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Duas cicatrizes

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  –  Um conto de  Beto Maciel  –

 

– Você não pode tirar a camisa? – perguntou a doutora Xiao.

– Mas as agulhas não são para orelhas, cabeça, nuca? – devolvi. Por motivos óbvios nunca, ou quase, tirei camisa na frente de alguém.

Engordei muito, minha barriga é enorme e as mamas cresceram, meu tronco ficou uma massa de gordura amorfa, desproporcional ao resto do corpo, horrível. Enfim, não há auto-estima que agüente.

– Você reclama de estresse, reclama de do no lado esquerdo, costas, tem que tirar a camisa – ordenou Xiao, acupunturista chinesa, velha, parecia ter 60 anos, baixinha, gordinha, atarracada.

– Você não quer emagrecer? Mulheres me procurar para aplicar agulhas para emagrecer. – sugeria Xiao enquanto as minhas protuberâncias saltavam fora da camisa.

– Não. – respondi secamente. Só estresse, insônia e dor no lado esquerdo, costas. Pode apagar as luzes? – emendei rapidamente, nervoso.

– Não, tenho que aplicar as agulhas, antes. O que são essas cicatrizes nas costas? – perguntou Xiao.

A resposta já havia treinado com outros médicos, com outras mulheres, amigos e aqueles que flagravam as duas cicatrizes simétricas, de cinco centímetros, na altura das escápulas.

– Eram duas asas que foram cortadas para eu poder viver entre os simples mortais.

Doutora Xiao abriu um sorriso de dentes amarelos, com um grampo em prata no dentre inciso esquerdo.

– Não precisa responder. Vamos fazer aplicações e você vai melhorar. – afirmou.

– Eu simplesmente nasci assim. Agora dói e muito, mas só no lado esquerdo.

As aplicações seguiram por meses, duas vezes por semana, às terças e quintas. Xiao Kwan me atendia, fazia as aplicações, apagava a luz do seu consultório – uma sala ampla, anexo à sua casa – e eu dormia por uma hora numa maca grande, macia, acolchoada e coberta por um perfex branco.

As nossas conversas eram lacônicas. Xiao parecia entender o segredo de minhas cicatrizes. Falava do seu filho Huang, um administrador de empresas com uma loja no Paraguai e de sua filha Li Yu Ting, que fazia jornalismo na Universidade de Londrina.

Aos pouco fez outra perguntas integrantes: – Você fuma, bebe…trato muitos jovens dependentes, entende?

A resposta foi um não, cheio de muxoxo.

Detestava qualquer tipo de intromissão até conhecer Li Yu, estudante de jornalismo. Alta, 1,74 metros, magra, esguia, bonita e com bunda.

– Minha mãe já te atende. Ela disse que você é jornalista. Estou me formando, no último período, estágio e TCC. Quero trabalhar na televisão.

Essa porra de chinesa não é chinesa. É bonita, tem bunda, pense rápido, responde alguma coisa.

– O jornalismo na TV é uma bosta. Os repórteres são mal preparados, têm cumprir três, quatro, cinco pautas por dia e os âncoras são todos clones daquele casal global.

Puta que pariu. Não tinha sido pior. A chinesa gostosa não ia mais dirigir uma palavra para mim.

– Minha mãe já vem. – disse. Eu sabia. Como nunca me dei com as mulheres. Como sempre, fiquei sem jeito e falei aquele monte de besteiras.

Xiao veio com as suas agulhas. Suas mãos cheiravam comida, tempero, algo meio acre que invadiu minhas narinas. É bem provável que estava cozinhando algo. Aplicou as agulhas, passou a mão nas minhas cicatrizes. Dois minutos e…dormi.

– Minha filha gosta dos teus textos. Ela disse que sua reportagem sobre os idiomas da fronteira foi lida em sala de aula. – acordou-me Xiao num sobressalto de um sonho recorrente no qual sempre estou numa sala de aula, repetindo as aulas do curso de letras. Sempre fui péssimo aluno.

– Ah, sei, a de multilinguismo.

A professora foi minha amiga e gostou da matéria, apesar de não guardar boas recordações minhas. Sempre detestei técnicos, professores, mestres, doutores – esse pessoal da academia que se acham um bando de iluminados. Essa professora quando disse que ia continuar namorando uma bailarina, correu fazer o exame da AIDS.

– Minha filha, faz do-in, massagens, você não quer?

Foi dessa forma que não resisti Li Yu. Suas mãos eram tão macias quanto as minhas. Seu olhar de uma cumplicidade imensa com as minhas ereções voluntárias. Pouco me importava. As sessões de acupuntura naqueles dois meses de julho e julho passaram para segundas, quartas e sextas. Duas horas, entre as 13h e às 15h.

Algumas vezes adiantava as matérias na redação e remarcava as sessões para as 19h. Li Yu me atendia. Era minha droga. A expectativa me dava taquicardia. Suas mãos passeavam pela minha barriga, meus calos sebosos, minhas hérnias inguinais, virilhas, coxas, peitos, pernas, braços.

Sutil, delicada, Li Yu retirava minhas mãos quando tocavam seus braços ou suas pernas. A maior parte do tempo, eu fechava os olhos. Curtia. Li Yu não falava.

Me acordava tocando meus peitos ou minhas cicatrizes. Enquanto me vestia, adiantava a conversa. Queria saber sobre métodos de escrever, literatura, pautas. E eu me fingia de zangado, atacava os éticos, destroçava os colunistas que se voltavam ao próprio umbigo e invariavelmente metia o conselhão: – a noticia é mais importante do quem escreve ou marra. Grande porcaria.

Li Yu sucumbiu aos meus encantos e mais a minha insistência: – aqui não. Sempre dizia. Comecei a freqüentar outros aposentos da casa/consultório. Passei a comer comida chinesa, frango xadrez, camarão frito, tepanyaque, yaquisoba, rolinhos primavera.

Passamos a nos encontrar nos motéis da costa e silva, nas ruas escuras do centro, no caro de sua mãe, uma Belina velha, mas conservada e ampla. E Li Yu, no seu ultimo período de curso, entre o estagio e o TCC que ajudei a fazer, passou a voltar para foz todos os finais de semana.

– Você não emagrece, mas parece que está melhor. Dorme mais agora? Parou de doer às costas? – cobrava Xiao.

– Durmo mais sim, mas as costas continuam doendo, só que menos do que era antes. São dores suportáveis – dizia.

– Você nunca me conta a verdade sobre essas cicatrizes, por que elas incham de vez em quando? – cobrava Li Yu, que gostava de beijá-las, lambê-las, senti-las.

– Eu não sei. Eu nasci assim. Teve ter sido algum instrumento na hora do parto. Ou algo tão traumático que meu cérebro deletou.

Nunca convenci Li Yu. Suas perguntas aumentaram. Queria compromisso. Não sabia da argentina, a bailarina, nem da alemoa, a missionária do Cimi. Minha paciência estava no limite. Li Yu queria sair, ir aos bares. Eu não. Li Yu queria visitar os amigos. Eu não. Li Yu queria trabalhar na televisão, eu a desestimulei, a proibi. Li Yu perguntava das cicatrizes.

Acabei com as sessões de acunputura. As dores, a insônia, o estresse, tudo voltou. Não falei mais com a doutro Xiao, nem com Li Yu. Achei que não devia, aliás sempre acho que não devo é uma espécie de proteção e desconsideração juntas.

Vi no obituário do jornal que ficava ao lado consultório na Jorge Samways que Xiao havia morrido. Não tinha 60 como pensava, eram 57, mas me parecia velha mesmo. Não liguei para Li Yu. Não devia.

Um amigo, alcoólatra, bom jornalista, convidou para almoçar – Tem um restaurante novo. Comida japonesa e chinesa. É barato. Fui. O restaurante era na casa/consultório de Xiao. Seu filho Huang fechou a loja no Paraguai e abriu o restaurante. No caixa, Li Yu.

– Você emagreceu. Leio seu blog. Ah, eu vou ancorar um programa sobre as etnias da tríplice fronteira na TV a cabo.

– As TV’s fechadas são uma bosta.

Li Yu riu. Ri também. Trocamos telefones, e-mails. Ela me adicionou no meu MSN. Minhas duas cicatrizes latejam tanto. Ah, fodam-se.

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Beto Maciel é jornalista em Curitiba, Pr. O conto Duas Cicatrizes foi publicado originalmente na revista Escrita 5.

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