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O dia da Mulher de Edu

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  – Um conto de Beth Vilasboas  –

 Para Edu, o verdadeiro 08 de março que originou o dia internacional das mulheres foi o de 1970, quando ele nasceu de Maria.

Sétimo filho, de parto natural, normal pela dor, pela sangria, pela quase extrema agonia da mulher de saúde franzina e espírito forte, que vinha, desde o sertão nordestino, refém do destino, fugindo da morte. Ela o pariu de pura pirraça, as leis da Santa Madre Igreja, aos direitos do marido e aos deveres da esposa, a ignorância que naquele fim de mundo, há menos de vinte quilômetros da cidade, a mantinha cativa.

Ele deveria ter nascido dias antes, mas teimou em não se desgarrar das entranhas quentes. Puxado pelas Irmãs de caridade, santas mulheres carentes, crentes e resistentes, demorou para abrir os belos olhos verdes. A boca faminta, voraz, sequiosa, tão logo tocou os mamilos inchados, sugou-os até mais não poder. Aconchegado ao colo magro e morno de Maria, ganhou sustança e adormeceu tranqüilo, sem medo.

Foi ninado, cuidado e mimado por Maria, por Joana, Margarete e Sofia. Na roça de café, trabalhando mais que homem, na mina lavando a roupa de todos, a mãe ia criando seu rebento, sempre ali, mesmo ausente, dava beijos, dava palmadas, dava mamadas, grita e o ensinava…

Moleque, irritou-se com o mulherio. Apaixonado pela professora de matemática, encantado com a assistente social da escola, decepcionou-se com as irmãs tão chatas, mandonas, feias, umas filhas da puta que queriam obrigá-lo a tomar banho, pentear os piolhos, abotoar a camisa, escovar os dentes, comer de boca fechada, limpar os pés para entrar em casa, falar baixo, mijar antes de dormir no sofá e dormi na cama sem mijar nela. Ah, bruxas! A mãe, porém, mesmo surtada – porque surtou após o nascimento do oitavo filho, – ou até pelo comprometimento de sua compreensão do mundo, aquietava-se ao seu lado e afagava-lhe a cabeça num cafuné sedativo ou massageava-lhe os pés encardidos enquanto falava de angustias, dores e alívios e a cada instante intercedia: Deus te abençoe, meu filho!

Edu foi trabalhar. Ria dos absurdos do cotidiano. Bom caráter e sedutor alegrava o ambiente com sorrisos, olhares, palavras ao léu, suaves toques, insinuadas promessas, nunca cumpridas mas tão esperadas e queridas.

As colegas faziam-lhe confidencias, admiravam-se de que ele as compreendesse tão bem.

-Ah, deve ser porque ele nasceu no dia internacional das mulheres! – ariscavam cheias de pensamentos.

– Não, minhas queridas, o dia internacional das mulheres nasceu comigo! Venham a mim, porque eu entendo vocês como ninguém…

Uma redação escolar e algumas falas de Marta Suplicy na TV, no programa dedicado à Mulher, que trazia de contrapeso o Clodovil, resumia seus conhecimentos sobre a história da liberação feminina e o autorizava a oferecer-se como o verdadeiro fato, o marco, o grande sinal de que a vida das mulheres deveria mudar para melhor, a partir dele.

E as moças achavam graça. Ele ria também. Elas gostavam, suspirava, encolhiam-se, chamavam-no convencido e testavam-no com uma série de pegadinhas, tapinhas e pequenos desaforos.

– Cuidado, eu posso incendiar todas vocês, hein!?

Elas o cercavam ruidosas, confiantes e seduzidas. Eram sempre acolhidas:

– Que tristeza é essa minha filha? Vem á me conta o que está acontecendo.

E a chorosa contava, sem pudores, sobre as brutalidades do marido, do pai, do irmão, as implicâncias da vizinha, as doenças do filhinho, a falta de dinheiro, a vontade de sumir.

A bondade que aprendera de Maria e sua própria filosofia jorravam em afetuosas palavras de consolo. O calor do abraço e o bafo quente no cangote da sofredora completavam o curativo. Ela ia feliz e agradecida por toda a eternidade. Os colegas olhavam-no com respeitosa admiração.

Acreditava-se mesmo amante de todas as mulheres do mundo. Era sensível aos seus clamores e indignava-se com as injustiças por elas sofridas. Queria proteger todas elas.

Seguia ouvindo-as, abraçando-as e exalando sua macheza em muito amores, promovendo a liberação de suas almas femininas. Entretanto cedo, muito mais cedo do que gostariam as mulheres de sua vida, Edu sentiu-se muito só. Queria a sua Maria!

Achou-a entre as pilhas de pacotes de uma fábrica de doces, numa manhã quente de dezembro. Olhou para ele com o mesmo interesse que dedicava a todas. Regozijou-se, como sempre, ao ver os olhinhos femininos brilhando. Deixou vir a sua mente o mesmo pensamento safado: Ê, minha nêga, o que você precisa eu tenho!

Ela, no entanto, sabia que possuía tudo o que ele precisava, com urgência. A dignidade de Maria cercava-a como uma aura de luz, que refletiu nele a sua própria fraqueza. Retirado de si mesmo, levitou e enlevou-se por ela.

Edu de Maria vive feliz com sua operária emancipada e mais duas mulheres que o chamam de pai. Maria de Edu cuida de Maria mãe, que ainda cuida de Edu, que a ama também.

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Beth Vilasboas é servidora pública estadual. O conto foi publicado na edição número 1 de Escrita, em 2006.

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