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Para pensarmos

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  –  Uma crítica a ideologia da família tradicional. Opinião de Daniela Schlogel  –

De todos os argumentos propagados pelos crítico à ideologia de gênero, um do que mais me chama atenção é aquele que diz que defender a diversidade põe em risco a família brasileira.

 

É preciso deixar claro de qual família eles estão falando. Essa família em risco de extinção é a família tradicional que vive aqui na república das bananas copiando o life style da família real britânica. Essa família tradicional é formada por um casal heterosexual e seus lindos filhos planejados e que foram concebidos depois que este casal já tivesse condições de saber como iria pagar a faculdade dos mesmos. As vezes esta família vive em harmonia com seu lugar social, é acolhedora com os demais, vai às reuniões da escola e a alguma Igreja. Respeito este modelo de família, e que bom para quem a tem.

 

Acontece que mais do que algumas vezes  essa família tradicional defende que todos deveriam se esforçar para seguir este modelo. E os esforços aceitos são dos mais variados possíveis. Essa família tradicional, não raras as vezes pressiona uma mulher a fazer um aborto caso ela não tenha um parceiro, não tenha idade suficiente para ser mãe, ou a gravidez não seja de um pai a altura de tal família. Porém, esta família não reconhece que a decisão de ter filhos é da mulher e não vota em candidato “oborteiro”. Essa família, não raras as vezes tolera um abuso sexual de um padrasto ou um tio em uma criança, e abafa o caso para não ficar feito para a tal “família”. Há também casos, em que as crianças, na maioria das vezes meninas, são culpadas do abuso pela família tradicional e essa mesma criança é aconselhada por algum patriarca ou mulher representante do patriarcado a não contar para ninguém do abuso para não destruir a família. Em nome de se manter a imagem, a família tradicional não retira o abusador do círculo social. Apenas tenta cuidar para que o caso não se repita.

 

A família tradicional, muito preocupada em garantir que esta instituição tão cara para elas não seja abalada, se esforça em educar suas meninas para serem mulheres e seus meninos para serem homens. Para isso, repetem constantemente a frase “não faz isso, isso não é coisa de menina”, “segura suas cabras que meu bode tá solto”, “já sabe cozinhar então já pode casar” e uma série de outros comentários que condicionam e cerceiam os direitos das meninas e meninos de serem o que eles quiserem. A família tradicional muitas vezes é composta por pais, mães, filhos e irmãos que não têm bom relacionamento. Muitas vezes eles não se dão bem por causa de todas as imposições da família tradicional e porque as expectativas colocada sobre eles foram muito pesadas, gerando decepções e mágoas profundas.

 

Agora vamos pensar um pouquinho, se for essa família que está em risco de extinção será mesmo que temos que lutar para que isso não aconteça? Famílias nunca deixarão de existir, nos reunimos em grupos, precisamos amar e ser amados. E se as novas famílias forem compostas das mais várias formas de ser família, e se as novas famílias puderem ser formadas a partir do respeito a individualidade de cada um e não de um padrão do que cada um tem que ser, alguém sai perdendo?

 

A discussão de gênero tem como objetivo falar sobre coisas que sentimos na pele mas que não eram debatidas nem na família, nem na escola e nem em um lugar nenhum, como machismo, sexualidade e sexismo. Não se trata de fazer ideologia nem de gênero, nem dos costumes do padrão de família tradicional. Aqueles contra o que chamam de “ideologia de gênero”, no fundo estão percebendo que a ideologia deles da “família tradicional burguesa” está perdendo espaço, porque não existe um campo neutro entre elas. Se existirá uma outra opção, ele terá que ser construída. Mas falta entender que aquele modelo de família tradicional só é questionado porque ele já foi fruto de muito sofrimento e não serve mais, é preciso se abrir para a construção de um mundo novo.

Quando vamos começar a construir o nosso mundo? Se trata de defender a felicidade de todos, de quem se enquadra e de quem não se enquadra. Se trata de lutar pelos Direitos Humanos e pela Diversidade.

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Daniela Schlogel é economista e agente cultural em Foz do Iguaçu, Pr.

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