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Acabou a censura

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  –  Um conto de Augusto Boal  –  

               tres-macacosToríbio entrou na redação do “Diário” e se fechou no seu pequeno escritório de vidro. Dali, podia ver todos os seus companheiros de trabalho, seus subordinados: ele era o chefe da redação. E esse era um dia muito especial: depois de muitos anos, tinha recebido a informação da Censura Federal de que o censor já não iria mais fazer o seu trabalho preventivo. De hoje em diante não existiria mais censura prévia!

                Que felicidade! Mas é lógico que cada jornal seria responsável por tudo que publicasse. Isto é, cada chefe de redação, responsável por todo o jornal, retornaria à plenitude de sua autoridade.

                _ Aqui só se publica o que eu mandar!, pensou contente o Toríbio, e da sua cadeira olhou para a meda do censor, para sempre desocupada…

                Liberdade de imprensa! Jornalismo responsável! Nação civilizada no concerto das nações livres e adultas!

_ Eu sou o chefe da redação! Eu! O chefe! Aqui mando eu! O que se publica e o que não se publica, quem decide sou eu! Eu! Eu! Eu!

Claro, dentro de certos limites, impostos pela convivência. Por exemplo, é lógico que a decisão final pertença ao do jornal e não ao chefe da redação, que é simplesmente um dos seus muitos funcionários…Lógico… E o próprio dono não decide assim porque sim: a opinião dos anunciadores um fator determinante, já que representa o poder econômico… Lógico… Mas, enfim, retornava agora a liberdade plena… dentro de certos limites… Isto é, os limites existentes em outros países.

Liberdade! Nunca mais a figura sinistra do Censor, nunca mais sua voz autoritária:

– Isto pode, isto não pode! Vai, não vai!

– Tem que suavizar esse artigo inteiro!

– Sobre esse assunto nem uma palavra!

– Vocês que se virem minha função aqui é cortar, cortar, e não escrever artigos e noticias pra vocês. – Eu corto e vocês que se arranjem…

– Tudo acabado! Vida nova! Uma nova era! Liberdade COM responsabilidade. Aqui mando eu!

E Toríbio abriu uma gaveta, tirou de dentro um caderno, e começou a folheá-lo. Aí escrevia todas as “manchetes” que lhe vinham à cabeça, tivessem ou não relação coam a realidade. Escrevia as manchetes mais explosivas e ficava esperando que acontecesse alguma coisa e que lhe permitisse publicá-las. Por exemplo: TERREMOTO! em letras garrafais, ocupando toda a página. Ou então: FURACÃO ARRASA A CIDADE! Mas é lógico que tais excessos das intempéries não ocorrem no Rio de Janeiro e tais manchetes jamais seriam publicadas.

Toríbio tinha guardadas também outras manchetes mais viáveis: CHUVAS TORRENCIAIS AMEAÇAM DESTRUIR NOSSA QUERIDA CIDADE, ou, ainda no capítulo dos sinistros, FOGO NO PALÁCIO DO GOVERNO: TEME-SE PELA VIDA DO PRESIDENTE, PRESO ENTRE AS CHAMAS, ou ainda, VIOLENTA EXPLOSÃO SACODE O CENTRO DA CIDADE, SEMEANDO O PÂNICO E A INCERTEZA.

Depois de ler todas essas manchetes em “estoque”, Toríbio chegou à conclusão de que não tinha nenhuma que pudesse servir para esse dia tão especial, em que o “Diário” publicaria sua primeira edição livre de Censura. Decidiu então pedir a ajuda dos seus companheiros…

O primeiro a ser consultado foi o velho redator de xadrez, que como sempre, não levou o Toríbio muito a sério:

– Você quer uma boa manchete? Como não? é para já! Põe assim: FISCHER DECIDE QUE SÓ DISPUTARÁ O CAMPEONATO MUNDIAL COM KARPOV SE A FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE XADREZ PROMETER QUE CONSERVARÁ A COROA EM SEU PODER. Está um pouco comprida, mas é muito boa, você não acha?

Toríbio não perdeu tempo em responder. Perguntou ao chefe da página de esportes.

– Quero alguma coisa sensacional! Explosiva! Detonante! Extraordinária!

– Pra quê?

– Pra manchete!

O chefe da página de esportes pensou primeiro e depois, com uma cara muito triste e sem nenhuma convicção, fez sua proposta:

– DUELO EMOCIONANTE PELO TERCEIRO POSTO DA QUINTA DIVISÃO: ARSENAL VERSUS FERROVIÁRIA! Que tal?

Caramba! Não era possível! Uma data tão importante, um acontecimento tão maravilhoso, talvez até mesmo mais significativo que a própria fundação do “Diário”, e nenhuma manchete digna dessa efeméride. Não era possível, insistiu e o chefe da página esportiva tentou outra vez:

– Bem, na próxima semana vai ser o encontro entre Kid Mosca e Tony Malaleche. Talvez daí se possa tirar alguma coisa…

– Tony Malaleche, sei… esse da mãe? Perguntou um pouco mais animado o velho Toríbio. Pode ser que por aí se consiga alguma coisa… Me conta como foi o caso esse…

– A mãe do rapaz estava meio moribunda… então o Tony Malaleche pediu a ela que não morresse antes dele ser consagrado campeão do bairro. Podíamos por uma manchete mais ou menos assim: PROMESSA À MÃE MORIBUNDA: JURO MATÁ-LO ANTES DO 10 ROUND, MÃEZINHA!

Toríbio não gostou muito da sugestão. Como podiam falar de tantas mortes no dia em que começava vida nova para o jornal!?!

Toda a redação já estava começando a se preocupar seriamente com a falta de uma boa manchete para o dia seguinte. O encarregado da seção policial fez diversas propostas relacionadas com todos os crimes e desastres do dia, mas essa não havia sido uma jornada demasiado pródiga em acidentes ou violências. O máximo que lhe ocorreu foi propor.

– ORIGINAL SUICÍDIO: ATEOU FOGO ÀS VESTES EM PLENA RUA!

Toríbio ficou furioso: Como publicar semelhante manchete em semelhante dia!? E além disso, aonde estava a originalidade? Desde há muito os bonzos budistas e as mulatas da favela já haviam popularizado essa forma de suicídio. Caramba! Gritando, pediu, suplicou, implorou, exigiu que alguém lhe oferecesse uma manchete pelo menos razoável. Prometeu astronômicos aumentos de salários, férias extraordinárias na metade do ano, tudo, tudo, em troca de uma boa manchete! Chamou todos os redatores, fechou as portas do seu escritório com todos lá dentro, explicou o seu desespero e ameaçou não abrir a porta até que não tivesse o problema resolvido.

Fez-se um longo silêncio, denso de pensamentos e de fumaça de cigarro. Entre os muitos redatores de política, havia um jovem estudante que recém começara, como aprendiz. O pobre rapaz, timidamente, pediu que não o levassem a mal, que não fossem pensar que ele queria competir com tantos campeões do jornalismo pátrio, mas que, na sua modesta opinião, a manchete desse dia tão excepcional teria que se relacionar com a política, e não com os outros ramos da atividade nacional, como o box, o futebol e os suicídios.

– E daí? Você pensou alguma coisa???, perguntou Toríbio.

Imperturbável, o jovem continuou explicando que, considerando as eleições recentemente celebradas, a manchete teria que se referir não apenas à política em geral, mas precisamente ao resultado das eleições, em particular. Todos concordaram, embora lhes fosse difícil re-acostumar-se a escrever de política, assim na primeira página, e com tanto destaque, sobre um tema, digamos, ingrato.

– Você pensou em alguma coisa? Como é? Pensou ou não pensou?, repetia angustiado Toríbio, olhando os ponteiros do relógio que se aproximavam da meia-noite, limite imposto pra a entrega de todo o material às oficinas gráficas.

O jovem reiterou que não o levassem a mal e que, embora não tivesse dito nada antes, pensava ter uma excelente manchete para a primeira edição do “Diário”, sem censura. Mas, ao mesmo tempo, tinha plena convicção de que não merecia essa honra, ele, um mero egresso da escola de jornalismo.

– Diz logo de uma vez qual é!, gritou enfurecido o Toríbio. – Como é? Como é?!

Muito pausademente, o jovem leu a manchete que tinha preparado: VERDADEIRO PLEBISCITO:  O POVO MOSTROU SEU VIOLENTO REPÚDIO À DITADURA, VOTANDO MACIÇAMENTE NOS CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO.

Houve um silêncio indeciso. Ninguém sabia o que pensar. Em parte, pareciam todos aprovar; em parte, tinham medo. Ou, pelo menos, sentiam-se muito pouco à vontade. O jovem justificou sua opinião.

– Bom… é que… afinal de contas… acabou a censura… felizmente… Por isso pensei que convinha dar nome aos bois…

– É… felizmente… acabou a censura…mas, afinal de contas, como diz você… somos gente responsável… – gaguejou Toríbio olhando o relógio, que marcava as onze e meia.

O redator de xadrez estava olhando fixamente para o papel onde o jovem tinha escrito a sua sugestão, e com os dedos tocava as palavras como se fossem pedras do seu jogo. Finalmente, rompeu o silêncio:

– Aqui vai ser preciso mover a Ditadura…, disse secamente.

– Como mover???, perguntou assustado Toríbio.

– Quero dizer, trocar, corrigiu o velho. Se se tira a palavra Ditadura, eu acho que fica uma manchete muito bonita…

– Vamos ver, disse Toríbio.

– Ficaria assim: VERDADEIRO PLEBISCITO: O POVO MOSTROU SEU VIOLENTO REPÚDIO AO GOVERNO VIGENTE, VOTANDO MACIÇAMENTE NOS CANDIDATOS DE OPOSIÇÃO.

O jovem parecia condescender com a modificação, mas Toríbio ainda não estava contente.

– Tem que mover mais, vai ser preciso mover um pouco mais. Não podemos saltar da censura mais estrita para o verdadeiro caos da liberdade incontida! Irrefreável! Não, não pode ser assim! Temos que ir devagar, devagarinho vamos conquistar essa nova liberdade que nos foi outorgada, jovem, mas ao mesmo tempo cheios de responsabilidade, de fervor patriótico!…

Timidamente, o estudante perguntou o que mais ele queria cortar!

– Bom, em primeiro lugar não podemos afirmar que as eleições foram um plebiscito em que o povo julgou o governo…

Ouviram-se vários “Foi! Não Foi! Foi!”, até que a calma pode ser restabelecida com uma nova proposta do redator de xadrez.

– Põe assim, em lugar de VERDADEIRO PLEBISCITO, põe assim: VITÓRIA DA DEMOCRACIA. O resto fica igual. E ninguém vai me dizer que não foi uma vitória da democracia…

Uma vez mais o jovem se acomodou:

– Se não mudar nada mais, eu vou continuar gostando dessa manchete…

Mas Toríbio continuava insatisfeito. Perguntou a opinião dos demais, queria suas opiniões sinceras, despidas de preconceitos. Houve uma feroz discussão: uns acreditavam que a expressão VIOLENTO REPÚDIO era demasiado provocadora, que o governo não iria aceitar isso assim tão tranquilo, que o melhor era botar MOSTROU SEU DISCERNIMENTO em lugar  do MOSTROU SEU VIOLENTO REPÚDIO AO GOVERNO VIGENTE.

Ceticamente, o redator esportivo comentou:

– E o povo lá tem discernimento? Tá ficando louco, seu! O povo que todos os dias engole essas telenovelas, essas fotonovelas, essas lutas de catch pela televisão, o povo lá vai ter discernimento??? Já que acabou a censura, o melhor é dizer a verdade! Eu proponho que fique assim: O POVO REVELOU SUAS PREFERÊNCIAS. Está mais do que bom…

O jovem quis defender suas teses sobre os meios de comunicação maciça, tentando argumentar que a propriedade privada desses meios determina ideologicamente o conteúdo dos programas apresentados, etc…, mas o enxadrista foi cortante:

– Eu estou de acordo! Eu também prefiro PREFERÊNCIAS!

Toríbio quis saber como é que ficaria a frase inteira e o jovem, visivelmente contrariado, leu:

– VITÓRIA DA DEMOCRACIA: O POVO MOSTROU SUAS PREFERÊNCIAS VOTANDO MACIÇAMENTE NOS CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO… Não é a mesma coisa, não é a mesma coisa… lamentava-se o estudante.

– Não é a mesma coisa, mas está muito melhor. Pragmatismo, meu filho! Do jeito que está, pode ser que vá…, ensinava o esportista.

Para Toríbio, contudo, ainda faltava esclarecer alguma coisa. A palavra maciçamente se referia, como é lógico, ao povo, coletivamente, genericamente, globalmente. Mas isto não ocorria neste caso. O país tem mais de 100 milhões de habitantes, mas votaram menos de 20. A grande maioria se compõe de analfabetos ou de gente marginalizada. Por isso, falar de votação maciça, era antes de tudo uma expressão de desejo e não uma realidade concreta.

– Sentido figurado… Sentido figurado, argumentava o jovem.

– Licença literária, apoiou o enxadrista.

Mas Toríbio não parecia querer-se permitir licenças literárias nem sentidos figurados… Ordenou que se cortaria a palavra, pura e simplesmente.

Quando já iam reler uma vez mais, o redator policial protestou contra o uso da palavra OPOSIÇÃO. Alguém explicou que essa é a palavra mais inofensiva  do vocabulário político, mas ele contra argumentou que tudo dependia do contexto. Podia ser inofensiva ou altamente perigosa. Neste caso particular, dizer que o povo havia votado na oposição permitia inferir-se que o povo estava descontente com o governo, e isso podia parecer uma agressão. Além disso restabelecia, de fato, o significado da expressão cortada VERDADEIRO PLEBISCITO.

Toríbio ficou na dúvida. O jovem desesperado, balbuciou:

– Mas aqui se trata de uma Oposição consentida…

– Lógico, meu filho, mas não podemos dizer que O POVO VOTOU NA OPOSIÇÃO CONSENTIDA!, defendeu-se a gritos o redator policial.

O velho enxadrista manipulava palavras:

– E neste caso específico é preciso primeiro ver se os opositores se opõem…

– É melhor botar assim: NOS CANDIDATOS DE SUA PREFERÊNCIA, ditou Toríbio.

– Fica reiterativo, protestou o jovem. São demasiadas preferências…

– Aqui, mando eu!, disse Toríbio, prepotentemente, sentindo que reconquistava a autoridade. E, para se certificar, repetiu: – Mando, eu!

O relógio marcava meia-noite menos cinco minutos. Toríbio escrevia rapidamente cortando palavras e restaurando outras. Finalmente, entusiasmado, pediu a atenção de todos:

– Eu acho que já está bem. Escutem. Vai ficar assim: VITÓRIA DA DEMOCRACIA: O POVO VOTOU LIVREMENTE NOS CANDIDATOS DE SUA PREFERÊNCIA. Ninguém pode se queixar. Que é que vocês acham? Que é que vocês acham?

E sem esperar respostas, ele mesmo sentenciou:

– Maravilhoso! Estupendo! Sensacional! Você, rapaz, merece uma recompensa! Você teve uma ideia genial! Você é o autor da primeira manchete desta nova era de liberdade, porque agora sim, felizmente, acabou a censura! Agora podemos publicar tudo que a gente quiser! Tudo!, e abraçou o rapaz, sinceramente comovido.

– A minha proposta era outra, protestou o jovem. Eu propus: VERDADEIRO PLEBISCITO: O POVO MOSTROU SEU VIOLENTO REPÚDIO À DITADURA, VOTANDO MACIÇAMENTE NOS CANDIDATOS DA OPOSIÇÃO. Não é a mesma coisa que VITÓRIA DA DEMOCRACIA: O POVO VOTOU LIVREMENTE NOS CANDIDATOS DE SUA PREFERÊNCIA. Não é a mesma coisa. Digo mais, não tem nada que ver…

– Deixa isso pra lá… um pouco de copy-desk não faz mal a ninguém, argumentou Toríbio. Isso pertence à melhor tradição jornalística de todos os países…

Tirou da gaveta uma garrafa de whisky importado e ofereceu um trago a todos. Era meia-noite em ponto. Um operário veio das oficinas para buscar a manchete do dia, além de todo o material que faltava. Toríbio terminou de copiá-lo, ele mesmo, em sua versão definitiva e entregou o papel ao operário que também tomou seus goles, antes  de ir embora.

O ambiente era de festa. A frase que mais se ouvia era sempre a mesma: FELIZMENTE, ACABOU A CENSURA! Subitamente, no meio da alegria geral, uma vez mais Toríbio começou a se preocupar.

– Escutem… Eu acho que cometi um erro enorme… A manchete ainda não estava terminada, não estava…

– E o que é que ainda precisava cortar?, perguntou desalentado o jovem.

Toríbio muito assustado, tentou lembrar-se do texto:

– Vitória da Democracia: O POVO…

Fez uma longa pausa e, cheio de medo, perguntou:

– Digam sinceramente: vocês não acham que a palavra POVO soa um tanto subversiva…?


Augusto Boal, diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta brasileiro (1931-2009). O conto foi reproduzido do livro “Crônicas de Nuestra America”, lançado pelo editora Codecri, em 1977.

 

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