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Homem de Aço trincado

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  –  Uma crônica de João Mota  –

 

 

Homem de aço trincado, sem liga, condicionado, adestrado.

“No submundo repousa o repúdio
E deve despertar ..??”

Um Super Homem jogado no canto do quarto, anestesiado, entediado, sem querer saber de seus poderes. Aço inerte nas quinas empoeiradas da casa. Às vezes ele dorme e dorme. Seu acordar inerte e triste é atrofiante de se ver. Terra, hemisfério sul, América Latina, Brasil. Entediante, tudo entediante. Super Homem precisa de um soro anti-anêmico, uma adrenalina, algo que o motive a sair do asilo e enfrentar o sol com a sagacidade de dias passados.

Não, nada o motiva. Igual a um gato escaldado ou um lobo solitário que ao quebrar tantas vezes o rabo obrigou-se a se acadelar, camuflando-se no seu mundo sonolento e amarelo. Esperando o destino se prontificar em intervir. Super Homem de bosta, inválido, cansado, flagelado. O fim é a morte, não é mesmo?

E os jornais que jorram notícias e desgraças amedrontadoras. Gravidade. Pressão que o sufoca, o empurra mais e mais para os confins de seu submundo. Um Super Homem que não supera a superfície. Homem de aço trincado, sem liga, condicionado, adestrado. Sua alimentação é rançosa, cancerígena. Tabaco, álcool e outros derivados. Solidão. Falta luz, falta túnel, falta algo que o faça sentir. Super Homem sem fé nem esperança. O mundo uma hora vai ter que acabar, não é mesmo? Mas nunca acaba, renova-se, atormentando-o a cada fim de mês.

Ele imagina os mortais lá fora, todos atarefados, fadados à rotina produtiva até o fim do fim. E vai além, quando se percebe no meio de todo esse barulho e agitação. Seu reflexo é de um verme rastejante num mundo qual não pertence. Insatisfeito, porém acomodado em sua bolha. Super Homem parasita. Minutos tornam-se horas, dias em semanas, ele nem lembra como passou a viver assim.

Quase vivo, por de trás da tela, no canto do quarto, anestesiado e inerte, Super Homem quer se expressar, quer opinar, causar. Mas tudo o que consegue é bocejar para o mundo.
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João Mota é jornalista em Fortaleza, Ceará. O texto foi publicado na Escrita 49, reproduzido do blog do autor.

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