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Mahura, a moça trabalhadeira

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  –  Um conto africano. Origem: Moçambique  –  

ceu-noite

Quando Olorum criou o universo, o céu e a terra viviam juntos e em perfeita harmonia: as gotas de chuva se juntavam às águas das cachoeiras, o vento e a brisa eram companheiros inseparáveis e propiciavam um belo espetáculo formando mosaicos de folhas secas e gravetos, os homens compartilhavam a vida e não havia distinção de credo e cor, pois todos faziam parte de uma única raça: a humana.

 

Um dia, a terra achou que havia chegado a hora de ter um filho e deu à luz uma bela jovem na aldeia Okulo a quem deu o nome de Mahura, que significa moça trabalhadeira.

 

Mahura cresceu depressa e logo desenvolveu suas aptidões: trabalhava incansavelmente e com muita disciplina. Durante o dia, cuidava dos ciclos da natureza e, quando o sol se punha, sentava-se ao chão perto de um enorme pilão que usava para triturar raízes, sementes e cascas que serviriam para fazer a tintura colorida que tingia a palha e o algodão que vestia a sua tribo.  Só que o pilão que Mahura usava era mágico e, quanto mais usado, mais crescia e, como a jovem era alimentada pelo trabalho, mais vigor empreendia na sua labuta.

 

Tanto o pilão cresceu que começou a machucar o céu que no início gemia baixinho; mas, não conseguindo suportar as dores causadas pela mão-de-pilão de Mahura, passou a reclamar.

 

– Céu, sobe mais um pouquinho! – pedia a moça.

 

Com isso, o céu foi se distanciando, distanciando, se tornando cada vez mais inacessível até chegar a ponto das nuvens não poderem mais brincar livremente e as gotas de chuva não conseguirem mais manter o solo úmido e fértil que foi ficando fraco e pobre. As frutas não mais brotavam nas árvores como flores em buquê e a tristeza tomou conta de tudo.

 

Também Mahura ficou infeliz e resolveu pedir desculpas ao céu que estava tão inatingível e não ouviu suas lamúrias. Então, a jovem resolveu ofertar um presente, retirou uma pepita dourada do leito de um rio dando-lhe o nome de Sol e, de uma caverna escura, retirou uma pedra redonda e reluzente à qual batizou de lua.

 

Atirou os presentes bem para o alto, um de cada lado do céu como um pedido de desculpas que aceitou as oferendas, mas preferiu ficar lá em cima, pois era mais seguro.

 

Assim contaram, assim lhes contei: se dúvida tiverem do causo aqui narrado, olhem à noite para o céu. As estrelas que virão brilhando nada mais são do que as cicatrizes deixadas pelo pilão de Mahura.


Conto africano, criação coletiva, originalmente de transmissão oral.

 


Supremo Aniversário

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  –  Paraguai celebrará centenário do escritor Augusto Roa Bastos durante todo o ano de 2017  –  

 

Augusto Roa Bastos, autor de "Yo, El Supremo", completaria 100 anos em 2017. (Foto: Pg12)

Augusto Roa Bastos, autor de “Yo, El Supremo”, completaria 100 anos em 2017. (Foto: Pg12)

“Un pueblo sólo es libre por voluntad de espíritu colectivo, y por nadie más que por él mismo puede ser liberado” (Roa Bastos)

 

Escritor paraguaio de maior referência internacional e um dos grandes nomes da literatura latino-americana, Augusto Roa Bastos será celebrado em 2017, ano do centenário de seu nascimento. O autor compôs ensaios, roteiros, poesias e romances que foram traduzidos em dezenas de países, além de atuar no jornalismo. Roa Bastos recebeu diversas premiações, com destaque para o Prêmio Cervantes, mais importante distinção da literatura de língua espanhola.

 

O centenário em homenagem a Roa Bastos terá início no dia 1° de janeiro, no Paraguai e em vários países, especialmente na Argentina, França e Espanha, onde o escritor viveu e desenvolveu as suas atividades. Estão previstas ações em universidades, centros culturais e feiras de livros, abrangendo conferências, exposições, reedições de livros, ciclos de cinema de filmes com roteiros escritos por Roa Bastos e peças teatrais.

 

Exposição inaugurada em Assunção reúne documentos e detalhes da vida e da obra de Roa Bastos.

Exposição alusiva ao centenário de Roa Bastos.

A parte mais importante da agenda comemorativa ao centenário de Roa Bastos será realizada no dia 26 de abril de 2017, data da morte do escritor, ocorrida em 2005, quando Roa Bastos tinha 87 anos de idade, e no dia 13 de junho, quando nasceu o escritor paraguaio.

Para tanto, já estão previstos dois grandes concursos, um de roteiro cinematográfico e, outro, de literatura.

“Queremos que esta comemoração seja popular, que as pessoas se apropriem de Roa Bastos, que o recordem e saibam quem foi”, afirmou ao jornal argentino Mirta Roa, filha do escritor.

 

roa-bastos2A obra – A principal obra de Roa Bastos é “Yo, el supremo” (“Eu, o supremo”), romance de 1974 e que até hoje fascina leitores das boas narrativas latino-americanas ou interessados em se aprofundar em enredos cheios de personagens autoritários e tiranos que ainda hoje fazem sombra na história dos países do continente. Entre seus romances, ainda destacam-se “Hijo de hombre” (1960), “Vigilia del almirante” (1992) e as coleções de contos “El sonámbulo” (1976) e “La tierra sin mal” (1998). Seu último livro foi “Madama Sui” (1996).

 

Na vida – Com apenas quinze anos, Roa Bastou participou como enfermeiro da Guerra do Chaco (1932-1935), entre Paraguai e Bolívia. Em 1947, foi obrigado a exilar-se na Argentina, devido à ditadura que tomou o Paraguai, fato e circunstância que repetiram-se em 1970. Em 1982, perdeu a cidadania paraguaia. Depois de quatro décadas fora, pôde regressar ao seu país em 1989, com o fim do regime ditatorial de Alfredo Stroessner.

Leia “Esos Rostros Oscuro”, um conto de Augusto Roa Bastos, editado pela Guatá.


 

Guatá/ com pag12


Reserva de vida

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  –  Parque Nacional do Iguaçu: 30 anos do título de Patrimônio da Humanidade  –

Cataratas do Iguaçu: a granda atração para os visitantes do Parque Nacional

Cataratas do Iguaçu: a grande atração para os visitantes do Parque Nacional

Há trinta anos, o Parque Nacional do Iguaçu recebia o título de Patrimônio Natural da Humanidade da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O sítio foi inscrito na lista do patrimônio mundial em 28 de dezembro de 1986, devido ao conjunto de quedas d´água que formam as Cataratas do Iguaçu e pela importância ambiental da reserva florestal de Mata Atlântica.

Cutia, um dos mamíferos que compõem a fauna protegida pelo Parque Nacional do Iguaçu. (Foto: H2Foz/ N.Rolim)

Cutia, um dos mamíferos que compõem a fauna protegida pelo Parque Nacional do Iguaçu. (Foto: H2Foz/ N.Rolim)

O Iguaçu foi criado em 10 de janeiro de 1939, por decreto do presidente Getúlio Vargas. Antes disso, em 1916, o aviador brasileiro Alberto Santos Dumont visitou a região de Foz do Iguaçu (PR) e comprometeu-se a pleitear do presidente do Estado do Paraná a desapropriação da área que abriga as Cataratas, até então de posse privada. Três meses depois, um decreto estadual determinou a utilidade pública das terras, abrangendo 1008 hectares.

O parque, na fronteira entre o Brasil e a Argentina, impressiona pela exuberância e pela diversidade da fauna e da flora. A área é moradia de diversos animais ameaçados de extinção, como a onça-pintada e o jacaré-de-papo-amarelo, entre outras espécies raras. Segundo a Unesco, são 257 espécies de borboletas, 18 de peixes, 12 de anfíbios, 41 de serpentes, 8 de lagartos, 340 de aves e 45 de mamíferos.

A flora do Parque Nacional do Iguaçu também é muito variada, reunindo exemplares de grade porte, como pinheiro-do-paraná, cedro, peroba-rosa, ipê, canela, pau-marfim, timbaúba, além de inúmeras orquídeas e bromélias. Considerado uma das últimas áreas de Mata Atlântica, o parque é a maior reserva de floresta pluvial subtropical do mundo.

Sob o Aquífero Guarani, um dos maiores mananciais de águas subterrâneas do mundo, o Parque Nacional do Iguaçu expande-se por 185 mil hectares. Integrado ao argentino Parque Nacional del Iguazu, o território ambiental protegido soma 260 mil hectares. A denominação Iguaçu vem do guarani (i = água, guaçu = grande), sendo atribuída por pesquisadores aos índios caingangues, antigos habitantes desse ecossistema.

 

Paraná espanhol – A área do Parque Nacional do Iguaçu serviu de passagem a expedições espanholas na América do Sul. Em 1542, a tropa do desbravador Dom Álvar Nunes Cabeza de Vaca, seguindo à bacia do rio da Prata, contemplou as Cataratas do Iguaçu. Nos séculos dezessete e dezoito, Portugal e Espanha disputaram a região. Sob a bandeira das missões jesuíticas, a Coroa Espanhola apossou-se de vasta área do território que atualmente configura o Paraná.

Em 1619, a expedição paulista de Manoel Preto percorreu a região para prear indígenas e combater as missões jesuíticas. O objetivo português foi atingido logo depois pelo bandeirante Antonio Raposo Tavares, que trinfou na região comandando 69 paulistas, 900 mamelucos e 2000 indígenas. Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri, o território em litígio foi integrado ao Mapa do Brasil, sob domínio dos portugueses.

 

Parque – O Parque Nacional do Iguaçu é dirigido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal responsável pela gestão das unidades de conservação brasileiras. Aberto diariamente, das 9h às 17h, a reserva pode ser visitada durante o ano todo. Para saber mais sobre os atrativos do parque e compra de ingressos, acesse: http://www.cataratasdoiguacu.com.br/

Faz 100 anos: Clique aqui e leia de Santos Dumont ao jornal Estado de São Paulo sobre as Cataratas do Iguaçu

Leia também: Parque Nacional do Iguaçu já teve milhares de moradores


 

Guatá / Paulo Bogler – Fotos: H2foz/Nilton Rolim


Passagem do Ano

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  –  Um texto de Carlos Drummond de Andrade  –  

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PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce
[morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo.
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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 Carlos Drummond de Andrade, escritor brasileiro. (1902-1987)
“A Rosa do Povo”, 1945. Carlos Drummond, Poesia Completa. São Paulo: Nova Aguilar, 2002


Manual de Instruções

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  –  Um conto de Julio Cortazar  –  

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A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo, esbarrar cada manhã com o paralelepípedo de nome repugnante, com a satisfação canina de que tudo esteja em seu lugar, a mesma mulher ao lado, os mesmos sapatos e o mesmo sabor da mesma pasta de dentes, a mesma tristeza das casas em frente, do sujo tabuleiro de janelas de tempo com seu letreiro HÔTEL DE BELGIQUE.

 

Enfiar a cabeça como um touro apático contra a massa transparente em cujo centro bebemos café com leite e abrimos o jornal para saber o que aconteceu em qualquer dos cantos do tijolo de cristal. Resistir a que o ato delicado de girar a maçaneta, esse ato pelo qual tudo poderia se transformar, possa cumprir-se com a fria eficácia de um reflexo cotidiano. Até logo, querida. Passe bem.

 

Apertar uma colherinha entre os dedos e sentir seu latejar metálico, sua advertência suspeita. Como custa negar uma colherinha, negar uma porta, negar tudo o que o hábito lambe até dar-lhe uma suavidade satisfatória. Quanto mais simples é aceitar a fácil solicitação da colher, usá-la para mexer o café.

 

E não é mau que as coisas nos encontrem outra vez todo dia e sejam as mesmas. Que a nosso lado esteja a mesma mulher, o mesmo relógio e que o romance aberto em cima da mesa comece a andar outra vez na bicicleta de nossos óculos, por que haveria de ser mau? Mas como um touro triste é preciso baixar a cabeça, do centro do tijolo de cristal empurrar para fora, em direção ao outro tão perto de nós, inacessível como o toureiro tão perto do touro. Castigar os olhos fitando isto que anda no céu e aceita astuciosamente o nome de nuvem, sua resposta catalogada na memória. Não pense que o telefone vai lhe dar os números que procura. Por que haveria de dá-los? Virá somente o que você tem preparado e resolvido, o triste reflexo de sua esperança, esse macaco que se coça em cima de uma mesa e treme de frio. Quebre a cabeça desse macaco, corra do centro em direção à parede e abra caminho. Oh, como cantam no andar de cima! Há um andar em cima nesta casa, com outras pessoas. Há um andar de cima onde moram pessoas que não percebem seu andar de baixo, e estamos todos dentro do tijolo de cristal. E se, de repente, uma traça pára pertinho de um lápis e palpita como um fogo cinzento, olhe-a, eu a estou olhando, estou apalpando seu coração pequenino, e ouço-a: Essa traça ressoa na pasta de cristal congelado, nem tudo está perdido. Quando abrir a porta e assomar à escada, saberei que lá embaixo começa a rua; não a norma já aceita, não as casas já conhecidas, não o hotel em frente; a rua, a floresta viva onde cada instante pode jogar-se em cima de mim como uma magnólia, onde os rostos vão nascer quando eu os olhar, quando avançar mais um pouco, quando me arrebentar todo com os cotovelos e as pestanas e as unhas contra a pasta do tijolo de cristal, e arriscar minha vida enquanto avanço passo a passo para ir comprar o jornal na esquina.


 

Julio Cortázar, escrito argentino. (1914-1984). Extraído de “Histórias de Cronópios e Famas”. 


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