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“A gente acaba se acostumando”

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  nunca mais– Um conto de Augusto Boal  –  

(Num texto dos anos 1970, Boal retrata classe média argentina às vésperas da ditadura, em meio a pobreza, desabastecimento e bombas.
O texto faz parte de “Crônicas de Nuestra América”)

Dona Caridad era uma viúva angustiada e nervosa. Desde que morreu o marido, passou a ter medo de tudo. Antes, ela quase não saía de casa: o marido trabalhava, fazia as compras e as contas, fazia tudo que era preciso. Depois, teve ela que se encarregar de tudo. Aí começaram os seus medos. De tudo tinha medo, até de atravessar a rua. Nunca atravessava sozinha. Esperava que viesse alguém e pedia que a ajudasse. Tinha muito cuidado consigo mesma, mas se importava muito pouco com todos os demais. Uma vez, um senhor que a tinha ajudado a cruzar a rua foi atropelado quando voltava para a sua calçada. D. Caridad nem se deu ao trabalho de espiar, mesmo de longe. O pobre homem ficou sozinho, no meio da rua, pedindo socorro, o que fez com que a viúva apressasse o passo, para que não pensassem que ela tinha tido alguma culpa. Felizmente, um chofer de caminhão, de bom coração, levou o atropelado pra o hospital mais próximo.

D. Caridad também tinha medo da escuridão. Sempre pedia a um vizinho que lhe emprestasse uma vela, “… porque se queimou o fusível lá de casa, e depois eu devolvo”, dizia. Não tinha queimado fusível coisa nenhuma, era mentira. Como era uma mulher extraordinariamente econômica, economizava o seu dinheiro, a sua eletricidade, mas mão o dinheiro alheio, as velas alheias. Mas era verdade que sempre devolvia as velas, isto é, o toquinho que sobrava, já inútil.

– Aqui está a sua velinha que eu prometi devolver, Fulana. Obrigada.

De todos, o principal medo da viúva era o de ficar pobre. Dizem que, nos tempos do seu marido, havia sido uma senhora muito destacada – mas ninguém a conhecia desses tempos. E os que só agora a conheciam não podiam acreditar nessas histórias, tal era sua atual aparência. Apesar disso, D. Caridad insistia em que não era pobre e afirmava ser uma senhora de “mediana classe média” em ascensão.

– Meu marido trabalhou toda a vida pra que não me faltasse nada. Doze, quatorze, dezesseis horas por dia. Trabalhou sempre pra que não me faltasse nada. E depois me faltou ele.

Assim lhe faltava tudo. Por isso tinha medo de virar pobre.

– Eu não quero ser nunca como vocês, pobres diabos… – dizia aos seus vizinhos. “Vocês não têm nem sequer o que comer. Deus seja comigo, para sempre amém!”

– Deus seja comigo! – dizia e, “E com ninguém mais” – pensava. Esclarecia:

– Não sou uma favelada como vocês, isso salta aos olhos…

Os vizinhos discordavam:

– Se a senhora vive aqui na favela conosco, é uma favelada como nós! Nem mais, nem menos.

– Isso não. Eu vivo aqui com vocês porque eu não quero nunca ter que viver aqui com vocês! – dizia, pondo os pontos nos is. – “Eu não me acostumaria nunca…”

Pra quem não entendia, ela explicava o curioso raciocínio:

– Eu tenho a minha casa num bairro que não é tão granfino, mas que também não é tão miserável e sujo como esta favela. Confesso que tenho medo de ficar pobre, de ter que ir morar numa favela como esta. Então que foi que eu fiz? Pra ter uma fonte de renda segura, aluguei a minha casa muito bem alugada e vim morar aqui…

– Pra não ter que vir morar aqui conosco, a senhora vive conosco aqui! – perguntavam admirados.

– Assim é – conformava a viúva. “Pra não ter que suportar esta falta d’água, pra não ter que sentir todo santo dia esse cheiro podre…”

– A senhora suporta o cheiro podre e a falta d’água, só pra não ter que suportar…

Todos se divertiam com a dignidade econômica da viúva Caridad, a que vivia numa favela pra não ter que viver numa favela.

– Por que é que a senhora não se suicida pra não ter que morrer, vovó? – perguntou um dia um vizinho bêbedo. Como estava bêbedo, ela não se deu ao trabalho de responder. Mas, sem dúvida, lamentava que nem todos fossem capazes de entendê-la, embora tudo lhe parecesse tão simples. A verdade é que, às vezes, ninguém a entendia, principalmente quando dizia:

– A última palavra sobre a classe média ainda não foi pronunciada!

Ou, então:

– É preciso manter as aparências…

A que aparências se referia, a ex-destacada senhora? Por certo que não podia ser à sua própria aparência, já que andava sempre notavelmente pior vestida que qualquer vizinha sua. Tampouco podia se referir à aparência da sua arruinada casa na favela, que mais parecia um iglu de terra e barro, cercada por um quintalzinho cheio de coisas velhas e estranhas. D. Caridad informava:

– Eu não quero chamar a atenção dos ladrões pra minha casa. Por isso deixo ela assim sem pintura. Não quero chamar a atenção de ninguém.

Apesar disso, chamava atenção. Não pela ostentação, mas justamente pelo contrário. Estava sempre pedindo coisas emprestadas, principalmente roupas.

– Que é que vão fazer com as fraldas do neném? Já está muito grande, não é pra ficar andando por aí de fraldas. Bem que podiam dar pra mim…

– Pra que é que a senhora quer?

– Pra usar como pano de chão…

Sem saber como dizer-lhe não, todos lhe davam o que pedia. Caridad não usava as fraldas rasgadas como pano de chão: fazia uma blusa, bordava umas flores, e cobria “artisticamente” os buracos com fazendas de outras cores. Assim se vestia: um arco-íris.

Não queria gastar nunca um centavo em coisas que podia conseguir de graça, como a roupa. No começo, D. Caridad pensava que com o aluguel de sua casa seria capaz de comprar muitas propriedades: casas, apartamentos, imóveis em geral. Estas “propriedades” seriam, por sua vez, alugadas, gerando assim, um apreciável fluxo de capitais que permitiriam a compra de novas “propriedades”, e assim sucessivamente, através dos tempos. Infelizmente, logo percebeu que o fluxo de dinheiro não era tão amazônico como pensava. A inflação, sim, era surpreendentemente rápida.

Para não perder seus aluguéis, e para não desvalorizar os seus pesos, D. Caridad resolveu investir seu dinheiro em qualquer coisa física – coisas às quais continuava chamando pelo solene nome de “propriedades”. Por exemplo: um triciclo de padaria, já velho e em desuso, e sem duas rodas. Comprou a bom preço e acreditou ter feito um excelente negócio: havia comprado “em baixa” e esperaria agora que os triciclos de uma roda só estivessem “em alta” para então gozar amplos benefícios econômicos.

Todos riam:

– “Isso não é triciclo, vovó: é um monóculo!”

Mas a velha não se preocupava, tão certa estava de ter feito um excelente negócio. Desprezava os seus críticos:

– “Eu nunca vou acabar como vocês. Nunca me acostumaria a viver assim, tão pobre, tão malvestida, tão com tanta fome…”

E lá se ia, buscando novos investimentos para os seus capitais.

Novas “propriedades”. E foi assim que comprou um carrinho chocador elétrico, de um parque de diversões, cinco postes de luz sem as respectivas lâmpadas, algumas dezenas de metros de canos de chumbo que alguém evidentemente tinha roubado da Prefeitura e esperou que todas essas e outras “propriedades” experimentassem uma “alta”.

Assim passava seus dias a velha viúva: comprando, buscando, pedindo emprestado, guardando, fazendo contas, acumulando mercadoria. Sim, porque entre os muitos medos da velha estava o de acordar um dia de manhã e verificar que todas as casas comerciais estavam fechadas: ficaria sem nada pra comer.

– Quem me garante que hoje à noite a central operária não vai decretar uma greve geral por tempo indefinido? Quem me garante que não vai haver um golpe esta madrugada e amanhã vai estar tudo fechado?

Por isso, precavidamente, acumulava comida e outras mercadorias de supermercado. Latas de azeite, azeitonas, sardinhas, polvo, calamares “en su tinta”, almôndegas, pickles, ervilhas, tudo metia embaixo da cama, ou num armário, ou num vazio atrás da porta, ou embaixo da escada. Comprou também uma enorme lata de “Alcatrão”, “em baixa”, vazia, e, para despistar, pôs-lhe um atraente rótulo: LIXO. E aí também guardava suas mercadorias.

Não só comprava comida enlatada que se conserva muito tempo, mas também produtos mais perecedores como arroz e batatas. Sempre que esses produtos iam subir de preço, ou quando começavam a escassear, ela imediatamente comprava. Metia-se numa fila – qualquer fila – e depois perguntava:

– Essa fila pro que é?

– Pra comprar cigarros.

Esperava e comprava, ainda que não fumasse.

– Esta fila é pra comprar o quê?

– Pra tomar o 132.

– Não, pra lá eu não vou… – e procurava outra.

Passava os dias na rua perguntando a qualquer transeunte:

– Onde será que eu posso conseguir sal? E leite em pó? E açúcar? e mexilhões em lata?

Algumas pessoas também andavam procurando as mesmas coisas e a ajudavam. Outras nem paravam para responder. Ela seguia comprando, comprando, cada vez mais, gastando todo seu dinheiro em qualquer coisa, querendo ser mais rápida que a inflação galopante. Às vezes comprava quantidades exageradas. Como não era mulher para convidar ninguém a comer em sua casa, o arroz e as batatas apodreciam e ela se via obrigada, muito contra sua vontade, a jogar no lixo os alimentos carcomidos pelos bichinhos. Chorava copiosamente quando tinha que jogar no lixo cinco quilos de arroz, quando percebia que os bichos pesavam mais do que os alimentos sobrantes e que já começavam a se devorar entre eles. Quando as ameixas já maduras baixavam de preço, a viúva não resistia e comprava uma caixa inteira, embora fosse incapaz de comer sequer a metade, antes que apodrecesse o resto.

Eram muitos os medos de D. Caridad: medo do escuro, medo de ficar sozinha, medo de atravessar a rua, medo de morrer de fome, medo de virar proletária, medo da pobreza.

Tantos medos. Quando ficavam insuportáveis (e isso acontecia por volta das sete horas do entardecer) decidia visitar algum vizinho e com isso solucionava vários medos: o medo de ficar sozinha, ficando na companhia do vizinho; o medo de atravessar a rua, não atravessando, ficando na favela mesmo; e o medo de passar fome, comendo na companhia do seu anfitrião, e à sua custa.

De todos os seus vizinhos, os que mais a aceitavam eram Aurora e Amadeo, gente muito pobre, mas que não sofria demasiado por isso, apesar de que antes da monstruosa crise econômica nacional, os dois tivessem estado em muito melhores condições. Como haviam descido muito na escala social, e como suspeitavam que o mesmo tinha acontecido com Caridad, pareciam carinhosamente dedicados a fazê-la compreender que “a gente acaba se acostumando a tudo” e que não vale a pena ter tanto medo.

– A gente acaba se acostumando a tudo – dizia Aurora enquanto servia a mesa. D. Caridad acabava de entrar e estava parada na porta, esperando o convite para jantar. Aurora começou a servir o spaghetti. Também já se tinham acostumado a isso: Caridad visitava os vizinhos sempre na hora das comidas, nunca na hora do simples chá ou café.

– Onde comem dois comem três… – sugeriu a velha. “Por que não põem mais um prato na mesa e talheres? Aceito o convite pra comer com vocês e podemos conversar enquanto comemos… os três…”

Aurora atendeu à sugestão e continuou:

– É duro a gente se acostumar à doença de uma filha…

A filha do casal estava de cama. Dizia-se que sofria de uma avitaminose aguda e crônica, anemia, falta de vitaminas, sei lá.

– A situação anda ruim… – concordava Amadeo, de certa maneira justificando a pouca quantidade de comida na mesa.

– É a pura verdade – confirmava a velha. “Vai tudo vir abaixo…” – e comia o spaghetti com certa voracidade, mas sem maior escândalo. “Tudo vem abaixo…”

– Antes, nós éramos o país onde se jogava mais pão aos porcos que o pão que se comia. Era um orgulho pra família jogar comida no lixo. Enquanto que nos outros países passava-se fome, aqui não. Este era o celeiro do mundo. Justificava no nome: Argentina quer dizer prata, riqueza.

– Era… já não é…

– Quanto custa o meio quilo de pão? Eu pergunto quanto custa o ‘meio quilo…’, os ‘cem gramas’, porque já faz muito tempo que não compro um quilo inteiro de nada…

– Tem razão minha mulher: antes, metade do bife eu dava pro cachorro. E hoje? Hoje em dia carne não é mais o prato principal: carne é condimento…

– Tem razão meu marido: já faz mais de um mês que eu não como fruta. Como é que eu vou comer fruta? Não se pode pagar o que se pede. Sabe por quê? Porque eles mandam pro Brasil as maçãs, as peras, as uvas, os pêssegos. Tudo pro Brasil. E quem é que pode pagar os preços que os brasileiros pagam? Eles são os novos gringos da América. Têm todo o dinheiro do mundo. Quer dizer: os ricos…

– Tem razão: os ricos! Porque lá existe escravo até o dia de hoje. Esses não comem. Mas os que comem, comem o dia inteiro. Nossa fruta, nossa carne, nosso trigo. E quem é que pode pagar o preço que eles pagam?

– Isso mesmo: antes nós éramos o celeiro do mundo, agora levaram tudo embora… pra quê? Pra pagar dívidas… Que dívidas?

– Eu não fiz dívida nenhuma… por que tenho que pagar?

– E não é só que está tudo tão caro…

– Não, não… – era a breve intervenção de Caridad, que preferia comer enquanto o casal censurava a economia do país.

– É que além de estar tudo tão caro, mesmo assim não se consegue nada!

– Nada, nada… – concordava a viúva.

– Hoje, a gente vai ao supermercado e o que é que compra? Compra o que tem. Antes, eu fazia a lista de todas as coisas que queria comprar. Até me lembro: eu tinha um caderninho, cheio de florezinhas, e aí eu anotava tudo. Azeite, por exemplo. Você se lembra? Antes existia azeite. Qualquer quantidade. Carnes, entranhas, chouriços, frangos, massas, todas as iguarias. Antes existia tudo…

– Tudo, tudo… e a viúva continuava comendo enquanto pensava assustada no seu próprio depósito pessoal, com medo dos ladrões e do olfato dos cães vadios.

– Nessa época, eu ia com um caderninho floreado e levava um carrinho pra trazer as compras. Voltava carregada, dois ou três sacos, e até mais, cheinhos, cheinhos…

– Dois ou três sacos, essa é a pura verdade, dois ou três…

Aurora percebeu que a viúva, muito calada, já tinha quase terminado o seu spaghetti. Fez um sinal para o marido e os dois se concentraram e começaram comer em silêncio. Onde comem dois comem três, é verdade, mas comem menos. E a viúva já se preparava para atacar uma segunda porção.

Terminaram, dividiram igualmente o pouco que ainda havia.

– Maldito desabastecimento… – comentou Amadeo.

– Maldito, maldito… – concordava duplamente a velha.

– Hoje em dia não se pode levar nenhum caderno floreado ao supermercado. A gente tem que comprar o que tem. O que vamos comer amanhã, são eles que decidem hoje.

Aurora se conformava:

– A gente acaba se acostumando a tudo…

– Menos eu, menos eu… – discordava D. Caridad. “Veja bem: eu sou uma dama da média classe média… Preciso de um certo conforto, não posso me habituar a qualquer coisa.”

– O que diz minha mulher é verdade, D. Caridad. Eu já fui um operário especializado e já ganhei muito dinheiro. A senhora também já vai se acostumar. Como eu. Como todos os que estão descendo.

– Menos eu, menos eu… – reiterava.

– Já está se acostumando: antes a senhora passava pela favela tapando o nariz. Veja bem: o cheiro não mudou nada, mas a senhora já não tapa mais o nariz. Costume.

– Eu estou resfriada. Quando passar o resfriado, torno a tapar o nariz de novo…

A conversa seguia animada.

– Vou contar o que foi que aconteceu na farmácia da esquina, ontem à tarde. Eu estava lá comprando uns remédios pra menina, quando entrou uma velha toda contente e disse assim pro farmacêutico, que era amigo dela: ‘Meu filho, eu estou tão contente: fui no supermercado comprar açúcar e não tinha. Então eu comprei três rolos de papel higiênico. Que bom!’ Aí o farmacêutico perguntou: – ‘E por que é que a senhora está tão contente, vovó? Foi comprar uma coisa e comprou outra, por que essa alegria?’ Aí ela respondeu: – ‘porque na semana passada eu fui buscar papel higiênico e tive que comprar meio quilo de açúcar, tá me entendendo?’ É assim: a gente acaba comprando o que precisa, mas só quando eles querem…”

– Eles decidem o que nós vamos comer. Parece economia planificada. Feito na prisão… Eles decidem o que é que a gente vai comer…

– Quando comemos… – ponderou o marido.

– Tem coisas que a gente pode substituir, mas outras não. O papel higiênico a gente pode substituir… – pensava Aurora.

– É mesmo – concordou Caridad. “Os jornais, com todas essas mentiras que publicam, pra que outra coisa servem?”

– Eu estava me referindo ao bidê – esclareceu Aurora.

– Além de tudo é mais higiênico… – concluiu.

– Mas sabonete também não existe… – lamentou a velha.

– Não existe nada e a gente acaba se acostumando – reiterava Aurora.

Severamente, Caridad queria manter as distâncias:

– Eu não me acostumaria nunca a viver como vocês, favelados… Isso nunca…

Terminaram de comer, Aurora levou os pratos pra cozinha e voltou com a sobremesa: gelatina. Caridad perguntou espantada pela carne, pensando que ela tivesse esquecido.

– E a carne?

– Que carne?

– Não tem carne?

– A gente acaba se acostumando a tudo…

– Menos eu, menos eu – Caridad continuava disposta a manter as distâncias. – “Eu nunca me acostumaria a viver numa casa como esta: parece uma palhoça. Uma palhoça de tijolos…”

O casal não se ofendia:

– Quando eu era jovem vivia num casarão enorme, com jardim, plantas e flores. Perto do centro. Meu marido trabalhava na fábrica e nós tínhamos dinheiro. Agora faz biscates e vivemos aqui. Dormimos aqui mesmo na sala, porque o dormitório verdadeiro ficou pra menina que está doente. Ela não pode ficar exposta a todo esse barulho…

– Já vai se acostumar… – afirmou Amadeo.

– Vivemos aqui e não nos queixamos, porque tem gente que vive bem pior…

– Antes, eu podia escolher a fábrica pra trabalhar. Agora agarro a primeira oportunidade que aparece, a primeira porcaria, e nem pergunto quanto é que vou ganhar. Antes, cada um sabia que direitos tinha e ninguém tinha medo de nada. Hoje em dia a gente tem medo até de abrir a boca pra comer, e que direito é que ainda nos sobrou? Direito de ir em cana, direito de ser despedido, direito de coisa pior, de acordar num terreno baldio, ou de nem acordar nunca mais… Esses são os nossos direitos. Direito de ser despedido, direito de aguentar a mão e não reclamar. Direito de coisa pior…

– Coisa pior… – apoiava a mulher.

– Antes, quando a polícia batia em alguém era um escândalo. Não vou dizer que antes não batia não. Batia. Antes também batia. Mas hoje em dia morrem quatro ou cinco por dia e o que é que acontece? Quem é que faz alguma coisa? Quem protesta? Quem é castigado? Ninguém.

– Todo mundo acaba se acostumando até com a morte, com tudo… – era a reiterada exclamação de Aurora.

– Eu não me acostumo com nada disso, nem nunca vou me acostumar. Viver aqui nesta favela? Nunca! Mas, pra dizer a verdade, o pessoal daqui é mais gentil, é mais amigo. E, sem perceber muito bem o que dizia, acrescentou: – “A verdade é que eu não trocaria isto daqui por nada deste mundo.”

O casal não entendeu muito bem, continuaram todos comendo, terminaram. Sempre ávida, perguntou a viúva:

– E o café?

– Vou pedir emprestado à vizinha – explicou Aurora.

– Todos são mais amigos – ratificou Caridad, enquanto Autora regressava com um pouquinho de pó de café numa xícara, e enquanto abria ela mesma um pacotinho de biscoitos que tinha trazido.

– São biscoitinhos que eu trouxe pra comer com vocês. Estavam ‘em baixa’ e eu comprei mais do que precisava. Por isso, antes que apodrecessem, eu trouxe pra gente comer junto…

Os três começaram a comer os biscoitos e a tomar o café em silêncio. Parecia que não tinham mais nada que falar. Só uma vez a viúva começou a dizer alguma coisa:

– O importante é não se isolar… não ficar sozinha…

Mas não prosseguiu. Continuavam em silêncio. Pensavam em tantas mortes, tanta violência, tanto medo, tanta desconfiança do futuro. Tudo em silêncio. E no meio desse silêncio, de repente, ouviu-se uma terrível explosão. Os três se assustaram e se olharam e ao mesmo tempo se perguntaram:

– Quem foi?

Depois, cada um fez uma coisa: a mãe correu para dentro do quarto para tranquilizar a filha que chorava aterrorizada. Amadeo foi correndo para a rua pra ver de perto e Caridad tapou os ouvidos com as mãos e fechou os olhos. Logo Amadeo voltou à sala e ficou conversando com a viúva sobre os maus tempos que tinham que viver, sobre a inflação desatada, os preços, as mortes.

– Que terrível, que terrível… – repetia D. Caridad. “– Que mundo mais terrível… terrível… Que terrível…”

Aurora voltou do quarto, sorrindo.

– Que foi que aconteceu com a menina? – perguntou o marido:

– Coitadinha dela, ficou tão assustada… Estava chorando como uma condenada. Claro, a explosão foi tão forte, tão violenta. E a menina tem muito medo dos trovões. Aí eu expliquei pra ela que não era nada, que tinha sido uma bomba, só isso… E ela tornou a dormir, tranquila, como um anjo…

A viúva comentou pensativa:

– Escutando bem direito do jeito que se deve, é como se fosse música. O barulho das bombas pode até chegar a ser agradável…

Aurora pensava na filha:

– A gente acaba se acostumando a tudo… tudo…

– Tudo, tudo… – pela primeira vez D. Caridad estava de acordo.

E foi embora, pra não se acostumar.

(Buenos Aires – Argentina)


Augusto Boal, dramaturgo brasileiro (1931-2009).
O texto foi publicado entre as “Crônicas de Nuestra América – Pasquim/Codreci)

 


De que serve a bondade

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  – Um poema de Bertolt Brecht. Uma ilustração de Glauco  –   

liberdade 1979

1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos,
ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade,
e melhor
– A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!


Bertolt Brecht, escritor e dramaturgo alemão (1898-1956).
Glauco, cartunista brasileiro (1957-2010)
(A ilustração foi utilizada no cartaz do Salão Internacional de Humor de Piracicaba de 1979. Glauco esteve sempre engajado na luta por liberdades e pelo fim da ditadura militar). 


Fotografar é transver

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  –  Oficinas do Olhar, revisando conceitos, apurando sentidos  –  

A Oficina do Olhar fotográfico é uma atividade realizada pela fotojornalista Áurea Cunha que consiste em um conjunto de atividades ligadas às questões do olhar fotográfico. São dinâmicas, exercícios, vivências e reflexões sobre como produzimos, enxergamos e registramos as imagens. Na oficina são trabalhados os sentidos, estimulando-se sensibilidade e intuição. Lembrando o poeta Manoel de Barros, fotografar é também, mais que ver, mais que ler. É, de certa forma, transver.

Áurea explica que a ideia e buscar dentro de cada um particularidades que se traduzem mais subjetivamente. Coisas bastantes simples que passam desapercebidas aos sentidos, também são trabalhadas. Como, por exemplo,  pensar sobre como nos comportamos ao fazer um enquadramento fotográfico, se o fazemos no dito automático, sem reflexão, ou se ficamos atentos ao que estamos criando, escolhendo conscientemente o que queremos expressar.”

A fotojornalista desenvolve esses conceitos e práticas da “Oficina do Olhar” há pelo menos 12 anos. O formato tradicional, explica ela, é de dois dias de trabalho, como numa imersão. Porém, o trabalho pode sofrer adaptações, dependendo de variantes como espaço físico, faixa etária do público e, principalmente, disponibilidade de tempo das pessoas envolvidas em cada experiência. “Nas escolas, por exemplo, é feito em formato e carga horária reduzidos, além de uma adaptação da linguagem com a qual propomos a prática”.

Esta é a realidade das oficinas que a fotógrafa está oferecendo como contrapartida ao patrocínio que recebeu do Fundo Municipal de Cultura para “Nós, os Diferentes”, um projeto no qual ela pretende expor uma coleção de retratos inéditos. O Fundo Municipal de Cultura é financiado por verbas públicas municipais e gerenciado pela Fundação Cultural e o Conselho Municipal de Políticas Culturais, de Foz do Iguaçu.

Já foram três oficinas realizadas. A primeira foi na APAE, unidade do Jardim Itamarati para 18 participantes com necessidades especiais, no dia 14 de março. A segunda oficina foi realizada na Escola Estadual Três Fronteiras, no bairro Porto Meira, reunindo 23 adolescentes. Já a terceira se desenvolveu na Escola Municipal Padre Luigi Salvucci, Vila C, para 26 alunos do 5º ano matutino.

A fotografia em movimento – Na escola Estadual Três Fronteiras, a Oficina do Olhar foi adaptada para atender estudantes que participam do “CineMeira”,  um projeto daquele Colégio que visa a produção de vídeos, idealizado e coordenado por Fernando, professor de Ciências e entusiasta das linguagens transversais na educação pública. Lá a proposta foi trabalhar a sensibilização para as imagens fotográficas de onde o vídeo deriva.

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O professor Fernando, retratado pela estudante Leonarda, durante a oficina do Olhar no Colégio Três Fronteiras.

De início, explica Áurea Cunha, trabalhou-se leituras das fotos de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos, o francês Henry Cartier Bresson, considerado o “olho do século”.  Na parte lúdica, o grupo fez uma dinâmica de olhos vendados, com o objetivo de experimentar outros sentidos, que não a visão. “Depois deste início, foi possível detectar olhares apurados no grupo, através dos retratos que fizeram um dos outros, ao final da atividade”.

A parte mais conceitual, baseou-se na projeção da Exposição “The Family of Man” (A Família do Homem),  “Este trabalho reúne 503 imagens de 273 fotógrafos, oriundos de 68 países. A exposição, além de ser um deleite para os olhos, foi concebida para conscientizar, através de uma linguagem universal, que é a fotografia, a ideia de que todos somos de uma mesma família, a humana.

 A infância da fotografia – Na Escola municipal padre Luigi Salvucci a oficina foi desenvolvida para um grupo de alunos da faixa etária compreendida entre 9 e 10 anos. Desta feita, dinâmicas como a das câmaras escuras, com imagens invertidas produzidas a partir de uma simples caixa de sapato e de uma lupa, ofereceram à curiosidade da criançada os primórdios da fotografia. Com relação aos equipamentos fotográficos,  foram mostrados os funcionamentos da câmera analógica, que se utiliza do filme fotográfico, e a câmera digital.

Escola Padre Luiggi: Áurea Cunha explica o funcionamento do filme fotográfico na câmera analógica. (Foto: Roberto Geremias)

Escola Padre Luiggi: Áurea Cunha explica o funcionamento do filme fotográfico na câmera analógica. (Foto: Roberto Geremias)

A história das imagens também foi trabalhada com um bate papo procurando refletir sobre a importância das imagens no cotidiano das sociedades humanas, em especial, atualmente, onde as imagens tem hegemonia na expressão humana. Nesta parte da oficina, os comentários foram sobre a validade de se registrar o que vemos e sentimos. A aluna Maria Eduarda lembrou “que fotografamos para mostrar aos outros que não estavam presentes naquele momento”.

Para Áurea Cunha é muito importante fazer essa reflexão com as crianças e mostrar como era antigamente. “A fotografia em sua história passou por muitas mudanças, refletindo a trajetória humana. E é importante fazer esse link histórico para podermos entender melhor o momento em que vivemos”.

A exemplo do trabalho com os adolescentes, houve uma sessão de retratos, onde os alunos se fotografaram. Áurea Cunha conta que trabalhou noções de enquadramento, direção de imagem e um pouco mais de preparação de cada aluno para o momento do click , que é o momento mais importante da criação fotográfica.

“A fotografia – finaliza a jornalista, é uma grande ferramenta didática, capaz de perpassar por quase todos os aspectos de desenvolvimento da pessoa, indo do intuitivo ao entendimento matemático e da Física”.

Colaboração – Nas oficinas, Áurea Cunha explica que as fotos das atividades foram feitas por várias mãos. Naquelas registradas no trabalho desenvolvido no Colégio Três Fronteiras, a colaboração veio do diretor regional do Sindijor – Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná,  Roberto Geremias, que também auxiliou no monitoramento das oficinas. Já na outra oficina, na Escola Municipal Padre Luigi, a maioria das fotos são de Kariny Wermouth.


Texto: Inácio Vera / Fotos: Áurea Cunha, Roberto Geremias, Kariny Wermouth e Leonarda Silva

 


As Palavras

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 –  Um poema de Carol Miskalo  –  

palavra carol

As palavras
Somem
As palavras
Sobem
As palavras
Suam
As palavras
Sabem.

As palavras
Morrem
As palavras
Nascem
As palavras
Vivem
As palavras
Caem.

As palavras
Vem
As palavras
Vão
As palavras
Findam
Outras vezes
Não.

As palavras
Lama
As palavras
Lavram
As palavras
Livres
Poucas vezes
Cavam.

As palavras
Vem
As palavras
Vão
As palavras
Voam
Toda direção.

As palavras
Criam
Viram poesia
Numa melodia
Uma só canção.

As palavras
Vem
As palavras
Vão
Brindam poesia
E celebração.


Carol Miskalo é professora em São Paulo, SP.
Poema publicado na revista Escrita, número 41.
Ilustração de Dieguito, brasiguaio, desempregado em Puerto Rico, AR.


“Soñando”

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  –  Um conto de Rafael Barrett  –  

"Rafael Barrett", ilustração de Francisco Corral

“Rafael Barrett”, ilustração de Francisco Corral

Era como un inmenso baile de personas y de cosas. Figuras de todos los siglos pasaban en calma o se precipitaban girando. Animales fantásticos y objetos sin nombre se mezclaban a los mil espectros de un carnaval delirante. El espacio infinito parecía iluminado por la fiebre. No había piso ni techo. Se adivinaba la noche más allá de la luz.

Yo me trasladaba de un punto a. otro sin esfuerzo. Nada resistía ni entorpecía a nada. Flotábamos en un ambiente suave como el polvo de las mariposas. El inundo estaba vacío de materia y lleno de vida.

De un racimo de seres agitados se desprendió hacia mí un caballero vestido de frac. Venía tan de prisa que atravesó en su carrera el cuerpo de una desposada melancólica. Cuando llegó a mi lado observé la angustia de su rostro contraído.

-¿Qué le sucede, señor profesor? -pregunté.

-El chimpancé se ha vuelto loco. Ya sabe usted que era mi mejor sirviente. Hasta fumaba mis cigarrillos. Un mono admirable, superior al hombre, puesto que ojo hablaba. Imitaba perfectamente mis movimientos y aprendía cuanto se le enseñaba. Usted recordará mi última conferencia sobre los simios antropoides. Él la inspiró. Pues bueno: ayer me entretuve tirando al blanco en el jardín delante del mono. ¡Nunca lo hubiera hecho! He querido meterme ahora en casa porque se hace tarde. ¿Creerá usted que el maldito chimpancé me ha recibido a tiros, confundiendo mi pechera con el blanco? Por poco no me acierta. ¿Cómo entrar en mi casa, Dios mío?

De lo alto del firmamento llovían pétalos rosados. Cerca de nosotros una niña rubia decía que no a un banquero.

-¡Una idea! -exclamó de pronto un poeta lírico que nos había, quizás, escuchado. Su cabellera larguísima y sucia olía mal. Los mechones semejaban serpientes, y de cada uno colgaba un volumen, de modo que el hombre llevaba siempre consigo su biblioteca. A la cintura ostentaba un cuchillo envainado. Lo desnudó con gestó teatral.

-¡No tembléis! Esto no es un puñal, sino una pluma, y mis venas son mi tintero. Por ellas no corre sangre, sino tinta.

Se hundió el arma varias veces en el corazón y embadurnó la pechera del profesor con el negro líquido, gritando.

-¡Lo salvé! ¡Lo salvé!

Sin comprender cómo me hallé de repente acostado sobre la arena fría de una playa. El mar, de un azul luminoso, extendía su oleaje brillante bajo el cielo borracho de sol. Una adolescente, más bella que Venus, vagaba por la orilla, mojando sus pies de nácar en la lisa lámina de cristal que se deslizaba cantando. Su túnica era casta como la espuma. Sus ojos de ángel estaban penetrados de bondad y de amor. Una nube de pájaros alegres y puros revoloteaba en torno. Noté que la encantadora virgen los cogía y les arrancaba las alas.

-¿Por qué, por qué? -gemí dolorido.

-Les arranco las alas-suspiró su voz melodiosa-para que no se cansen volando.

Caían lentamente las tinieblas espesas como cae el légamo al fondo de un charco, y distinguí a enorme distancia el resplandor confuso de la fiesta aérea. Me propuse alcanzarla, mas un abismo de una profundidad espantosa me detuvo. Subía de él un silencio más horrible que el trueno. En el opuesto borde se alzaba un peñasco siniestro que dibujaba su silueta de azabache, cortando el horizonte sombrío, y sobre el peñasco una mujer harapienta se retorcía los brazos mirando el precipicio.

-¿Qué? ¿Qué hay? ¡Oye! -clamé. ¡Oye!

Ella no oía y seguía mirando. La sombra se hizo más densa aún, y fue borrando aquel gesto de agonía. Ya no quedaba más que la noche insondable, y el resplandor lejano y confuso de la fiesta aérea. El resplandor se fue transformando en una nebulosa, y la nebulosa en la luna, luna serena y plácida.

Deseé ir a ella, y desperté. La luna era el globo de mi lámpara encendía. Sobre mi mesa de trabajo dormían mis libros.


Rafael Barrett, escritor espanhol (1876-1910). De inclinação ideológica anarquista, desenvolveu boa parte de sua obra no Paraguai, país onde foi um dos expoentes da literatura na transição dos séculos XIX e XX.

 


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