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O Constitucionalista!

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  –  Um conto de José Maschio  –

E a notícia chegou. Lá da capital. Os tenentistas de Getúlio mataram quatro estudantes. E, depois, outro envolvido na escaramuça também morreu. Então foram cinco. Deu-se algaravia. Confusão. Ebulição. E mais notícias chegavam.

Em Assis, quase no Paraná, as notícias chegavam atrasadas. Só os letrados recebiam o Estado de São Paulo. Ou ouviam as emissoras radiofônicas. As mortes ocorreram em 23 de maio. No início de junho já quase todo mundo, no entanto, estava informado: São Paulo tinha que salvar o Brasil da praga gaúcha, chamada Getúlio Vargas.

E aconteceu comoção. Voluntariado. Gente que nunca tinha dado um tiro descobriu-se atirador. Redentores do orgulho paulista. Retomar a política café com leite. Elite e miseráveis unidos por um sonho só. Retomar o poder. Poder da elite paulista-mineira, mas orgulho do povaréu.

Isso na cidade, porque no interior, nas fazendolas e sítios, pouco se atinava dessa revolução. Por pouco tempo. À medida que as baixas, caudalosas, aconteciam nas tropas paulistas, a propaganda se massificava.

Junto com a propaganda, enganosa, de os paulistas estarem a vencer começaram as exigências. Não mais voluntários. Agora convocados. Então foi baixado decreto.

Não só homens, mas também máquinas. Proprietários de automóveis eram requisitados a entregar seus veículos, pelo bem de São Paulo. Logo, intendentes e outros entes, compenetrados, começaram a fazer censo nas cidades do interior. Saber quem poderia ajudar mesmo a contragosto, com o a nobre causa paulista.

E a inquisição chegou à Água da Pinguela. Lá, uma italianada nada afeita às causas dos paulistas, tinha um Studebaker, caminhãozinho importado e de grande serventia. E o Studebaker foi requisitado. Seria de estimosa valia para a revolução vitoriosa. Vitoriosa na propaganda, a desmoronar na realidade.

Surgiu um impasse. Em uma época de poucos motorizados. Nem entes nem intendentes sabiam guiar o caminhãozinho. No meio da italianada, só um cuidava disso de guiar. Piero, moço tímido nos seus poucos mais de 20 anos era o chofer. Piero que nada entendia de política, forçado foi a virar constitucionalista.

E, constitucionalista involuntário, recebeu a missão. Teria que levar o caminhão até Cruzeiro, quase na divisa com o Rio, onde os combates se acirravam. Piero, nascido e criado na Água da Pinguela, mal conhecia Assis. Nem imaginava onde ficava Cruzeiro.

Mas os intendentes e seus entes não tinham tempo para explicar ao rapaz como chegar a Cruzeiro. Tinham ordens. E ordens precisam ser cumpridas. Deram-lhe uma rota e exigiram rapidez. Afinal, já era setembro e a luta fluía, sempre a favor de Getúlio. Sempre contra os heróis paulistas.

Um Piero destroçado, macambuzio e sonolento foi o rapaz que chegou “no“ Avaré. Em uma venda de secos e molhados, atrás de um café e de um pão com mortadela. O vendeiro se interessou pela sua história. E armou-se trapaça. Afinal, um Studebaker era algo raro na região.

Papo vem, papo vai, ofereceram aguardente, ao invés de café, a Piero. E, depois de homenagear o santo, mais uma dose. Aí rolou Caracu e cerveja branca. Fez-se confraria. Estabeleceu-se camaradagem. Piero sentiu-se entre os seus.

Em meio ao converseiro surgiu motorista habilitado em choferia. Chofer dos bons, de dirigir para industriais de São Paulo e Sorocaba. E voluntário da santa guerra constitucionalista. Um revolucionário de cepa. E fez proposta. Assumiria o volante do Studebaker por Piero.

Quando Piero desembarcou na estação ferroviária de Assis, naquele final de outubro de 1932, a forças paulistas já haviam assinado armistício, eufemismo para rendição total. E ninguém mais teve notícia do Studebaker do constitucionalista Piero. (FIM)

Nota do editor: Studebaker, marca de automotores norte-americanos da primeira metade do século XX.

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José Maschio é jornalista e escritor em Cambé, Pr.

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