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Agarrar o mundo com as próprias mãos

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  –  Um artigo de Kariny Wermouth  –

Kariny Wermouth mediando a circulação de livros na praça do Bosque Guarani, em 2016. (Acervo: Guatá)

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Ouvimos desde pequenos sobre a importância da leitura. Entretanto, sabemos que o discurso não é suficiente para que se desenvolva o tão conceituado interesse em alguém. Trago em minha experiência as dificuldades e alegrias de ter sido pouco a pouco aproximada e conquistada pelas palavras oferecidas nos livros. Posso afirmar que não foi um processo fácil e rápido romper com o que parecia estar estabelecido desde sempre.
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Cumpri etapas. Passou o tempo e, a partir de experiências que fui acumulando como mediadora de leitura em projetos como o “Tirando de Letra”, desenvolvido pela Associação Guatá e, mais recentemente(*), o “Agentes de leitura do Paraná” (esforço conjunto da Biblioteca Pública do Estado com a Fundação Cultural de Foz do Iguaçu, em 2016), encontrei semelhanças com a da minha própria realidade através do contato com outros jovens, adultos e crianças, com os quais tive o privilégio de conviver.
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Minhas observações durante oficinas e visitas me deram mais argumentos sobre a questão da leitura e sua aceitação pelo gosto popular. Podemos partir do principio que temos diversos pontos contra desenvolvimento de tal gosto. Mas precisamos começar pelo fato de que a falta de hábito não é um processo natural. Os costumes são instalados socialmente e dentro de um cenário próprio. Somos antes de tudo, um país de pouca escolaridade ainda.
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A capacidade de ler entre as camadas populares é ainda recente e limitada. É fato que muitos foram à escola e continuam com dificuldades grandes em interpretar o que leem.
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Esta constatação importante, no entanto, não explica tudo.
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Vejamos outras questões, começando pela instituição Escola, que é o espaço publico mais frequentado pela maioria dos e jovens e crianças e também legitimado socialmente. É nela onde ocorre os primeiro contato com o mundo letrado. Contudo, os limites do modelo de funcionamento escolar, às vezes, acabam atropelando o estimulo e impondo um modo de se relacionar com a literatura, que se distancia do poder de autonomia que poderia ser desenvolvido pelo contato com ela.
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Em nosso trabalho com as oficinas do “Agentes de Leitura”, percorremos várias escolas públicas de Foz do Iguaçu. E pudemos observar como o interesse de crianças e jovens pelos livros se intensifica à medida que a abordagem que se utiliza para essa aproximação, leva mais em conta o sutileza individual e coletiva do contato, do que os resultados quantificáveis.
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INTERESSE – Nas oficinas que realizamos no CRAS Norte, com adolescentes moradores da Vila Andradina, tivemos uma dimensão maior de como o estimula a leitura é sim um fator importante na vida das pessoas.
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Ali, o que mais observei é que, mesmo com dificuldades em relação ao desenvolvimento e interpretação das narrativas, os jovens se interessam muito pelos materiais. Alguns dos autores apresentados ainda não eram conhecidos, mas logo caíram no gosto do grupo. E além dos autores já conhecidos e renomados, a surpresa da descoberta da beleza das produções realizadas por eles mesmos. Defendo que valorizar a expressão de todos numa sociedade em que nos é imposta a palavra de poucos, é, sem duvida, dar um passa na luta por igualdade.
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O propósito era que os jovens se sentissem autores e mediadores do próprio acesso a leitura e bens literários. Além de passarem a ocupar o espaço físico do CRAS como um equipamento para tal finalidade, ainda que não dispusesse de um acervo organizado, a vontade de tê-lo não faltou entre eles.
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Com este exemplo, atinjo mais uma questão fundamental. É preciso ofertar serviços de mediação e acervo permanente para que a população possa experimentar construir relações de importância com os livros, a leitura, e a literatura. Foz do Iguaçu fica devendo em muito neste quesito. O acesso a acervos literários é muito limitado na cidade. Há falta de equipamentos públicos e os que existem funcionam mal.
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Só para citar um exemplo, vejamos o funcionamento das bibliotecas públicas ligadas à prefeitura. Temos apenas duas. A principal, localizada no centro da cidade, e outra comunitária, no bairro vila C. com déficit de funcionários, elas atendem num horário que não contribui com as demandas da população. Funcionam em meio expediente, em horário comercial. Não abrem nos finais de semana. É urgente que se reverta a situação ampliando o acesso livre aos livros em nossa cidade.
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Melhorar os acervos e espaços públicos, porém, não basta. Ações de estimulo e mediação de leitura precisam ser permanentes. As primeiras iniciativas, oficiais e não oficiais, executadas no município mostraram sua importância. Tais ações são instrumentos que temos para nadar contra a corrente do não acesso a leitura e ao prazer de ler. Iniciativas públicas são essenciais para avançarmos nessa questão. Ainda que sejam limitadas, pois não conseguem abranger a grande demanda que existe socialmente, devem ser pensadas como prioritárias nas políticas publicas de cultura, tendo em vista a defasagem de ações em espaços prioritários.
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OUTRO MUNDO – Penso que os remos que se movem contra corrente, precisam ser mostrados. Para que braços com disposição os agarrem e os façam se movimentar. Afinal, estamos na mesma barca. Talvez ainda não nos demos conta, mas é essa barca que pode nos levar adiante. Não porque a leitura nos faz tirar melhores notas, ou porque é um instrumento de ascensão social através do conhecimento. Senão, porque encontramos na leitura a descoberta de diversos mundos. O real e outros tantos imaginários que nos fazem pensar sempre além das brutalidades cotidianas maquiadas pelo sistema hegemônico que gerencia o planeta.
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A experiência humana transmitida através da linguagem escrita sugere um poder de abstração democrático. Todos podem imaginar, sonhar, se informar, agarrar um o mundo pelas mãos e se entender dentro dele. E com fazer isso senão compartilhando junto a outras experiências humanas, transmitidas através de tantas formas, o convite para viver? Pois a leitura é um convite para mergulhar na imensidão da vida e através dela mudarmos a nossa trajetória para melhor.

Clique aqui e leia mais artigos sobre leitura no Auê Literário

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Kariny Wermouth é estudante de História em Foz do Iguaçu. Mediadora de leitura e coordenadora do projeto Auê Literário da Guatá. (*)Texto publicado na revista Escrita 44, em 2016.

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