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A cidade grande

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  –  Um poema e uma foto de Cleonice Marçal  –  

A CIDADE GRANDE

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A cidade Grande
É fria
Nunca tem tempo
Não é a garoa que cai fina
É a indiferença das pessoas.

Ah! Cidade Grande
Onde está seu coração?
Nas ruas
Nas praças
Nos prédios
Nas lojas
Nas casas.

Ah! Cidade Grande
Onde está a emoção?
O riso
A lágrima
A simplicidade
O aperto de mão.

Ah! Cidade Grande
Onde está a liberdade?
O sonho de trabalho
De colher o amanhã.

Ah! Cidade Grande
Onde está a razão
Por que da lei do maior e do menor?

Ah! Cidade Grande
A eira e a beira
Da minha comoção!

Cidade Grande
Fria
Sem tempo
Onde está seu coração?
………………………………………..

Um grito
Atirado na calçada
Embaixo da ponte
No sinal fechado do trânsito
Na marginalização
Tum! Tum! Tum! Tum!
Ouço… o coração!


Cleonice Marçal é pedagoga, trabalha em centro público de educação infantil.
A poesia foi escrita em 1997 e foto produzida em 2014. Foram publicadas na revista Escrita 45


Tramarias

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  –  Coletivo paulista apresenta espetáculo tendo como temática a violência doméstica. Dia 1 de dezembro, às 14 horas, no CRAM – Centro de Referência e Atendimento à Mulher, Em Foz do Iguaçu –  

traimeiras

“Tecer era tudo que Maria fazia, tecer era tudo o que queria fazer. Todos os dias bem cedo, acordava e caprichosamente colocava em seu tear mágico linhas e fios que utilizaria para alinhavar o mundo ao seu redor. Linhas amarelas para dias quentes, linhas acinzentadas para nuvens tempestuosas. Tudo estava sempre em perfeita harmonia. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o dia em que se sentiu só. E com isso ela dançou…” (fragmento do texto do espetáculo)

“As Trapeiras” é o nome do coletivo paulista que discute a violência de gênero, usando linguagens cênicas e o recurso do conto literário. Composto pelas atrizes Ivy Mari Mikami, Jéssica Duran e Sabrina Motta, o grupo se propõem despertar por meio da oralidade e do espaço cênico o empoderamento feminino, tendo como eixo de pesquisa as problemáticas político-sociais relacionadas à mulher. Também quer resgatar a memória coletiva da luta feminista através da releitura de contos tradicionais e contemporâneos.

Dia primeiro de dezembro As Trapeiras fará apresentação, única e gratuita, do espetáculo “Tramarias” em Foz do Iguaçu . Será na sede do sede do CRAM  – Centro de Referência e Atendimento à Mulher -, dentro de uma programação que vem se desenvolvendo em Foz e tem como temática principal a opressão e violência que as mulheres vivem. O espetáculo, que é aconselhado para público com mais de 10 anos, tem 60 minutos de duração e mais 30 de conversa.

_as-trapeirasSobre “Tramarias” – “A obra tem como eixo narrativo a releitura do conto “A moça tecelã”, de Marina Colasanti. Ela é permeada por duas tramas: a história de Maria da Penha Maia – cuja luta frutificou na Lei 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha – e o conto tradicional peruano “Uma Vara de São Marmelo”, explicam as integrantes do coletivo.

Ele traz como mote a discussão sobre a violência doméstica, pois observando a urgência de transformação social que carregamos em nossa luta histórica, vimos a necessidade de ‘destecer’, desconstruir a justificativa sociocultural que alimenta a opressão sobre a mulher. Passando a tradição adiante, de geração em geração, se reproduz o discurso machista que coloca as mulheres como um alvo de injustiças e violências sociais, sejam elas físicas, psicológicas, emocionais ou morais, sabendo que hoje o machismo pode ser considerado um dos maiores fatores de violência no país.”

Arte para desconstruir – Reconhecendo o papel da arte como sendo fundamental na desconstrução de paradigmas sociais, objetiva-se inseri-la como ferramenta auxiliadora no empoderamento das mulheres. Em sua ação no campo subjetivo, a arte buscar romper os níveis superficiais da consciência humana, trazendo à tona situações de opressão naturalizadas, a fim de questionar determinados padrões sociais.

Como método de pesquisa são utilizados três eixos principais, criados a partir da formação artística e pedagógica das arte-educadoras. São eles: a expressão corporal que buscará o contato e o reconhecimento de si, utilizando a memória corporal para identificar-se como um corpo social e observar o quê dentro dele dói; a comicidade que irá propor a exteriorização da dor, o exagero e a exacerbação dos sentimentos, apontando as causas, o por quê dói; e por fim o teatro da oprimida que a partir de conceitos e práticas de libertação buscará auxiliar no rompimento da dor, estimulando a compreensão e a transformação a dor em luta e resistência.

A violência doméstica acontece todos os dias no Brasil, é uma trama complexa composta de finos fios com resistentes conexões. Para que esse momento histórico seja superado, é preciso buscar “os ossos perdidos da história” e reconstruí-la trazendo à superfície toda a dor que foi encoberta pelos ilusórios “finais felizes” contados nos contos de fadas.

A montagem do espetáculo Tramarias foi viabilizada pelo Edital ProAC – Primeiras Obras de Produção de Espetáculo Inédito e Temporada de Teatro 2015 – do Governo do Estado de São Paulo, e circulou por Centros de Referência e Defesa da Mulher (CRM e CDCM) da Grande São Paulo.

Serviço: “Tramarias”
(indicado a partir de 10 anos)
Grupo “As Trapeiras”
Dia primeiro de dezembro, às 14 horas
Local: Sede do CRAM, Rua Padre Bernardo Plate 1250, Jardim Pólo Centro, Foz do Iguaçu

Sobre o CRAM – Centro de Referência da Mulher em Situação de Violência – Foz do Iguaçu
https://www.facebook.com/Centro-de-Referência-da-Mulher-em-Situação-de-Violência-CRAM-557527164392988/


Assessoria Trapeiras 


Argemiro dos Santos, o “Marujo”

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  –  Entrevista de Argemiro dos Santos, o “Marujo” concedida ao jornalista Juvêncio Mazzarollo e publicada na “Gazeta do Iguaçu”. Recopilada para o livro  “Foz do Iguaçu, Retratos”, editado em 1994, pela editora Campana & Alencar.  –  

 

“Seu nome é Argemiro dos Santos, mas de todos é conhecido por “Marujo”,
notável no mar e no rio Paraná, notável também no esporte e na música.
Nasceu no Rio de Janeiro em 1926, aqui casou com Dona Guilhermina,
com quem teve os filhos Darley, Vanderley (*) e Fátima.
Em Foz,  vive continuando a história de aventuras
e feitos que conta nesta entrevista”. (*Juvêncio Mazzarollo)

Argemiro dos Santos: o "Marujo' para a música e o futebol iguaçuenses.

Argemiro dos Santos: o “Marujo’ para a música e o futebol iguaçuenses.

– Como começou a vida do “Marujo”, ou Argemiro dos Santos?

– Tive uma infância pobre no Rio, de menor abandonado, como se diria hoje. Nem mesmo conheci meus pais. Trabalhei como engraxate e me abriguei na casa dos Esportes. Quando tinha uns 15 anos, foi lá um fazendeiro de São Paulo buscar gente para trabalhar na fazenda dele e eu fui. Aos 18 anos voltei ao Rio novamente como engraxate. Foi quando fiquei sabendo que a Marinha convocava voluntários para a Segunda Guerra Mundial. Eu me apresentei, fui admitido e enviado à Escola de Marinheiros.

 

– E foi à Guerra?

– Não propriamente á Guerra, mas buscar uma tropa pela FEB na Itália. Era para embarcar no navio Camaquã, mas este afundou, então fomos no navio Duque de Caxias. Do Rio fomos direto até o Estreito de Gilbraltar. Passamos por Portugal, França e Itália, onde estava a tropa da FEB.

 

– Como foi a viagem?

– Boa. Tínhamos que catar minas no mar. Junto viajava uma tropa de militares italianos cujo navio afundou, por isso estavam retidos no Porto de Santos. O governo brasileiro aproveitou nossa viagem para manda-los de volta à Italia.

 

– Cumprida essa missão, o que o senhor passou a fazer?

– Voltei à Escola Naval. Em 1949 vi na parede da Escola uma convocação: “Quem quer ir para Foz do Iguaçu?” De Foz do Iguaçu eu sabia das Cataratas porque na Cinelândia havia um desenho delas, ruim por sinal. Resolvi topar o desafio. Viemos eu e um certo capitão Mendes.

 

– A viagem deve ter sido uma epopeia? Como vieram do Rio até Foz do Iguaçu?

– Fomos até São Paulo de trem maria-fumaça. Ficamos lá duas semanas esperando o trem que nos levaria até Ourinhos e de lá até Porto Epitácio. Aí disseram que iríamos até Guaíra de barco. Eu nunca tinha ouvido falar de Guaíra, nem das Sete Quedas. De Guaíra fomos até Porto Mendes naquele trenzinho que hoje está exposto em Guaíra. E de Porto Mendes até Foz viemos no navio Cruz de Malta, que transportava erva-mate para a Argentina.

 

– Enfim, chegaram em Foz do Iguaçu. Que impressão teve do lugar?

– Chegamos ao Porto Iguaçu e o capitão Mende disse “é aqui Foz do Iguaçu”. E eu: “Mas como? Não estou vendo nada!” Na barranca do rio Paraná estavam o batalhão do Exército e a Marinha numa velha casinha de madeira. Na Marinha éramos eu, o comandante Pimentel o capitão Mendes e um artilheiro. No dia seguinte, o comandante me mandou buscar leite a cavalo na propriedade de um tal de Samek. Então vi o que era Foz do Iguaçu, uma casinha aqui, outra ali, mato por todo lado. A vida foi indo, foi indo, eu fui ficando, casei, tive três filhos que criei na base do feijão com arroz.

 

– Mas que história é essa de que a Marinha era composta de apenas quatro pessoas?

– É verdade. Aumentou o contingente depois com a vinda do Corpo de Fuzileiros Navais por causa de uma provocação dos paraguaios, que sequestraram um companheiro nosso, que chamávamos Alemão.

 

– Os paraguaios sequestraram um marinheiro brasileiro? Como foi isso?

– O Alemão estava fazendo guarda no rio Paraná. Veio um barco paraguaio e sequestrou o Alemão com seu barco. O comandante Pimentel foi ao Paraguai negociar a devolução, mas nada conseguiu, então pediu reforço. No dia 7 de setembro 1950 chegou o corpo de Fuzileiros. Saltaram de para-quedas e tomaram conta do Rio Paraná. Foi uma provocação do Paraguai, que inclusive mandou um pelotão de reforço de Encarnación.

 

– Os paraguaios se renderam? Devolveram o Alemão e o barco brasileiro?

– Sim. Mais tarde, porém num jogo de baralho, o Alemão foi morto por paraguaios.

 

– Que outras histórias tem para contar de sua vida de marinheiro, da Capitania dos Portos do rio Paraná?

– Havia naquela época muito contrabando entre Brasil e Paraguai. O que hoje é Receita Federal era Mesa de Rendas, que pedia ajuda à Marinha para reprimir e prender contrabando de farinha, café, cachaça… Certa vez fomos prender um contrabando de cachaça paraguaia Aristocrata, no Porto Britânia, perto de Toledo. Prendemos o contrabando e carregamos num caminhão. Na viagem para Foz do Iguaçu, naquela estrada estreita e poeirenta, nosso caminhão se chocou com outro que levava uma mulher doente para Céu Azul. No acidente eu quebrei uma costela.

 

– O senhor ficou na Marinha até quando?

– Até 1978, quando me aposentei. Para efeito de aposentadoria, quem trabalhava na fronteira contava dois anos para cada ano de trabalho. E nós que participamos da repartição da FEB ainda estamos lutando por uma promoção nos quadras da Marinha para melhorar a aposentadoria. Eu tenho Diploma da Medalha de Serviço de Guerra dado pela Marinha em 1958, e diploma deve valer alguma coisa, não?

 

– Outro campo em que o senhor se destacou foi como músico…

– Sim. Comecei a aprender música na fazenda em que trabalhei em São Paulo. Quando veio a Foz do Iguaçu o corpo de Fuzileiros navais havia entre eles um tal de Alípio que tocava pistão. Eu tocava bombardino, então procuramos  outros músicos e formamos um conjunto. O que tocávamos em carnaval e outras festas não está escrito. Toquei com muita gente boa. Nosso conjunto tocava em todas as cidades da região, principalmente Cascavel. Íamos até Pato Branco, inclusive. Toquei com o Nico, como Chapéu de Palha, Zé Américo, Os senhores do Samba. E não dá de esquecer do conjunto Os Pitungas Boys, formado por mim, Roberto Simões, o falecido Toto Palma, Darci Werner.

 

– E o marujo esportista também tem suas glórias como jogador de futebol. Quais seus grandes feitos futebolísticos?

– Ainda no Rio de Janeiro, havia um time de Niterói, o Biro da Fonseca, nome de um bairro de lá, que tinha o famoso atacante Zizinho, com quem dizia-se que ninguém podia. Foi craque do Botafogo, jogador rebelde, criador de caso dentro e fora do campo. Quando algum time jogava contra o time dele em Niterói vinham me buscar de barco para que eu fosse jogar e marcar o Zizinho. Comigo ele não tinha moleza, não. Também joguei em São Paulo, quando lá trabalhei por volta de 1939/40. Joguei em várias cidades de São Paulo, sem ganhar nada, só por esporte e amor à camisa. Ganhava comida e passagem de trem. Se o jogo era no domingo tinha que embarcar na sexta-feira para São Paulo. Viajava tomando conhaque…

 

– Jogava no Palestra Itália, mas pelas fotos na parede de sua casa, é santista.

– Sim, sou torcedor do Santos.

 

– Mas aqui em Foz do Iguaçu o craque Marujo deixou que marcas nos gramados?

– Quando cheguei aqui, em 1949, dona Elisa Vera (*)  foi me receber com flores no porto, porque eu vinha com fama de ser bom jogador de futebol. O futebol aqui mexia com cidade inteira e todos os clubes me queriam em seus times. O capitão Cyriaco, da Marinha, me fez jogar no Iguaçu, time fundado por ele. Depois saí e joguei muito no ABC Esporte Clube. Joguei muito também em Cascavel. Fui inclusive um dos fundadores do Tuiuti Esporte Clube. Em Foz fui tricampeão pelo ABC.

 

– Quais eram os mesmo times de futebol de Foz do Iguaçu nas décadas de 50,60?

– Havia o ABC, o Guairacá (dos militares do Exército), o Iguaçu e o Industrial Madeireira.

 

– Jogavam também contras times do Paraguai e da Argentina, não?

– Muito. No dia 7 de setembro era tradição virem times do Paraguai e da Argentina para um torneio. E nas datas nacionais deles nós íamos jogar lá. O Brasil sempre ganhava. Nunca perdemos nesses jogos. O povo todo ia ao estádio, até porque a entrada era franca. Infelizmente hoje não se fazem mais aqueles jogos no dia da Pátria. Aquele torneio deveria voltar. Eu também fui muitas vezes jogar em Assunção. Jogava pelo Desportivo Desayno. Vinham me buscar de Jeep. Chovia muito. Viajamos com correntes nas quatro rodas, com pás e picaretas para tirar o Jeep dos atoleiros. Saímos de Foz na sexta-feira e chegamos a Posadas no domingo, na hora do jogo, e eu tive que entrar em campo assim mesmo.

– Que fim levou os “Pitungas”?

– Os Pitungas Boys acabou. Agora só temos um trio: eu no pistão, o professor Gil na guitarra e órgão, e o Toninho no órgão eletrônico. Nossa musica é universal.

 

* Notas da edição:
1 – O filho Vanderley faleceu anos depois da entrevista concedida.
2 – Elisa Vera, na época, era uma espécie de rainha do clube Iguaçu.
3 – O jornalista Juvêncio Mazzarollo faleceu em 2014.

Clique aqui e leia sobre o filme “Menino23”, onde Argemiro dos Santos é um dos protagonistas.


Entrevista reproduzida do livro “Foz do Iguaçu, Retratos”, publicado em 1994, pela editora Campana & Alencar.

 

 


Personas, uma foto e o que dizer

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  –  Texto de apresentação da revista Escrita 45 –  

__escrita45capa-finaleira-menorFaz algum tempo, meses talvez, Chano Marín, uruguaio, biólogo aposentado e amante das artes. De passagem por Foz do Iguaçu, quando visitava a filha que faz mestrado na Unila, foi ao espetáculo de circo sem lona da Troupe da Luz da Lua e assistiu “Muamba” se apresentar. Aí, olho apurado, flagrou a foto que viria a ser esta capa.

Em novembro, fomos conversar com João Batista de Andrade, com o intuito de que escrevesse sobre a vida na arte. Essa ideia, que no caso dele impregna seu dia a dia. “Se você ainda não é palhaço, é porque ainda não escutou a voz de teu coração”, costuma dizer o criador e protagonista da persona “Muamba”. No meio da conversa, em meio à seriedade com que João edifica sua profissão, a foto de autoria de Chano Marín veio à cena. E a Escrita 45 ganhou uma capa.

Chano já acompanhava as edições impressas e também na internet da Guatá, como fomos saber num primeiro contato on line. Ele, que lá na cidade uruguaia de Carmelo também vê importância em se valorizar as expressões de artistas populares, concordou no primeiro instante em fazer parte da edição.

A filha de Chano, Marin Pez, artista circense, também fotografa.  Participa da edição numa foto um tanto inusitada. Ela e o guitarrista argentino Nacho Prassel assinam a quatro mãos “un autorretrato de los dos”, conforme explica. Uma leitura, digamos assim, muito particular de um mundo de ponta-cabeça.

Assim, em dezembro, fruto novamente da generosidade da família Marín, algumas dezenas de exemplares da revista 45 partem em direção do Uruguai levando nossa verve e nossos olhos. E mãos sensíveis em Carmelo e Montevidéo folhearão um bocado de sonhos.

 

AS IMAGENS – Os olhos, aliás, dessa edição de Escrita são muito variados. Estreiam publicando fotografias, Denise Rodrigues, Guilherme Januário, Nadia Ghanem, além de Chano Marin e Nacho Prassel. Todos contribuem com imagens que se juntaram às feitas por Áurea Cunha e Manuella Sampaio. Às fotos, Lalan Bessoni e Dieguito somam traços na revista.

Outras retinas, as da jornalista Izabelle Ferrari, recolheram a história de Dona Nena, 65 anos, e seus coleguinhas de seis anos numa sala de aula. Suas palavras fizeram, mais além da reportagem, uma crônica muito especial sobre analfabetismo, educação, tolerância, solidariedade e perseverança.

Quem também relatou cores, gestos e motivação foi Paulo Bogler. Com fotos dele e de Áurea Cunha pra ilustrar, traçou em poucas linhas a emoção do Tirando de Letra na Feira livre do Bosque Guarani. O programa de incentivo à leitura e às expressões da Guatá marca espaço com livros, jogos, exposições e literatura todas às sextas naquela praça.

 

POESIA SEMPRE – De outro lado, o mosaico da 45 traz a sua tradicional rede tramada em poemas. São inéditos desta vez: Carla Santos, Adna Rahmeier, Hanna Bueno, Nadia Ghanem, Vitória Mazoccante e Juan Cañon. Ah, e também a Joyce Waiand, estudante de filosofia que no final da edição apareceu com seu poema e uma conversa boa em portunhol. A ela e aos outros embarcados em primeira viagem, somam-se Douglas Diegues, Cynthia Lopes, Jazmín Gutiérrez, Kariny Wermouth e Sylvia Araújo.

Também dão linha nessa construção, textos em prosa. Micaele Jenifer fala sobre o individualismo. Isabel Sala, desde Barcelona, na Espanha, envia a história de “niños voladores”. Karina Mosckowich fala sobre o caminhar e o caminho. Finalmente, Sidney Giovenazzi, Silvio Campana e Wemerson Augusto contam “causos”, cada um a seu modo.

Na Escrita 45, como é de praxe nas coisas da Guatá, o tudo ao mesmo tempo agora, acontece. Há a mistura, há a associação de ideias, há a vertente livre da expressão humana. São pessoas, uruguaias, argentinas, paraguaias, brasiguaias, colombianas, brasileiras. De todos os jeitos e gostos. Mas quando colam suas criações nas páginas em preto e branco da revista da Guatá, ganham identidade com o Mundo. É que de suas mãos e sem volta já saíram expressões para esclarecer, questionar, amar, confundir, voar. E, então, são imagens que são poemas. São poemas que são imagens. São contos delineando linhas e cores; ou desenhos gritando e propondo música. Há a esperança e há o conflito, o grave e o agudo. Seja em português, portunhol, espanhol, guarani ou em silêncio.

Há vida na liberdade de se dizer. Há vida na liberdade a lhe dizer. E aí, só falta você ouvir com os seus próprios olhos. Boa leitura.


Silvio Campana, editor da revista Escrita 45

 


“Menino 23” em Foz

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  –  Cine Debate na Unila coloca o racismo e o trabaho escravo no Brasil em pauta. “Menino 23”, documentário que é baseado numa história dos anos 30, durante o Estado Novo. Entre os 50 meninos explorados na época, estava Argemiro dos Santos, atual morador de Foz do Iguaçu  –  

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Argemiro dos Santos, hoje com 92 anos, mora em Foz do Iguaçu. Na cidade ficou conhecido pelo seu amor à música e ao futebol. Ele foi um dos 50 meninos levados para trabalhar à força numa fazenda paulista, na década de 30 do século passado. (Foto: reprodução de ‘Menino 23″)

Na próxima quarta-feira, dia 30, a Unila realiza mais um Cine Debate. Desta vez, discutindo o documentário “Menino 23: infâncias perdidas no Brasil”. Ele é baseado na dissertação de doutorado de Sidney Aguilar Filho e está em cartaz em seis capitais brasileiras. A sessão em Foz do Iguaçu será no campus da Unila, às 18h, e contará com a participação de Argemiro Santos, um dos entrevistados no filme.

 

 Uma revelação em sala de aula da existência de tijolos marcados com a suástica descortinou uma triste face da sociedade brasileira: uma fazenda no interior de São Paulo que manteve 50 crianças em regime de trabalho pesado, entre 1920 e 1930. A história é o tema central do documentário “Menino 23: infâncias perdidas no Brasil”.Dirigido por Belisário França e baseado na dissertação de doutorado de Sidney Aguilar Filho, o filme acompanha as pesquisas do professor pelos rastros dessa história e ouve alguns sobreviventes como Aluizio Silva, o menino “23” do título, morto em 2015, aos 93 anos. Além dele, o filme registra o depoimento de Argemiro Santos, hoje com 92 anos, morador de Foz do Iguaçu.

Argemiro dos Santos, hoje aposentado da Marinha e com a saúde debilitada,  nunca havia revelado o assunto para sua família até ser procurado pelos produtores do filme.  O “Marujo’, apelido pelo qual Argemiro ficou conhecido pelos iguaçuenses, veio à cidade nos anos 50 para servir na Capitania dos Portos do Paraná, em Foz do Iguaçu. Desde então, seu nome foi sinônimo de amor à música e ao futebol da cidade.
(CLIQUE  E LEIA ENTREVISTA CONCEDIDA POR ARGEMIRO DOS SANTOS, O “MARUJO”, EM 1990)

_menino23-cartazSinopse – A partir da descoberta de tijolos marcados com suásticas nazistas em uma fazenda no interior de São Paulo, o filme acompanha a investigação do historiador Sidney Aguilar e a descoberta de um fato assustador: durante os anos 1930, cinquenta meninos negros e mulatos foram levados de um orfanato no Rio de Janeiro para a fazenda onde os tijolos foram encontrados. Lá, passaram a ser identificados por números e foram submetidos ao trabalho escravo por uma família que fazia parte da elite política e econômica do país, e que não escodia sua simpatia pelo ideário nazista. Aos 83 anos, dois sobreviventes dessa tragédia brasileira, Aloísio Silva (o “menino 23”) e Argemiro Santos, assim como a família de José Alves de Almeida (o “Dois”), revelam suas histórias pela primeira vez.

Serviço:
CineDebate Unila  – “Menino 23: Infâncias perdidas no Brasil
Dia 30 de novembro, Horário: Das 18h às 22h – Sessão de Cinema e Debate. Participação de personagem do filme.
Na Unila – Campus Jardim Universitário –

Ficha Técnica: “Menino 23”
Diretor: Belisario Franca – Roteiro: Bianca Lenti, Belisario Franca – Música: Armand Amar
Direção de Fotografia: Thiago Lima, Mário FrancaFotografia: Thiago Lima, Mário Franca, Lula Cerri
Direção de Arte: Rogério Costa – Edição: Yan Motta – Som: Ivanildo Silva  – Produção: Maria carneiro da Cunha
Produção Executiva: Cláudia Lima – Coprodução: Globo Filmes, Giros, GloboNews – Distribuição: Elo Company


 

Guatá com Assessoria Câmara /Unila – Angela Souza 

 


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