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Sobre  a leitura de livros

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  –  Um texto de Denise de Camargo  –

A leitura nos salva de tudo, inclusive de nós mesmo.

E, acima de tudo, lemos contra a morte. Encontrei estas frases em minhas anotações sobre a importância da leitura.

Sobre a literatura estava anotado: os livros de literatura devem ser lidos porque não servem para coisa alguma. Única coisa que se pode apresentar é que ler literatura é o melhor do que não ler literatura.

Não sei quem são os autores destas ideias. Não anotei quem as escreveu, nem o lugar onde estavam escritas e, muito menos, as datas em que fiz estas anotações, mas ainda concordo com elas. Fazem pensar no prazer da leitura que só pode acontecer quando ela não tem finalidade. Como o jogo e o brincar. Atividades constituídas por um fim em si mesmo, não um meio para atingir um fim, como no trabalho.

Ler literatura com prazer implica compartilhar significados com outros, o escritor e os outros leitores. Quando lemos, criamos imagens. Construímos significados. Vivemos experiências e realidades que outros viveram. Comungamos e brigamos, dialogamos e criticamos, nos aproximamos de outros mundos e nos distanciamos deles. Compartilhamos emoções e sentimentos que nenhum modelo mecanicista consegue descrever e explicar.

Longe de querer explicar o que é ler, pois seria descrever um dos funcionamentos mais complexos da mente humana, afirmamos a sua complexidade.

Então, fica claro que ler literatura não serve para nada, não tem nenhuma utilidade imediata. Isto não quer dizer que ler literatura não tenha seus reflexos na constituição dos sujeitos que lêem. Pelo contrário, somos, em parte, o produto do que lemos e também, do que não lemos.

Entende-se que a literatura propicia uma reorganização das nossas percepções do mudo e abre a possibilidade para outros sentidos e novas ordenações das experiências. A literatura pode provocar a formação de novo padrões e o desenvolvimento do sendo crítico.

Transformar o mundo é também transformar a sua linguagem, combater sua esclerose e resistir aos seus acomodamentos, livrá-la de estereótipos, de chavões, lugares comuns e preconceitos.  A leitura como apresentação de novas possibilidades de vivencias sociais, políticas e culturais, surge como forma de ampliação dos limites existenciais e de apreensão do mundo.

A leitura acompanhada da escrita torna possível outro espaço de expressão de nosso olhar sobre o mundo. Criar condições de expressão é, também relativizar o poder da voz dominante como única voz de verdade e criar oportunidades para o questionamento de hábitos e valores estabelecidos e arraigados.

Embora novos meios de comunicação estejam presentes no cotidiano das pessoas e sejam muito eficazes na transmissão de informação e de cultura, o  livro, não apenas por seu formato e características físicas, é ainda o principal detentor de conhecimento dos últimos cinco séculos. O objeto livro é a maneira mais democrática de adquirir um conhecimento. Todo ato de leitura pressupõe uma atitude, desde a escolha do lugar até a forma de lidar com a palavra escrita. O livro é auto-sustentável, livre, enquanto que, nas outra mídias, o processo de recepção de informações é imposto e fragmentado.

Portanto, se a leitura de livros é ao importante na constituição de pessoas autônomas, como podemos formar leitores? A única evidencia é de que o acesso ao livro é fundamental. O livro deve fazer parte do cotidiano das pessoas como um objeto necessário. Para o incentivo à leitura é fundamental que livros, revistas, dicionários estejam presentes no universo da criança e do jovem como objetos de grande valor e importância.

Quando o livro passa a ser associado a cobranças, provas, tarefas escolares e ate castigos, ele deixa de ser um objeto interessante e passa a ser um objeto a ser evitado.

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Denise de Camargo é doutora em Psicologia da Educação em Curitiba, Pr. Texto publicado na edição número 1 da revista Escrita, em 2006.

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