rio. Grandes nuvens escuras ocultaram o reinado cósmico da lua e no alto do penhasco assomou Teju Jaguá , a temida iguana gigante, lançando por sua insaciável bocarra antropomorfa enormes labaredas, que incendiavam o manto escuro que a tormenta estendeu sobre a paisagem. As pequenas canoas naufragaram inevitavelmente e os Mbya , ao pisar o solo missioneiro, ficaram a mercê do famélico monstro. Mas um raio milagroso, espada elétrica de Tupá, atravessou o grosso couro de Tejú Jaguá , precipitando-o fulminado ao leito do agitado rio.
Uma sinfonia selvagem saudava o amanhecer de um luminoso dia. Abundante era o mel e saborosas, as multicoloridas frutas silvestres. As águas cantavam cristalinas nas cascatas e a fauna silvestre confirmava, uma vez mais, a ancestral crença dos Mbya. Existia o Yvy mara ey , a imaculada terra sem males, de onde jamais se iriam.

Glossário:
Mbya : “A gente” em Guar. , É o nome com o qual se identifica esta etnia que integra a Nação Guarani.

Kurupí : Para os Mbya , são uma comunidade de duendes (todos os duendes que conhecemos são solitários) e não destacam seu aspecto fálico, como ocorre nas lendas próprias do sincretismo contemporâneo.

Yvy mbyté : “ Umbigo da terra ou centro da terra ” em Guar., Leon Cadogan resgata esta crença, segundo a qual o homem e a mulher Mbya crêem que são originários do Yvy mbyté, lugar situado no atual território do Paraguai.

Yvy mara ey : Mito migratório dos Mbya que motiva o constante peregrinar desta etnia em busca do Yvymaraey:
yvy : tierra; mara : mancha, sujeira; ey : sem. Tradução interpretada por nossa cultura como terra sem males, espécie de paraíso terrestre; no entretanto, à luz da realidade histórica desta etnia e do significado semântico destas palavras, deveríamos interpretar que as mesmas fazem referência aos territórios virgens, em estado natural, intacto e sem a presença do homem branco, propícios para desenvolver o modo de vida Mbya.

(Karoso Zuetta é argentino, músico, pesquisador da vivência m`bya guarani na região da tríplice fronteira. Mora em Posadas, Missiones, Argentina. O conto foi publicado originalmente na Escrita, em 2008.)