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Poema da Cidade

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Um poema de Nilson Monteiro

Eu te aprendi cidade

teus carregadores de marmitas frias
teus trilhos de estômagos vazios
teu relógio cardíaco
teu templo de potes de ouro
tua barriga de lombrigas
teu fogo gélido
torrando o pão.

Eu te conheço e saúdo

a manhã vazando teu pulmão
de ônibus bufando lama e óxidos,
a manhã lavando calçadas
e o sangue que grudou no asfalto e em tua história.

Digo bom dia, com medo da resposta,
e caminho entre conhecidos
caras, casas, árvores,
no meio da praça um lambe-lambe
pede sorrisos para o pássaro ferido.

Eu te conheço cidade
e sei de teus meninos
fumando e levantando voo.
Sei também de teus patrões
domando dias e noites
escarrando em toda dignidade.
Sou irmão de teus bandidos famintos
de tuas meninas prostitutas
de teus meninos
arrebentando vidraças.

Sei teu cheiro
teu cheiro de barracões entupidos de café
de bares ferventes
de bolsos entupidos de dinheiro
de cinturões apertando corpos famintos.

Eu te conheço e sinto todos os poros
te sentirem roxa e visceralmente roxa
por toda a parte. Dentro do cinzeiro
ardendo o calor de tuas noites
vadias
em teus becos
favelas, esquinas e botecos
em tua vida.

Sou testemunho, cidade
Engraxo meus olhos
com bueiros entupidos
e nos trilhos da estação
repleta de saudade,
uma viola de ternura
sola ao peito nomes de amigos
e a cara triste de roceiros no vai e vem.

Eu te conheço cidade maldita e querida cidade
Teu chão, tua lei, a lei
dos que não cedem espaço
dos que vendem diariamente,
camelos engravatados.
Seu naco, à revelia e rebeldia
de tua vida

gerada por cafeína a esperma,
pioneiro e cadáver de tuas horas,
a febre que te engravidou,
esta poeira endiabrada,
as tetas desta lama.
Conheço tuas fábricas
que arrotam estrumes
e operários amassados,
sei deles.

Sei de tuas mulheres
que esfregam e espremem
seus salários
e nos acenam mãos vazias.

Cidade, cidade,
saúde teus loucos
me dizendo
bom
triste, inflacionado, esperançoso dia,
impresso em manchetes policiais
no embrulho das feiras e verduras.
Não, cidade, não nos deixemos
liquidar em bazares.

Jogo uma moeda
ao fundo do teu lago
e confesso:
só queria te fazer um poema.

__________________________
Nilson Monteiro, escritor, jornalista e poeta paranaense.

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