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Pênalti

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  –  Um conto de Luiz Guilherme Piva  –  

 

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Eram amigos de muitos anos. De décadas. Desde o primário, alguns. Outros, do ginásio. Sendo ou não da mesma sala, sempre andavam em grupo. Recreio, festas, clube. Mesmo em faculdades e cidades diferentes, toda semana se encontravam. Bares, churrascos, noitadas. Casaram, viajaram, mudaram ou ficaram – mas não deixavam de se ver. Bola é que só jogaram uma vez juntos. Nunca haviam reparado. Cada um tinha um pessoal que jogava num lugar, eram dias diferentes, ou por distração, ou sabe-se lá por quê.

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Quando perceberam é que resolveram marcar. Arrumaram um sítio, esposas, filhos, outros convidados, cerveja, piscina, música, seis pra cada lado, bola, rede, vamos lá. Par ou ímpar. Esse, aquele, mas e eu?, por que ele?, surgiram umas rusgas. Depois uma entrada dura. Em seguida, um não deu o passe pro que estava na cara do gol. Outro reclamou de uma bola perdida na defesa. Falta! Não foi! Ladrão! Empurrões, caretas, braços pro ar. As famílias e os demais notaram, chamaram pra parar, comer, dançar, nadar. Não. A coisa estava renhida. Carrinhos. Dedo na cara. Palavrões.

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As crianças espantadas. O churrasqueiro entrou em campo com o prato distribuindo coraçãozinho pra distrai-los – mas foi rispidamente afastado. Alguém aumentou a música, outro veio com a cerveja. O empurra-empurra e os xingamentos, porém, já estavam em nível tal que ninguém queria recuar. E zero a zero! Escurecendo. As discussões e as ofensas obrigaram as mães a puxar as crianças. Três delas quase arrastaram os maridos do campo: “Pelo amor de Deus, parem!” – não adiantou. – Quem fizer ganha! – a ordem partiu de um deles, não se sabe quem, mas foi obedecida de imediato. Um alívio para quem assistia, uma tensão a mais para os que jogavam

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Dois trocaram tapas num lateral duvidoso, o goleiro subiu com o pé no peito do atacante, o beque deu de bico de propósito para acertar a bola na cara do lateral – tudo já fora de controle. Bufavam, caíam, urravam, suavam como touros lancetados. Eis que houve pênalti. E sem discussão: a bola ia entrar, o goleiro já batido, o zagueiro teve que pegar com as mãos. Silêncio. Resignação humilhante de um time, ansiedade sobranceira do outro.

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Bola a seis passos do gol. Goleiro parado. Os touros afastados, as narinas em fole. Em volta do campo, todos assistindo crispados. A música ao fundo, a fogueira do churrasco piscando longe. O batedor tomou distância, mãos nas cadeiras, olhou pro céu. Virou-se para trás: todos lá, cabeças baixas, cabeças altas. Enxugou a testa.

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Foi para a bola com raiva – e parou de repente. Abaixou-se, pegou a bola, virou-se e disse: “Se alguém quiser, pode bater. Eu não bato”. Escureceu de vez, a fogueira estalou, um neném emitiu um berreiro. Moscas de calor nos rostos. Ninguém quis. Acabou zero a zero. Foram para a festa, beberam, cantaram, comeram, se abraçaram, contaram casos da vida toda – foi o melhor churrasco da história, dizem até hoje

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Mas nunca mais jogaram. E, a bem da verdade, desde então mal se veem. Só por acaso. Mas assim, como se não se conhecessem.

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Luiz Guilherme Piva está lançando “A vida pela bola”. Publicou “Eram todos camisa dez” – ambos pela Editora Iluminuras… Texto foi reproduzido do blog de Juca Kfouri.

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