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Povão F.C.

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  –  Uma opinião de Pedro Gil Silva  –

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“Futebol é o ópio do povo”.
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Considero essa frase como o ópio daqueles que não gostam de futebol, ou dos que não gostam do povo. Se tratando de algo tão popular quanto o futebol, existe uma linha muito tênue entre a crítica e o elitismo. Se por um lado não podemos nos deixar levar pela balela ufanista que martela o tempo todo a tal da “paixão nacional”, ignorar seu apelo popular enraizado no imaginário das massas do mundo inteiro não deixa de ter seu quinhão de crueldade.
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Para além de grandes entidades desportivas que recebem/repassam/lavam/corrompem quantidades obscenas de dinheiro, o futebol respira e transpira no campinho da esquina. Para cada marca multimilionária que extorque torcedores com camisas a preços exorbitantes, um garoto pinta a própria camiseta, com número e nome do seu jogador favorito. Para cada estádio gentrificado, uma senhora, já na casa dos oitenta, acompanha com um radinho de pilha o jogo do seu time do coração, apoiada na janela da sala, enquanto vê o movimento do alto do morro.
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Claro que nem tudo são flores. Vivemos em uma sociedade ainda muito problemática, e o futebol acaba impregnado de contradições. Mas ainda aí há uma luz de esperança. Para cada manifestação xenófoba nas arquibancadas, novos times são formados por imigrantes na periferia de uma grande metrópole, integrando uma comunidade transplantada para uma realidade com a qual não se identifica, muitas vezes de maneira brutal. Para cada demonstração de sexismo nos estádios, uma garota encontra refúgio e novas amizades no time feminino da escola. E a dinâmica segue. A sociedade muda, e o futebol também.
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Por último, e não menos importante, se o futebol pode ser instrumentalizado pelos governos a partir da velha fórmula do pão e circo, ele ainda é uma ferramenta popular de manifestação popular. Um time ucraniano que, frente a ocupação nazista, se recusa a perder do time alemão e é executado. Manifestações nas arquibancadas contra a ditadura de Franco na Espanha, contra o regime militar no Brasil e o estopim da Primavera Árabe no Egito. Um jogador que assume a homossexualidade e morre pobre, em desgraça, mas vira o símbolo de uma luta. A política caminha a passos tímidos rumo à pluralidade. O futebol também. Muitas são as barreiras, mas o que é do povo, ainda que por vezes seja usurpado, não pode ser tomado. O futebol respira, em cada esquina, a todo vigor.

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Pedro Gil Silva, artista gráfico, é estudante de Geografia na Unila, em Foz do Iguaçu, Pr. Texto e ilustração publicados na revista Escrita 51.

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