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O livro, em três tempos

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  –  Uma crônica de Áurea Cunha  –

 

Tive um longo jejum de leitura após meu ensaio monográfico quando terminei meu curso de graduação. Não quis ler nada por um período, estava como se diz, enfastiada. Um dia, uma amiga me presenteou com um livro de crônicas da escritora gaúcha Martha Medeiros. Ah, um banquete! De primeira, o apetite já foi voltando e fui sentindo a leveza do tempero. Bem diferente do acadêmico, devorei! Li, reli “Feliz por Nada” e ainda dobrei umas orelhas para voltar depois. Deve ser por isso que a gente relê uma obra, pra sentir aquele gostinho novamente, assim como fazemos com a comida. Ao comentar com a amiga que eu tinha gostado do presente, ela lascou um: “eu sabia, é a sua cara, hahaha!”

 

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Tocar, pegar, abraçar, transver, ainda são muito significantes. E seja lá que coisa for, um objeto, uma ideia ou um sentimento. Nas oficinas do festival Auê Literário desenvolvido pela Guatá – Cultura em Movimento nas escolas, se percebe isto. Uma concha colhida numa praia qualquer, a princípio, parece só mais um objeto entre os muitos que se pode encontrar na “cesta de possibilidades”, que em determinado exercício ocupa o centro da sala. Poucas pessoas têm interesse até que se diga que se pode ouvir o mar através dela. Parece mágica, todos os interesses então se voltam para a concha que começa a passar de mão em mão e vai formando uma espécie de ritual, com direito à fila de espera. Os que a manipulam, afirmam ouvir o barulho do mar. O que há de verdade no som daquelas águas, eu não sei. Ouvi a concha e cheguei por um segundo duvidar se não eram os sentidos me embaralhando. Logo passou. Preferi ficar com a possibilidade poética de que se pode realmente ouvir o oceano e suas histórias ancestrais através de uma concha. Assim, é claro, como sempre é possível viajar em inúmeras experiências que habitam e falam a partir de um livro e de sua leitura. E, pode apostar, assim, a concha vira texto, música e poema na mão de quem quiser.

 

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Num bate papo com minha sobrinha sobre o filme “A Menina que Roubava Livros”, adaptação de obra do escritor australiano Markus Zusak, ela me confidenciou que já roubara um livro da biblioteca da escola, quando mais nova. “Li e depois vendi para uma colega, afinal, sempre fui empreendedora. Mas agora não faço mais isso”, confessou entre um riso amarelo e boa dose de arrependimento. Tanta sinceridade me fez lembrar que também havia cometido tal delito nos meus tempos de infância, ainda que minha história não tivesse sido bem sucedida, com direitos a dividendos. Com cinco anos e pouco, fui à escola acompanhando minhas irmãs mais velhas. Meus olhos se fascinaram com o colorido da capa de um livro didático deixado sobre uma mesa. Levei-o escondido, escondi num mato no caminho de casa para resgatar depois e esqueci o local. Resultado é que alguém ficou sem o livro que a terra comeu. (Em tempo, não recomendo que ninguém faça isso a título de experiência com livros).

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Histórias a parte, o fato é que o livro continua sendo o “cara”, mesmo em um país de não leitores como é o nosso. E não creio que algum dia ele vá sumir da face da Terra. Penso que toda esta parafernália tecnológica que a humanidade colecionou nas últimas décadas, só veio confirmar ainda mais sua supremacia e consagrá-lo como a maior de todas as invenções. Que todo dia seja dia do livro! E que eles, livros e suas aventuras, estejam à disposição da experiência popular de ler. (Fim)

 

Leia mais sobre livros, leitura e expressões, clicando aqui: Festival Auê Literário

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Áurea Cunha é fotojornalista e participa do programa Festival Auê Literário em Foz do Iguaçu, Pr.

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