CRÔNICA
As damas do cemitério
(*)Alexandre Palmar
Encerrada a partida de buraco, elas iniciam os preparativos para o segundo programa da terça-feira, de sol forte em Foz do Iguaçu. Josefa coloca o véu preto sobre a cabeça, Filomena entrelaça o terço na mão, Matilde apanha a Bíblia e Lúcia pega velas brancas. As quatro saem juntas rumo ao mesmo lugar de todas as tardes.
O local escolhido é o Cemitério do Jardim São Paulo --ambiente freqüentado dia e noite por humanos de diferentes tipos. (Lá estão os vivos, os inventores do campo santo, concebido para abrigar restos mortais e para ser um meio lúgubre onde as pessoas possam transformar a saudade em lágrima).
Também no cemitério, mas em outro nível, estão os mortos, cada um com seu tipo de caixão. O indigente, num caixote, sem direito a uma lápide, nem placa de identificação. E, numa área mais reservada, aqueles que trilharam solos freqüentados por poucos até serem eternizados em luxuosos mausoléus.
Entre mortos e vivos, as quatro mulheres, buscando um sentido a mais para suas vidas nos sepultamentos, quando reúnem forças para rezar por desconhecidos, de quem não sabem nem o motivo da morte. Para Josefa, a idealizadora da terapia ocupacional, um enterro, curiosamente, é um bom momento para comprovar a própria existência.
Apesar de atentas ao primeiro funeral do dia, Josefa, Filomena, Matilde e Lúcia percebem o cortejo de uma estudante de sete anos, estuprada e assassinada na periferia iguaçuense. Elas decidem ignoram o vigia morto durante um assalto para acompanhar os pequenos amigos da garota morta a tijoladas. É a primeira vez que abandonam um sepultamento “pela metade”.
“Tão novinha para morrer”, lamenta Josefa, ao ver o rosto desfigurado da menina. A cena choca as senhoras, tanto pela crueldade quanto pela presença de crianças, de semblantes inocentes, tiradas da escola e enfileiradas ao pé da cova para prestarem uma homenagem a mais uma vítima da insegurança de Foz.
Mas o inesperado estaria por vir. A brutalidade do assassinato, o desespero da mãe, o olhar bisbilhoteiro da criançada, a revolta dos parentes e a indiferença do coveiro quebram os corações das mulheres, tão acostumadas com rituais fúnebres. Muito abaladas, decidem: relação com um buraco, agora, só no jogo de baralho. Na pior das hipóteses, como destino final de cada uma.
(*)Alexandre Palmar é jornalista e integra o site Megafone.
Texto publicado na Folha de Londrina em 12 de julho de 2002.
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