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De mim sem mim

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Uma crônica de Áurea Cunha

“Plástico”, fotografia de Áurea Cunha

Quem é este que me olha com olhos que pareciam os meus…

Na Oficina do Olhar que ministro, em uma das dinâmicas, em duplas, os participantes que não se conhecem previamente, se põem a olhar para o outro. A ideia é que ambos se assistam, tentem revelar algo acerca daquela personalidade a sua frente. Cada ponto, cada linha é importante nesta investigação. Eles relatam que a maior dificuldade é sustentar o olhar fixo por alguns minutos. Concordo! É muito incômodo estar sob a mira do outro. Muitos conseguem deduzir boa parte das características psicológicas do par.

Acredito que as fotografias também deveriam falar sobre nós. E falam. A não ser que, deliberadamente ou não, as amordacemos.

Com os recursos tecnológicos, softwares de edição e os tais presets, programinhas prontos que vêm nos celulares, calamos com facilidade as vozes que ecoam de nossa alma falando acerca de nós. Apagamos traços tão nossos. Aquelas ruguinhas conquistadas a tão duras penas. (Risos…)

Outro dia fui procurar uma pessoa nas redes sociais. O nome estava correto, a profissão, os amigos, quase tudo  batia com o que eu sabia dela. Porém, a foto, parecia de outra pessoa. Não era feia, mas também não se parecia com o original que eu conhecia.

Nas artes das representações o desenho e a pintura podem ser imaginados, mas a fotografia não. Ela precisa de um original necessariamente no instante da tomada. Ou pelo menos era assim.

Não se pode negar a necessidade desta presença na fotografia. Porém, esta presença agora pode ser tão modificada a ponto de não se parecer mais com o original. As novas tecnologias trouxeram a baila esta realidade e não se pode fazer muita coisa quanto a isto a não ser observar e compreender as mudanças.

A pergunta é: Isto é bom ou ruim? Depende! Para uns pode ser o próprio paraíso poder controlar o jeito que se quer sair na foto. Forjar-se mais descolado, mais confiante, parece tentador. Poder tirar a própria foto sem a presença incômoda de um outro olhar, também. Afinal, na minha selfie sou o que eu quiser e ninguém tem nada com isto. As vezes, nem o próprio autofotografado.

É tudo muito bom, mas… Cadê eu?

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Áurea Cunha é fotógrafa, jornalista e agente cultural em Foz do Iguaçu, Pr.

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