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CONTO

Tempos de guerra
(Mitaí)

 (*)Silvio Campana

 

Ainda ontem choveu aqui na fronteira. E as águas em tempos de cólera agem assim mesmo: caem e refrescam a febre do corpo, acometem o choque das temperaturas e iludem. Depois, limpo o céu, na pele, deslizam gotas que sublimam as paixões de cada um. É como contar na certeza de que, passado o temporal, virá sempre outro, ainda mais irascível, mas que terá um fim aparente, para que outro o atropele. Moto contínuo da vida e da morte, a farsa presa em um calendário com as luas desenhadas em cada lote de dias. E uma líquida mancha no horizonte, perpetuando-se, inexeqüível.

Os bares e o frescor da manhã à beira do lago são cacos que não se encaixam mais. O gim, sua bagana, um apelo pela liberdade, preenchem apenas um perfil tênue do que não é mais verdade. Mas no peito sinto o que ainda são indícios de que estávamos certos naquela forma. Pois ela resistiu a tudo.

Sua predileção pelas coisas engraçadas a fizeram uma referência do bem estar que depois procurei por toda a vida. Nem os delírios da guerra contra a ditadura militar, aquele imenso dragão que ocupou destaque em nossas conversas adolescentes e que a todos enfeitiçou por um tempo, conseguiram dela uma pessoa amarga. Sua mão a fazer sinais tímidos em meu corpo amputava a perspectiva de se pensar no futuro. Tempo que vivemos agora e que eu sei. Eunice sempre foi uma pirata atropelando as normas mais elementares de convivência com o mundo imposto.

Tantas guerras, tantos armistícios. E ela tinha tão pouco também. Se misturaram aos meus olhos, a beleza daquelas pernas e sua aflição. Acho que isso também ajudou a proporcionar à vida daquela época, utopia.

Foi assim que enchi retinas com sua força e queimei na ironia frágil disparada de um coração com esse feitiço. Embriagado com seu silêncio, esperei cada olhar que enviou para mim numa engenhosa arte de arriscar tempo e espaço com tanto desejo.

Volta e meia, conversávamos. Horas e horas rodeavam o mundo e nossas poucas ações. As idéias no cio sustentavam o que não era real no preparo de mais uma tempestade. Eram manhãs em que rasgávamos as ruas com um andar meio desengonçado, feio. As pernas desordenadas num aviso de que éramos assim, diferentes na semelhança. Desproporcionais para a vida casta que almejávamos em heróis anônimos e que haveriam de brotar na periferia de nossos sonhos.  Retratos pífios de uma época que se engasgou na garganta.

A materialidade dos fatos censurados nos jornais. O nosso esquecimento do cotidiano que apodrecia. O sol quase maduro, tolhido pela força. O diretório em frangalhos.

Naquele quadrilátero do centro da cidade, cinco horas da manhã, os uniformizados perfilaram o fim num cerco imaginário. Nossa quadra foi tomada por um corpo estranho de pés calcados em coturnos. Um exército unindo minotauros, a tríplice A, gorilas e suas medalhas, a Ku Klux Klan. Uma cobra imensa engolindo nossas certezas e peidando em nossa cara o regimento do que fora planejado para nossa ilha, até então livre. Em poucos minutos, destroçaram a sede estudantil, fuçaram em tudo.

Anjos coléricos, as asas caídas, perdemos falácias de um tempo onde a valentia transformou-se rapidamente em pieguice e incomodou para sempre o sono. Jornais rasgados, cadeiras quebradas, uma parede de cimento. Construída por operários obedientes que ignoraram nossos mais nobres intuitos em benefício de sua redenção como classe. Num tempo breve, juntaram traço de pó à água e calfinaram aquilo que sepultou nossos movimentos.

Ato político, a raiva. Desolação que acompanhou a perplexidade de todos nós. Isso doeu sempre e muito. Mentirosas, no mínimo, seriam as palavras que anunciassem uma bonança a resgatar os náufragos do barco em que nos metemos daquela vez e sempre.

Como dizia a ela, aos relâmpagos que animam o dilúvio, boas vindas!  

Por isso, andar pelas avenidas movimentadas da cidade é desespero. O que era um caminho possível, agora é seco, árido. Os carros aceleram na linguagem de sempre, que é deixar para trás o passado. Nos edifícios, à beira do asfalto quente daquela esquina, o que vejo agora são imensos totens determinando uma eliminação. Magias pequenas e medíocres mas suficientes para roubar-me as forças de um homem comum.

Perde-se a capacidade da fantasia e já se tem até saudade. Sem outro recurso, aceito o martírio como possibilidade de sobreviver a mais uma temporada de caça aos lúcidos. Eunice morreu. Sua pele macia e branca, a cara judia, já são incompletas sensações de que alguém agora não pode estar presente. Se ao menos tivéssemos as fotos.

Talvez servissem para identificar de onde vinha aquele segredo, que mais tarde questionei, se não era a própria mulher que um dia apareceu falando uma linguagem carinhosa, boa de se ouvir.

O que vinha naqueles olhos, menina ainda que era? O que iam naqueles olhos fugídios em noites apressadas pelos gritos de uma cidade londrina? Com certeza, ela era mais do que tudo aquilo que conheci. Ela nunca falou, mas suas ações eram de quem flutuava no ar sem nenhuma pretensão aparente de alegria ou imortalidade. Feliz ou triste? Com ela, anulava-se a necessidade de dualismos para explicar a razão das coisas.  E quando desapareceu, rasgou-se a cortina que separava aquele tempo do que conto hoje.

Calado, sinto a perturbação do que morre a cada lance da cidade, com os prédios tomando conta de seu antigo território; aquela área perto do estádio, onde proliferavam as repúblicas estudantis e que tinha a marca das estrelas em madrugadas infindáveis. Muros maculados pelo brio de quem amava e escutava os céus e as verdades absolutas dos panfletos mimeografados.

Foi então que escrevi a carta. Milhares de letras soltas num supremo ato de sobrevivência. Em cada sílaba rasgada, um amparo, uma muleta para ressurgir. Sei, no entanto, da marca que arcará nossos lombos, como uma desatinada labareda desse fogo implacável. E a carregaremos. Anuviados, gosto de tinta e heresia na boca, carregaremos. Demônios soltos ao vento, alcançaremos vôos pequenos e incompletos e, ainda assim, carregaremos.

Em Eunice o que funcionava sempre era o gosto de viver. Guardava as imagens, perpetuava acasos. As fotografias amareladas, ambientando-se no cheiro morno das caixinhas de sândalo. Uma viagem até o Titicaca, as casas antigas, os disco voadores de São Tomé das Letras e, aquela vez, na chuva das Cataratas do Iguaçu, um universo de águas mesclando com nossa emoção. Entre tantos rostos, almas flagradas na passeata das diretas e no vai-e-vem dos trens na Estação da Luz. No retrato em preto e branco, as rugas da anciã pedinte do cruzamento da Higienópolis e a Humaitá.

Para nós, abrir as caixas, era como iniciar um vôo mágico pela eternidade.  Qualquer amargura, uma tampa se abria e escapavam juntas com o frescor da madeira lembranças tão doces e consistentes que não deixavam outro jeito senão admitir a vida. Assim, sobreviver era como soletrar imagens recortadas de uma realidade qualquer.
Bem lá no fundo o fazíamos para beatificar um longínquo armazém de memórias.

Eunice é, por assim dizer, o extrato de um tempo que o esquecimento há de fazer doer mais e mais em qualquer coração. É andar com os pés tocando o discurso que adotamos nos anos oitenta e ser a própria sobra, em meio a apelidos, indicações bibliográficas e tantas bobagens.

Um dia vai ser assim, pensava na sua inquietude juvenil. O sol reservando um pouco das horas para nós em meio aos fantasmas com quem guerreávamos, os livros jogados à cama junto aos discos. Tesão de uma mulher deflorada aos dezoito, pedindo com seu hálito cálido e intransigente, compreensão e fascínio. A boca dentada querendo mais da carne de seu homem.

Uma vez inventou de correr pelas ruas, buscava um pouco de muro ainda não ocupado pela desobediência civil para sua letra pequena e uniforme. Naquela noite ganhei uma confissão de amor; um colibri ofegante, num beijo com o aroma discreto dos ibiscos.

No segundo inverno que passamos juntos, ela fotografou felinos aninhados na sala. Retratos de hábitos tão semelhantes e confusos correndo pela casa. Perpetuou assim o relógio na parede vazia e o tempo em açoite, nos que tinham prazo para esconder e cuidar de sua paz.

Naquela moça, de erres canhestros, o choro não era raro e sempre contido. Lembro-me de quando recuperou as fotos dos antepassados, que, ainda na Europa, bradaram o anarquismo italiano. A química no laboratório improvisado no banheiro da casa de madeira, aliadas à nossa persistência, fizeram névoas tênues escurecerem o papel e afiar navalhas para cortar a consciência daquela mulher. Depois das lágrimas e do soluço curto, um silêncio, na exigência de um inevitável reconhecimento da inutilidade das lembranças, apesar destas serem imensuravelmente belas.

Assim, ao dizer, olhando para trás, fica quase inaudível o que sei dizer.

Amanhã corro o trecho entre Guaíra e Letícia e os quilômetros encomendarão conselhos sobre o ato de viver. Então, refeito de uma mágoa que sempre atrapalhou, hoje vou mandar a carta. Depois de tantas alinhavadas e escondidas na gaveta da escrivaninha, percebi que chegou a hora. Endereço, remeto para qualquer canto e mato Eunice. Ninguém vai descobrir quem foi o responsável por tantas indecisões. Fecho os envelopes, um dentro do outro, do jeito que vi no filme e livro dela a minha solidão.

 

 (*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu. O conto "Tempos de Guerra" foi publicado originalmente na reivsta ETC 4, da Travessa dos Editores.

Leia outro texto de Silvio Campana publicado no site Guatá.



 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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