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Ao pôr do sol

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  –  Uma crônica e uma fotografia de Áurea Cunha  –

 

 

Já não fotografava o pôr do sol a uns 20 anos. Pelo menos assim, ele sozinho sem uma pessoa posando. Eu não queria mais colocá-lo –  o Sol – em um suporte bidimensional como o papel, a tela do computador ou do celular. Havia decidido que só iria contemplá-lo lá no céu.

Na fotografia gosto daquilo que considero o melhor conselho do semiólogo Roland Barthes, que diz: “Não fotografe aquilo que é notável, mas torne notável aquilo que fotografa. E, para mim, o Sol é notável demais, bonito demais. Coisas muito belas me travam na hora de clicar. Confesso que gosto da beleza que está na segunda camada.

Quando fotografamos algo que não é tão imensamente exuberante podemos sempre dar uma melhorada com o ângulo de tomada, com a luz. E nestes novos tempos até dar um tapinha com o photoshop chegamos a nos autorizar. Mas, diga aí, alguém pensaria em usar photoshop no pôr do sol? Para mim a fotografia é uma ferramenta de transformação da realidade não um espelho dela. Afinal, mesmo que tentássemos, nunca conseguiríamos apreender tal qual a coisa é na realidade, com suas variantes de cor, temperaturas, tempo e cheiros. Menos ainda remendar neste caso específico.

Parênteses a parte, volto ao centro da conversa…

O jejum de clicks do astro rei indo repousar, aos poucos me produziu uma certa displicência com a vontade dos outros que o continuavam fotografando tanto quanto eu me guardava. Ao ponto de, recentemente, assistir a uma amiga que mirava o céu com o celular. E me confundir entre a festa que ela fazia enquanto gritava: “consegui, consegui”. Imaginei que ela captava um ovni quando a celebração era mesmo para o entardecer.

Pois bem. Como não há vida sem vivência, lá veio a lição.

Dias desses, estava dirigindo próximo à avenida Beira Rio em minha cidade e o pôr do sol me viu e se fez ver. Eu ri de minha pretensão. O Sol estava logo à minha frente como uma bola de fogo e tive a nítida sensação de que iria passar por dentro dele e de seu cenário espetacular. Para quem conhece Foz do Iguaçu, parei o carro ali – próximo ao “posto dos Bombeiros” e tateei a câmera enquanto descia e admirava.

Voltou o filme do dia em que havia decidido parar de fotografar o astro rei e me pus a repensar meus motivos. Emendou-se no filme a lembrança do certo desdém com que andava olhando a admiração dos outros no cotidiano recente.

“Será que quebro meu jejum, este jejum incompreensível?”, me perguntei quase em voz alta. E o Sol continuava ali na minha frente, escorrendo para seu esconderijo. E, como sempre, agora era ele que dava o tom e a velocidade em meu trabalho. Dispunha-se a brincar com a minha humildade e a precisão que exigia a um mesmo tempo.

Então entendi que sempre estaremos tentando reter um pouquinho da beleza que cada um consegue ver, apreender e aprender. E que, por suposto, humanamente, a oportunidade de captar uma imagem não se apresenta igual para todos a um momento ou espaço. Posso ver beleza naquilo em que outra pessoa às vezes não vê, como em um rosto enrugado, numa folha seca, nos dentes de um cachorro desencarnado ou na pressa de pernas que trocam passos comuns em uma rua qualquer. E foi por aí foi meu devaneio até o olho firmar apressado atrás da lente. Pois o Sol sempre será unanimidade, até as trevas se deixam penetrar por ele. Resolvi me deixar impregnar pelo fascínio do inalcançável e fotografei.
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Áurea Cunha é fotojornalista em Foz do Iguaçu. Colabora com o portal Guatá e a revista Escrita.

 

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