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Dicionário da Língua de Sinais

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Lançada pela Editora da USP, obra recebeu prêmio da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). O livro exigiu 25 anos de pesquisas

“O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos propõe o paradigma das neurociências cognitivas para dicionarização da Libras”, afirma o professor Fernando César Capovilla, do Instituto de Psicologia da USP, que, ao lado de Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo e Antonielle Cantarelli Martins, assina a autoria da obra, publicada em três volumes pela Editora da USP (Edusp). O dicionário documenta 14.500 sinais de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em entradas lexicais individuais, trazendo os verbetes correspondentes ao sinal em português e inglês, a definição do significado do sinal e dos verbetes, ilustrações e a descrição detalhada da forma do sinal. São sinais do universo surdo brasileiro de todas as regiões geográficas nas mais variadas áreas, como educação, artes, cultura, esportes, pessoas, relações humanas, comunicação, religião, corpo, medicina, sexualidade, natureza, economia, trabalho, leis, política e preocupações sociais.

Além disso, contém escrita visual direta do sinal em SignWriting, permitindo ao leitor concentrar-se nos traços distintivos que possibilitam diferenciar sinais semelhantes, e é possível ainda encontrar a descrição da etimologia do sinal pela análise dos morfemas que compõem sua estrutura e uma breve análise do parentesco semântico entre o sinal e outros sinais que compartilham alguns de seus morfemas moleculares. A obra traz também a soletração digital em Libras por meio da fonte Capovilla-Raphael (fonte de computador que faz soletração digital, a datilologia), permitindo à criança surda analisar a composição das palavras escritas e converter letras e números em formas de mão. Segundo Capovilla, é o mais completo dicionário do mundo, considerando qualquer língua de sinais.

No início de novembro de 2018, o dicionário recebeu troféu de primeiro lugar em Humanidades da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu). “Foi a coroação de um quarto de século de trabalho amoroso, desvelado e rigoroso”, afirma Capovilla, que é Ph.D. em Psicologia Experimental pela Temple University of Philadelphia, nos Estados Unidos, e também foi premiado em 2018 como Neurocientista do Ano pelo Instituto Nanocell. “A comunidade surda e de pesquisadores e professores de Libras ficou muito feliz, porque viu sua língua receber atenção e respeito nas duas esferas: a das ciências humanas e a das ciências biológicas”, completa.

O dicionário conta com a chancela da Coordenação Nacional de Cursos da Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (Feneis) e dos principais órgãos de pesquisa brasileiros. “É um instrumental para adaptar o currículo escolar para a educação bilíngue”, informa o professor, citando ainda que a obra já resultou em uma série de outros frutos, como a Cartilha de Libras em Medicina e Saúde.

Surdez no Brasil – Atualmente, a comunidade surda engloba 2,4 milhões de brasileiros, que têm grande dificuldade de audição ou que não conseguem ouvir, em meio a uma população total de 208 milhões de brasileiros. Assim, o Dicionário da Língua de Sinais do Brasil se caracteriza como uma obra de referência para a educação e a cidadania da comunidade surda brasileira.

Segundo Capovilla, sua relevância é justificada ainda pela complexidade das necessidades comunicativas dessa população que se expressa em Libras, e que é cada vez mais afluente e influente no panorama cultural e social do Brasil. “O dicionário é um trabalho de mapeamento da Libras visual e tátil e do português falado recebido por audição, visão e tato (leitura orofacial visual e tátil)”, diz o professor.

Os sinais –  As entradas lexicais apresentam os sinais descritos sistematicamente em sua forma e significado, e devidamente ilustrados em sua forma (com estágios e setas de movimento) e significado. O dicionário também emparelha as ilustrações da forma e do significado do sinal, sugerindo intuitivamente como a forma do sinal representa o seu significado; associa a ilustração da forma do sinal e a descrição dessa forma, permitindo reproduzir fielmente a forma do sinal; associa a ilustração do significado do sinal e a descrição desse significado, permitindo compreender esse significado em sua denotação explícita e precisa, e em conotação subjetiva, implícita e intuitiva. Além disso, arrola os verbetes, sua definição e classificação gramatical, e exemplos de uso funcional do verbete em frases, permitindo compreender o conceito e fazer uso do sinal em Libras e do verbete correspondente em contextos linguísticos apropriados. Há também uma lista de Estados brasileiros onde cada sinal é empregado usualmente, mostrando a validade regional de cada sinal e sua representatividade linguística.

O dicionário também está disponível na plataforma digital. Como explica o professor, “ao ver um sinal desconhecido, o observador clica em menus que trazem formas de mão semelhantes àquela do sinal, em locais semelhantes, com movimentos semelhantes e com expressão facial semelhante. A cada clique, o observador, que começa com 14.500 sinais competidores, vai afunilando a busca e reduzindo o número de sinais competidores. O propósito é que, com cinco a oito cliques, o observador descubra o significado de qualquer sinal desconhecido que venha a observar”.

A pesquisa –  Foram 25 anos de pesquisa e envolveu centenas de colaboradores surdos e ouvintes nas mais variadas funções, como a de informantes e revisores surdos, pesquisadores de campo, ilustradores, cinegrafistas, programadores de computador, entre outros.

“O Dicionário da Língua de Sinais do Brasil é fruto de um vasto programa de pesquisas em lexicografia e lexicologia de Libras que iniciamos em 1994, no Laboratório de Neuropsicolinguística Cognitiva Experimental do Instituto de Psicologia da USP”, afirma Capovilla. O projeto contou com apoio do Observatório da Educação (Consórcio Capes-Inep), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), da Feneis e de outros órgãos de pesquisa.

“Desde 1989 eu e meus alunos temos desenvolvido sistemas de comunicação para pessoas com paralisia cerebral, afasia e esclerose lateral amiotrófica. Quando nos apareceu uma aluna surda tetraplégica devido a uma lesão cervical, pensamos em adaptar o sistema para que ela pudesse se comunicar. Ela se comunicava em Libras, não articulava a fala, não lia nem escrevia, nem fazia leitura orofacial. Precisávamos de um dicionário em Libras para adaptar o sistema, mas não havia nenhum dicionário pronto. Consultamos fonoaudiólogos e linguistas do País todo. Estes nos pediram que esperássemos alguns anos. Ao cabo de dois anos de espera, com o paciente em depressão, decidimos arregaçar as mangas. Os linguistas nos chamaram de insanos”, relembra o professor.

Mas Capovilla e seus alunos resolveram tentar. Ele seguiram as ideias de Wilhelm Wundt, “pai da psicologia experimental”, que no livro Psicologia dos Povos reconheceu as línguas de sinais plenas e os surdos como povos com cultura própria. “A posição de Wundt era muito mais avançada que a do ‘pai da linguística’, Ferdinand Saussure. Então nós, psicólogos, teríamos a primazia histórica e, logo, o direito a uma tentativa honesta.” Em 1996, Capovilla, como diretor do Capítulo Brasileiro da International Society for Augmentative and Alternative Communication, trazia do Canadá um exemplar do American Sign Language Dictionary, de Elaine Costello, como inspiração. Novamente, como relata o professor, os linguistas disseram que seria loucura, pois criar um dicionário de Libras seria um empreendimento dificílimo.

História –  Em 1998, foi lançado o primeiro manual de Libras, juntamente com o sistema de comunicação que o empregava. “Isso mostrou que era possível. Foi o primeiro incentivo de que precisávamos”, conta Capovilla. O segundo incentivo veio do sofrimento dos professores de ensino fundamental que tinham alunos surdos em suas turmas. “Eles se cotizavam, generosamente, dividindo seus modestos salários para pagar aulas particulares de professores surdos para ensinar sinais suficientes para que pudessem dar aulas aos seus alunos.” Mas, segundo Capovilla, o problema era que, com esse pequeno pagamento, os professores surdos logo encontravam algo mais rentável e abandonavam o posto. “O substituto que assumia a posição desdizia metade dos sinais do colega anterior e ensinava sinais novos”, explica, acrescentando que essa história se repetia em inúmeros grupos de professores. “Eles reclamavam que estavam ‘patinando no barro’, dando alguns passos para trás e outros para o lado a cada pequeno avanço para frente.”

Para evitar cair nessa “cilada”, o professor diz que procurou a Coordenação Nacional de Cursos de Libras da Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos (Feneis). “Em reuniões com informantes surdos de todo o País na Feneis, coletávamos os sinais, filmando-os em diversas sessões. Então íamos ao laboratório, ilustrávamos os sinais e os descrevíamos minuciosamente. Nas reuniões seguintes, mostrávamos os sinais ilustrados aos mesmos informantes surdos, e aqueles que tivessem sido aprovados recebiam a chancela da Feneis; os demais eram refeitos.” Esse trabalho “hérculeo”, como descreve Capovilla, se prolongou de 1998 a 2001, resultando no DEIT-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira, que, em 2002, recebeu prêmio da Gallaudet University e menção honrosa da Câmara Brasileira do Livro, ficando em segundo lugar no Prêmo Jabuti daquele mesmo ano. “O trabalho ficou tão bonito que o famoso Oliver Sacks veio conhecê-lo e escreveu a apresentação do dicionário.”

Logo o DEIT-Libras se tornou best-seller da Edusp e, ao documentar um corpus de quase 4 mil sinais da Libras, deu status científico à Língua Brasileira de Sinais e levou a Presidência da República a regulamentar a Lei de Libras, que reconhece a Libras como um sistema de comunicação da população surda brasileira. Assim, em 2006 o dicionário foi distribuído a dezenas de milhares de alunos surdos em todos os municípios do Brasil pelo Ministério da Educação (MEC), via Programa Nacional do Livro Didático. “Ficamos tão animados com os resultados que começamos, já em 2001, a expandir o léxico documentado.” Em 2009, foi lançado o Novo DEIT-Libras, com um vasto corpus de 9.500 sinais, que, assim como o anterior, teve diversas edições, com aprimoramentos sucessivos, até chegar, em 2017, ao Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em suas Mãos, com três volumes e 14.500 sinais.

Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A Libras em Suas Mãos, 3 volumes, de Fernando César Capovilla, Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo e Antonielle Cantarelli Martins, Editora da USP. Mais informações estão disponíveis neste link.

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Jornal de Usp / Claudia Costa

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