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Discriminação e preconceito

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  –  Um tantinho de números e outro punhado de memória
sempre ajuda ao se refletir sobre o futebol feminino  –

 

Brasil, heptacampeão da Copa América de futebol feminino, em 2018.

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O mundo dos esportes profissionais, seu custo e sustentação econômica é tão ou mais complexo para um leigo em marketing e mercado, quanto um drible da vaca para um zagueiro mediano. Particularmente no futebol, muitas variáveis podem ser analisadas para ajudar a explicar cifras e diferenças. Habilidade, idade e condicionamento individual entre jogadores. Empatia popular e históricos de clubes, federações e confederações se misturam a projetos mercadológicos . Entre as modalidades ligadas a gênero, no entanto, chama a atenção o quanto é abissal a desproporção entres a masculina e a feminina.
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Uma pesquisa feita pela Sporting Intelligence revelou que o salário de Neymar, estimado em algo parecido com R$ 1,7 bilhão, equivale a soma do que 1693 jogadoras de sete ligas de futebol feminino: Alemanha, Inglaterra, EUA, Suécia, França, Austrália e México. O relatório também demonstra que se comparado a todas a folhas de pagamento do campeonato espanhol feminino, o salário do jogador brasileiro que atua na França é 10 vezes maior do que tal soma.
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E isso não é uma questão particular do gigantismo dos ganhos de Neymar. A matemática da disparidade entre futebol masculino e feminino é ainda mais gritante. Afinal, qualquer jogador de um time grande europeu ganha mais do que a soma dos salários das dez melhores jogadoras do mundo. O que é algo como 1,5 milhão de euros.
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O abismo entre uma realidade e outra já foi motivo de muitas atletas da modalidade feminina. Nos EUA, Hope Solo, goleira, chegou a processar a Federação Americana de Futebol, em busca de equiparação entre os times feminino e masculino. Na Europa, a seleção dinamarquesa deixou de participar de disputas continentais. (Fonte: Folhapress)
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Curiosidades brasileiras

Marta: 98 gols pela seleção brasileira; nem Pelé conseguiu

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Se nos anos mais recentes o Brasil se curvou à magia do jogo de Marta, Formiga e cia, com a população reagindo afirmativamente às disputas entre times compostos por mulheres, a história não foi sempre assim. O futebol feminino no “país do futebol” tem uma história que já alcança um século. Pouco pesquisada e registrada em livros, diga-se de passagem. Mas com o pouco que se tem, dá para se verificar a discriminação, o preconceito e o abandono material como marcas significativas, para não se dizer, o eixo principal.
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Para se ter um parâmetro, o primeiro registro mais pomposo que se tem sobre futebol feminino vem de onde ele nasceu. Tem-se notícia de uma partida disputada entre mulheres da Inglaterra e da Escócia, em Londres, no ano de 1881. Enquanto isso, aqui pelas bandas do sul do Equador, existem registros de partidas mistas, com homens e mulheres compondo o mesmo time, já lá pelos idos de 1908.

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Sabe-se de um evento beneficente ocorrido em 1913, que por algum tempo foi considerado como a primeira partida de futebol feminino no Brasil. Mais tarde, passou a ser tratado como farsa, já que o time “feminino” era formado por jogadores do Sport Club Americano, campeão paulista daquele ano, vestidos de mulher.
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Em 1921, aconteceu o que talvez tenha sido uma das primeira partidas oficializada de futebol feminino no Brasil. Ela reuniu jogadoras de dois bairros da capital paulista. A partida foi noticiada pelo jornal “A Gazeta”, que à época tratou como um atração “curiosa”, senão “cômica”, em meio às festas juninas.
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Proibições e punições

 

Jornal gaucho da década de 50 anuncia jogo feminino, mesmo com a vigência de leis censoras no País.

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Enquanto mais mulheres experimentavam jogar, o preconceito subia o tom. Na década de 40, o futebol era visto como um ‘esporte bruto, impróprio para as damas”.  E o tom da discriminação era tão grande que até punições religiosas aconteciam. Conta a lenda que no interior paulista, um grupo de pessoas teria sido punido com excomunhão.
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O futebol de mulheres não agradava a um Brasil conservador.  No Estado Novo, proibiu-se por lei federal “a prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina.”
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Em 1950 – Ano da primeira Copa do Mundo disputada no Brasil – o Conselho Nacional de Desportos, em nota oficial, anunciava mais uma vez a proibição de jogos de futebol feminino. Segundo a nota, aquele esporte não combinava com a formação física feminina. Tal atitude intimidou o que poderia ter sido o florescimento de grandes torneios, com equipes já formadas nas médias e grandes cidades. Naquele ano, existiam equipes em muitos estados brasileiros. Apesar da proibição, jogos continuaram acontecendo aqui e ali, no risco de serem censurados.
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Fuçando-se a internet, é fácil encontra alguns fatos que ilustram a pressão conservadora. Por exemplo, o Araguari Atlético Clube, de Minas Gerais, em 1958, formou um time feminino, selecionando 22 mulheres para um jogo beneficente. O sucesso dessa partida teria sido grande ao ponto da revista “O Cruzeiro” estampar a notícia em sua capa sobre o acontecimento. Em meados de 59, no entanto, a equipe feminina do Araguari teria sido desfeita, por pressão de religiosos mineiros.
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A legislação que coibia o futebol feminino durou até 1981. Até então, além do futebol de campo e de salão, as mulheres era impedidas de praticar lutas, pólo e halterofilismo oficialmente. Ao ser revogada, várias equipes e ligas brotaram. Mas o preconceito e o gargalo econômico se mantiveram.

 

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Avanço – Em 1988, finalmente uma equipe feminina representou o Brasil em um torneio oficial. As brasileiras ganharam o “Womens’s Cup of Spain”, derrotando seleções européias. Em 91, a seleção foi a nona colocada na primeira Copa do Mundo promovida pela Fifa.  Em 96, o futebol feminino foi incluído nas Olimpíadas. Desde então, as mulheres brasileiras sempre estiveram em destaques nos torneios internacionais, consagrando sete vezes a camisa da CBF como campeã mundial.

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A modalidade, no entanto, ainda sofre as mazelas do preconceito. Ao contrário da modalidade masculina do futebol, rico e com vitrines para o mundo, a versão feminina trilha um caminho inseguro. Equipes aparecem e desaparecem à disposição do vento instável que sopra desde a publicidade e da indústria cultural brasileira. Elementos chaves do capitalismo contemporâneo e, portanto, também da profissionalização da modalidade em nosso país, assim como em outros cantos do mundo.

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Clique aqui e leia sobre a campanha da equipe feminina do Corinthians Paulista contra o preconceito

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Torcemos que continue sendo uma boa exceção à regra a equipe iguaçuense de futebol, que já faz alguns anos, continua existindo/persistindo e proporcionando alegrias na região trinacional. Recentemente, a equipe, que conta com um patrocínio master regional importante, constituiu parceria com o Coritiba Football Club, numa tentativa de se fortalecer ainda mais.

Clique aqui e conheça a história de um time
feminino que participou da Primeira Grande Guerra.

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Guatá/fontes: JornaldoComércio/MSN

 

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