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A crônica de uma crônica

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  –  Uma crônica de Daniela Schlogel  –

Cena do filme “Passageiros” (Divulgação)

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Será que todos os filmes de ficção científica são sobre amor? Em “Passageiros” estão todos adormecidos propositalmente em uma nave que viajará 120 anos e chegará um outro planeta para uma nova vida, só que no meio do caminho uma das cápsulas que mantém os passageiros adormecidos falha e ele acorda muito antes do tempo. Como não pode voltar a dormir se dá conta de que passará o resto da sua vida sozinho nesta nave porque quando a nave chegar no destino ele já terá morrido. Depois de um ano sozinho analisando os perfis dos outros passageiros para se distrair ele se apaixona por uma moça adormecida e decide fazer a capsula dela parar de funcionar. Ele a condena ao mesmo destino dele mesmo. Ela acorda, se apaixonam, ela descobre o que ele fez, fica furiosa, mas ao se dar conta de que a nave pode cair o amor prevalece.
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Agora vejamos, nesta vida em algum momento nos damos conta de que o caminho é bem longo e que nós somos finitos, passaremos a vida inteira aqui indo para algum lugar em que nunca vamos chegar. Uma das coisas que nos distraem desta longa jornada um tanto entediante são nossas interações sociais. Entre estas interações, aquelas mais interessantes e que mudam a forma com que contamos o tempo são as que se referem a encontrar pessoas que nos tiram o ar, nos deixam meio tontas e com uma curiosidade intensa sobre alguém e ao mesmo tempo sobre nós com esse alguém. O personagem que acordou primeiro na nave, se deu conta disso mas se apaixonou por alguém que não tinha se dado conta. Ele se apaixonou por alguém que não deveria, e passou a viver o conflito moral de mostrar seu amor e envolver essa outra pessoa em uma experiência sem volta ou não. Provavelmente ele tinha algum compromisso social sagrado pela sociedade que o impediria de viver esse amor. Porém quando ele se deu conta da chatice da existência e de como esses compromissos sociais são mais sociais do que essenciais e ele se jogou de cabeça. Ele provocou o despertar da amada, seu segundo sol, e agora ela que não pode mais voltar a dormir, assim como o ignorante não volta ao seu estado inicial depois de deixar de sê-lo e o apaixonado não consegue desapaixonar-se, ela se sente ligada a ele de forma transcendental. Mas aí, no auge da paixão ela descobre as limitações do seu amado, seu compromisso legal anterior. Ela fica furiosa achando injusto ele a envolver nesta estória em que ela não pediu para estar. Eles brigam, se separam. Depois de um tempo de solidão esclarecida o perdão é o único caminho para reconhecer e aceitar um amor como meio possível para suportar os longos anos que teremos que viver neste mundo difícil. Não sei se todos, mas este filme de ficção não tem nada a ver com naves espaciais.

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Daniela Schlogel, formada em Economia, é agente cultural e militante em defesa dos Direitos Humanos. Vive em São Paulo, SP.

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