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Noite

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  –  Um conto de Dalton Trevisan  –

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Friorento, o sol se recolhe sobre os últimos telhados. O vento balouça de leve a samambaia na varanda. A casa toda em sossego. No quintal o cãozinho late aos pardais que se aninham entre as folhas.
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A magnólia pende a cabeça com sono. Já não bole a cortina.
No silêncio da penumbra se ouve cada vez mais alto o coração delator do tempo: um relógio.
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Diante da janela o passarão da noite farfalha as asas. O galo não gala a galinha. Duros objetos perdem os contornos agressivos. Há paz na cidade.
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Em pé no balcão os operários bebem cálice de pinga. As caixeiras deixam as lojas com a bolsinha na mão. Eis a noite que se esgueira em surdina no fundo dos quintais.
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As mulheres são mais queridas a essa hora. O rosto iluminado pelo farol dos carros é promessa de delícias.
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Os bondes sacolejam nos trilhos, em cada janela um rosto diferente. O mundo não é uma festa de prodígios: gnomos, baleias voadoras, unicórnios, basiliscos de fogo?
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Escancaram as sete portas da noite. O ar povoado de sombras. Não mais o dia dos pequenos ódios nos olhos, das injúrias furiosas pelas costas. Os carros já não devoram ciclistas.
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Enxugando os dedos no avental, as mães chamam os filhos que brincam na rua.
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Se aquietam as vozes. Os pardais não pipiam nas árvores. Nem late o cãozinho.
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A pomba da noite é mansa. Arrulha o amor na sopa quente sobre a mesa.

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Dalton Trevisan, escritor brasileiro, vive em Curitiba, Pr. Vencedor do Prêmio Camões em 2012. O conto acima faz parte do livro “Beijo na Nuca”, Editora Record.

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