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As coisas simples

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Um poema de Fábio Campana


Descubro motivos para viver nesta casa amparada nas alturas 
envolto em solidão sem rimas, sem métrica,
sem pleonasmos,
Flor dor amor removidos limpos na folhagem
verde, verde platina, amarelo de abandono,
tingida em vermelho de lamúrias nos fios do crepúsculo 
Aqui, no alto, posso dizer meus versos sem que ouçam minhas metáforas pobres e conclusões sem nexo.

O menino, aquele, que ensaiou papéis de herói, Já não existe.
Morreu com as utopias e os pequenos deuses inventados no ano da iconoclastia
Quem restou?
Faço a chamada dos vivos. 
Teresa, André, Cândido…
Sempre há um a mais no rol dos mortos e ninguém sabe dizer 
Onde estão enterrados seus ossos, seus olhos, seu viço e vontades 
Para onde fogem os combatentes mortos?
Em que eternidade repousam seus corpos cansados,
açoitados pelas frustrações

Deste alto vejo um mar cinza azulado que se degrada em verde 
Na hora em que as gaivotas se recolhem.
Deste ponto vejo a praia contaminada da baía,
Sua margem de pedras

Mar escuro, espesso, petróleo,
E não sinto o cheiro fétido das algas, detritos, peixes mortos, 
Que vão e vem, embalados pela água
Latas, plásticos, ferro, ferrugem, ossadas de um cão
E de um automóvel oldsmobil 47 de lataria rasgada
É possível purgar uma vida submersa na estupidez dos homens? 
Foi longa a noite, vácuo sem luz, só o fogo invisível
Que permanece e continua a incendiar por dentro.
A noite das partidas das pessoas a quem amávamos
No lugar onde vivemos sonhos que ainda sonho
há quartos vazios, leitos desfeitos, móveis quebrados, poltronas sujas.
As paredes em ruínas, marcadas pelas rachaduras,
E pelos tiros.

Ergui esta casa no alto e me proponho a viver aprender as coisas simples, despir-me das transcendências,
e acertar o ponto exato da fervura
da água para coar o café.
Reter as lembranças sem cultivá-las, 
Fazer o fogo, assar o pinhão,
raspar o ranço de ódio na alma, 
Cuspir esse travo na garganta
E aprender a aceitar o amor
Pouco, quase nada,

Que jamais aparece quando o espero,
Aqui estou só, não ouço os ruídos torturantes,
Carros, buzinas, gritos, estridências.
Não há discursos nem o repetido noticiário
De crimes, roubos, políticos, ladrões, assassinos.
A comédia da violência urbana.
E estou liberto das mulheres loucas, domésticas,
a ligar suas máquinas motores, aspirador, ruídos, liquidificador, barulho e a mesma canção de fundo a chorar o amor perdido interrompida pelos comerciais de cremes para rejuvenescer.

As mulheres que envelhecem me incomodam
Porque me comovem em sua amargura
a sentir o trabalho subterrâneo do tempo nos seus seios.
a pressa das rugas e das olheiras, o olhar que se perde na tristeza, enquanto esperam que a vida passe na sala sem luz,
A murmurar a canção que só seus lábios podem cantar.
Quanto ao amor, aguardo o acaso, confio no improvável,
o amor não obedece a planos, nem é previsível no curso da vida. 
Eu ainda a procuro, ainda espero, mas quando penso em desistir, sinto que me faltam a rima,
o sol, um buquê de girassóis, a árvore e a ave,
o desenho de um sol
e as palavras da separação

Das paixões devo escoimar o que ficou
na alma suja de restos, palavras gastas
no cansaço de sentidos.
Devo estar preparado para uma trama do acaso, talvez um desvio do olhar, o abraço que se demora e força a aproximação.
Exilado, recluso e liberto, quero
as coisas simples e uma vida mais lenta
A luz inquieta de uma lamparina
antes que chegue a alvorada e seu lume forte Para voltar ao trabalho e às palavras 
Evitando o lado escuro, persistente,
de um velório interminável
com seu odor de cera queimada.
Por isso procuro reaprender o simples
usar as ferramentas certas para construir um banco (um dia, talvez, um barco)
E uma mesa de taboa apoiada em cavaletes cantar em versos simples, repetitivos,
as coisas simples liberto como um sanhaço 
E viver a cada dia a ração de tempo
e a ínfima porção de amor
que ainda posso merecer.

_______________________________
Fábio Campana, jornalista e escritor paranaense.

O poema acima integra o livro “As coisas fáceis”,
publicado pela Travessa dos Editores (2019)

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