CONTO
Entretendo a razão
(*)Beth Vilasboas
Minha neta acompanhou-me ao consultório do Doutor Farias, para uma revisão em meu “comboio de cordas”. Na sala de espera, velhos conhecidos e conhecidas falas, tosses e resmungos. A bonita decoração da sala confortável, não serviu para amenizar o desgosto demonstrado pela maioria dos impacientes. O motivo não era só a espera, prolongada a cada novo atendimento, mas a notícia de que nosso médico estava sendo substituído pelo sobrinho, um jovem, mas “já especialista em todos os tipos de corações”, teria dito a secretária. Era notável que ao sair do consultório, os pacientes tinham uma expressão bem mais alegre no rosto. Fiquei mais animadinha, aguardei, ansiosa, a minha vez. Ângela preferiu esperar-me na ante-sala, diante da TV. A enfermeira acompanhou-me e fez-me sentar diante da mesa de imbuia e vidro azul. Ele falava ao telefone, enquanto observava a tela do monitor. Ao terminar, girou a cadeira e me encarou com a cara mais linda que já vi. Sorridente e simpático, apertou minha mão entre as suas, muito afetuoso. Fiquei prazerosamente zonza durante a consulta, não consegui fixar meu pensamento e só sorria, respondendo com poucas e fracas palavras à voz calorosa do médico. Ele ficou junto com a enfermeira e ajudou-a a arrumar-me para o exame, com toques de incentivo e carinho. Estava tudo muito bem comigo. “Seu coração está cheio de vida, dona Luísa!”. Agradeci constrangida. Meu coração bombeava com força naquele momento e, apesar de ausente o frescor de minha pele, tinha certeza de que meus olhos brilhavam. Recebi os papéis com mãos antigas. Despedi-me, trêmula. Quando deixei o consultório, fui tomada por uma insatisfação angustiante. Uma sensação de inadequação, de arrependimento, de inutilidade, de sofrimento e abandono.
-Tudo bem, vozinha? - Ângela procurava resposta em minha face contorcida. Respirei fundo e tentei controlar-me:
-Tudo bem, querida! - Tomei sua mãozinha e caminhamos até a sorveteria. Eu havia prometido a ela.
- Pistache... Experimente Ângela!”
- Você gosta vovó?
- Nunca provei! Mas li em algum lugar que todos deveriam provar um sorvete de pistache.
- Ah, eu não! Prefiro chocolate.
- Pois hoje eu vou provar kiwi. - Falei decidida. Ela riu gostosamente da minha ignorância gustativa.
- Que podre, vó!
Senti-me um pouco melhor com o bom humor dela. Deixei-a em casa e voltei para a rua. O ar não parecia ser o mesmo. Havia uma brisa quente soprando de todos os lados, agitando as árvores e suas sombras dançavam sob meus pés. Não podia voltar para minha casa, sentia-me uma estranha dentro de meu corpo. Continuei caminhando, consciente apenas do calor, das cores e dos cheiros. Difusas, as formas passavam por mim em ondulações térmicas e multicores. Fechei os olhos, a brisa veio mais forte e fresca, trouxe-me o cheiro do mar. O mar molhou-me os pés e arrastou-me com a areia. Uma onda jogou-me mais longe e arrastou-me mais uma vez, e outra, e novamente, até que meu corpo flutuou leve na água morna do mar imenso. Entreguei-me àquele doce embalo e adormeci. Veio a noite e o frio. Eu estava sob a constelação de escorpião e queria continuar planando, ao vento, entre o céu e o mar. Mas, meus olhos se abriram, contra minha vontade e, após alguns segundos de cegueira e confusão, as imagens translúcidas foram se concretizando em formas conhecidas. Fios, eletrodos, tubos, monitores, alvos lençóis, paredes frias de hospital, máscaras e olhos em expectativa. Tentei demonstrar meu espanto, mas estava inerte. Eles, no entanto, parece que entenderam, sorriram, falaram e se movimentaram rapidamente, provocando barulhos estridentes e insuportáveis. Um cansaço enorme tomou conta do meu corpo e se transformou em lancinante dor. Desejei morrer.
- Vamos dona Luisa, tá na hora de acordar! - O velho e bom Doutor Farias segurava minha mão. Sorri. E apenas para confirmar, perguntei:
- Foi um enfarte? - Ele riu:
- Ainda não, minha querida, foi só um soninho! Hoje estou muito atrasado mesmo, não é? Mas, vamos lá, que finalmente chegou a sua vez. Como é que anda esse coraçãozinho de menina, hein?”
(*) Beth Vilasboas é formada em Letras. Atua em Foz do Iguaçu.
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