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Opinião: classe e gênero

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“A exploração das mulheres possibilita os baixos salários de toda a classe trabalhadora” (Marina Machado, economista)

Feminismo classista: entrevista com a economista Marina Machado Noelia Cuenca

Marina é economista, Doutora em Economia Internacional, pesquisadora e professora universitária. Ela tem 35 anos, nasceu no Brasil, é uma militante latino-americana e comunista. Compartilhamos a entrevista/comentário que ela concedeu ao jornal Adelante! sobre como a exploração das mulheres possibilita os salários de fome de toda a classe trabalhadora e, sua compreensão das contradições do sistema capitalista.

O trabalho de cuidado: muito mais por muito menos

As mulheres são historicamente associadas a empregos que têm a ver com o cuidado dos outros. Somos responsáveis em nossa sociedade – remunerados ou não – pela educação dos filhos, pelo cuidado dos idosos, dos doentes, da limpeza, da cozinha, etc. Com esta condição imposta por tanto tempo, somos incapazes de desenvolver outros múltiplos aspectos que compõem nossa humanidade. Como isso contribui para a exploração de toda a classe trabalhadora?

A capacidade de gerar vida, isto é, de engravidar, paradoxalmente, nos torna as primeiras a ser demitidas ou dificulta a obtenção de um emprego formal. Há muito mais informalidade no trabalho feminino. Uma parte considerável das mulheres trabalhadoras domésticas são contratadas apenas por palavra, com maior risco de serem demitidas e com salários mais baixos. Porque somos mulheres, continuamos a receber menos do que os homens pelo mesmo trabalho. E o outro elemento desta divisão sexual do trabalho, que é o que dá a base do mencionado acima, tem a ver com o papel atribuído por excelência às mulheres por serem responsáveis pela reprodução da vida de todas as pessoas. É algo que o sistema precisa para nos manter vivos e renovados, a fim de voltar a vender a nossa força de trabalho no mercado, para continuar a nos explorar: o trabalho de cuidar.

O salário mínimo é baseado no custo do conjunto de bens necessários para reproduzir a capacidade de um trabalhador de vender sua força de trabalho, que é conhecida como a cesta básica da família. Em outras palavras, o cálculo do salário é feito com base no que é necessário para o trabalhador comprar para viver, isto é, em uma base comercial. Mas o que as pessoas podem comprar com o salário atual não é suficiente para reproduzir a vida. Para isso é necessário um trabalho adicional que é o trabalho de cuidado, comumente chamado de trabalho doméstico. Quando um trabalhador recebe um salário e compra comida no mercado, antes de ser consumido, é necessário cozinhá-lo. O mesmo vale para a limpeza da casa, criação dos filhos, lavagem das roupas, planejamento dessas tarefas. Estas são tarefas geralmente realizadas por mulheres e esta realidade foi socialmente construída como um valor ético que garante ser o nosso dever, o nosso papel. Nós mulheres trabalhamos por muito menos remuneração, mas por muitas mais horas. Precisamos trabalhar em casa depois do dia normal, adicionando assim muito mais horas do que o trabalho médio de qualquer homem.

Se essas tarefas de cuidado e reprodução fossem mercantilizadas, isto é, calculadas como parte do que é necessário para viver, os salários de toda a classe trabalhadora deveriam ser muito maiores. A exploração das mulheres possibilita os baixos salários de toda a classe trabalhadora.

O trabalho de reprodução da vida, ou seja, o trabalho de cuidado, dentro da lógica do sistema capitalista, é referido como “improdutivo”, porque, mantendo a ordem social das classes, não gera riquezas diretamente ao capital.

Um exemplo claro para ilustrar como o trabalho de cuidado é invisível, é o debate sobre a remuneração das trabalhadoras domésticas assalariadas: há uma dificuldade de toda a sociedade em assumir os direitos que lhes correspondem como trabalhadoras, inclusive o mais elementar, o salário mínimo. E as mulheres mais exploradas são aquelas que mais sofreram com a colonização, as negras e as indígenas. Elas recebem os salários mais baixos e têm jornadas duplas e triplas.

Existe uma estrutura social que permite que isso ocorra. É essa estrutura que precisa ser transformada.

Maiores lucros para a classe exploradora

O impacto com o qual este sistema atinge as mulheres é múltiplo. Mas essa opressão não é a mesma para todas as mulheres. O papel desempenhado pelas classes sociais na reprodução da exploração é essencial e transversal. No Brasil, não é igual a situação das mulheres negras não proprietárias; no Paraguai a condição das mulheres indígenas – e no mundo como um todo – não é a mesma que a das mulheres não brancas.

As contradições de raça e gênero são manifestações concretas de um sistema social que universalizou a exploração baseada na propriedade privada e a objetificação de seres humanos, ou seja, a mercantilização da vida.

A exploração das mulheres nessa sociedade é parte de um sistema social que baseia a produção de mercadorias no lucro, no acúmulo de lucro. Não haverá possibilidade de libertação das mulheres ou do fim da subjugação racial nesta sociedade, porque precisamente essas divisões produzem maior ganho para a classe exploradora.

Se o trabalho doméstico fosse levado em conta, os salários aumentariam, e o lucro capitalista diminuiria.

A reprodução cultural da exploração

É importante entender que essas condições de exploração são reproduzidas culturalmente. A sociedade capitalista está baseada em uma série de valores instalados pelas revoluções burguesas que construíram a ideia de sociedade como uma soma de indivíduos iguais e que corresponde à ideia de que “indivíduo” é o proprietário homem branco. O homem branco personifica a ideia universal de cidadão. Isto é muito profundo e se reflete em práticas muito recorrentes, como ao se interromperem as mulheres quando falamos ou ao se pedir para explicar algo que acabamos de dizer como se não soubemos explicar bem, assim como termos de escutar com mais atenção quando os homens falam, além de mentir-nos muito. Tudo isso tem a ver com a valorização das mulheres abaixo do que é valorizado pelo homem e está dialeticamente relacionado ao valor de nossa força de trabalho.

Então, quando na prática cultural, cotidiana, uma mulher é valorizada – consciente ou inconscientemente – abaixo do que se valorizaria um homem, estamos reproduzindo a divisão sexual do trabalho e, com ela, as relações de exploração. Até mesmo a construção da ideia de amor nesta sociedade nos coloca em uma situação em que devemos aceitar a exploração como parte do que nos toca fazer “por amor”.

É indiscutível que a sociedade precisa de cuidados, então, não é que as mulheres tenhamos que parar de cuidar, mas que os homens também assumam os trabalhos de cuidado. A reprodução ideológica que nos reduz é a que nos faz acreditar que o fato de os homens serem abusivos é normal, “é a sua natureza”, e com isso justificar uma série de injustiças e maus tratos.

Construir novas relações é revolucionário

A sociedade é uma totalidade constituída pelas relações entre suas partes. Não vamos destravar uma parte sem o todo. Lutar pelo novo é também construir o novo. Temos que redobrar nossos esforços para combater as relações de exploração que reproduzimos em nossa prática diária.


O ser humano é uma espécie que tem alguma liberdade porque pode imaginar e planejar o novo. Quanto mais reconhecemos as contradições da sociedade em que vivemos, maior é nossa capacidade de superá-las, decidir o que fazer. Mas se fingirmos que elas não existem, não temos liberdade para escolher. Talvez não possamos superar todas as contradições nesta época histórica, mas podemos avançar. De fato, isso é necessário para construir novas referências sociais que sustentem ideologicamente novas práticas.

O primeiro passo é lutar para demolir esta sociedade onde poucos seres humanos têm tudo e os outros seres humanos dão literalmente a vida para que esses poucos possam ter tudo. E parte dessa luta por uma nova sociedade é a luta contra nossas próprias contradições. Então, é fundamental dividir o trabalho de cuidado, que os homens não “ajudem” as mulheres, mas se assumem como corresponsáveis pelo trabalho de cuidado e reprodução da vida, que parem de mentir para nós, porque com mentiras colocam em evidência que eles consideram que não somos capazes de lidar com a verdade ou que não merecemos a verdade. Que eles parem de abusar de nós, com violência emocional, financeira e física. Que eles parem de nos violar, nosso corpo não pertence a eles. Parem de pensar que uma mulher está sempre vivendo para conseguir e manter um homem. Que eles deixem de se aproveitar de nossas inseguranças para conseguir espaços mais favorecidos.

A construção de novos gêneros, a transgeneralidade, não passa apenas pela reconstrução daquelas pessoas que são oprimidas, há que construir novas formas de ser mulheres e novas formas de ser homens, novas sociedades.

Publicado originalmente em espanhol.
Versão para o português, portal PCB

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*Marina Machado Gouvea (35) é Economista, Doutora em Economia Política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), docente da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisadora e militante. Atualmente trabalha como Diretora da Sociedade de Economia Política do Brasil (SEP), membra do Diretório da Sociedade de Economia Política da América Latina e do Caribe (SEPLA) e membra do Grupo de Trabalho Crise e Economia Mundial do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO). Coordena o Grupo de Estudos em Teoria da Dependência (UNILA-CNPq).

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