OPINIÃO
Não resgatarás
(*)Fábio Campana
A cada carnaval há quem diga que estamos a resgatar a alegria da grande festa brasileira, enquanto o espetáculo vai enriquecendo-se em mesmice e vulgaridade. Resgatar é verbo de muitos significados. Vale, inclusive, por expiar, lavar os pecados. Com este senti-do não falta quem possa esbanjá-lo. Mas nas rodas a-fluentes e nem tanto, está sendo usado por recuperar, retomar – salvar, talvez.
Mas não se resgata coisa alguma a não ser atra-vés de um movimento espontâneo gerado por emoções verdadeiras. O carnaval é exemplo. Foi expressão de algo que subia das entranhas de um povo. Mas o que aí está, exibido exaustivamente no vídeo, já não tem nada a ver com coisa alguma. É algo que não se recomendará resgatar jamais.
Voltar a uma noite dos tempos em que o povo vivia três dias de deslumbrada folia (deslumbrada, que bela palavra) em bailes e corsos é impossível.
Havia em tudo aquilo uma compostura e uma coerência já inatingíveis. Sobrou de tudo isso o dinheiro público misturado com a grana ilegal para alimentar a repetição paulificante e embrutecedora dos desfiles, a escalada da grosseria, um debate aviltante em torno da nudez das genitálias, e um fenômeno assombroso de preguiça coletiva, que toma conta de uma nação em peso, pronta a achar pretextos para deixar de trabalhar dez dias redondos.
Difícil está ficando até mesmo resgatar – e aí, sim, valeria a pena – os ritmos negros que fazem notável toda música de um povo aparentado com a África, a música nascida da desgraça de um transplante forçado como a flor rara de um espinheiro.
(*) Fábio Campana é jornalista e escritor em Curitiba, Paraná.
Leia fragmento do romance "Ai", de Fabio Campana
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