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CONTO
Zero a zero
(*)Beth Vilasboas

 

É comum que os relacionamentos amorosos se iniciem com muita graça. São raros, no entanto, os que caminham para o fim, com elegância. Chegado o momento da separação, os amantes acusando-se de infelicidades mútuas, mandam-se para o inferno. Uma vez lá, com as carnes chamuscando, lamentam-se ruidosamente pela falta dos beijos, dos cheiros, dos abraços, aqueles mesmos, que antes não surtiam nenhum efeito poético sobre suas almas saturadas. E, aí, até passar o córneo sofrimento, são porres e micos, muitos e diversificados. Segundo Vinícius, três porres bastariam. No entanto, alguns têm a carne mais fraca do que outros e “garram” beber, beber sem parar e se acostumam com os in-conseqüentes fiascos. Afinal, sob a proteção de Santo Onofre, podem perder a vergonha, sem medo da in-felicidade.
Ela encheu a cara e desamarrou-se. Ligou o número do ex-amor. Deixou tocar duas vezes e desligou: isca. Aguardou com o celular na mão: fisgou! Olhando o mostrador, ensaiou um tom que escondesse o comprometimento de seu estado sóbrio. Impossível:

- Ôoi! – a voz escorrega.
- Oi, oi... – a voz dele demonstra segurança e certa benevolência - Tudo bem?
- Não! – ela responde, displicente e manhosa.
- Não? – ele, fingindo surpresa.
- Não! Estou morrendo... – dramática.
- Ah, fala direito comigo! – fingindo um interesse crescente.
- Estou falando: estou morrendo! – como se nada significasse, nem o fingido interesse dele, que a estava deliciando, nem a dor que a estava verdadeiramente matando.
- Não, não. – ele refutou a idéia. Você não morre!  - Ela quase ouviu um “infelizmente” Você é uma fortaleza, – continuou – você tem sete vidas! – concluiu com muito cinismo.
- Então, estou morrendo uma de minhas vidas... – respondeu, afetando um quase bocejo, como se ignorasse a ironia dele e menosprezasse a verdade que ela mesma proferia. E já, com vivacidade, emendou: E você? Está bem?
- Sim, sim. Só dói quando eu respiro. – ele riu da própria piada.
- Então, pare de respirar! – ela desejou ser sarcástica. – Morra comigo! – pensou chorando. “Mas você não morre... Você é duro José!” – concluiu solitária.
- O quê? – ele não entendera.
- Nada não! – ela voltou ao tom displicente e atropelou as palavras – Bom falar com você. Tchau! – era preciso ser ela a dar a conversa por encerrada, no entanto aguardou a resposta, talvez ele inventasse algo para prolongar o contato... Mas, ele também tinha pressa. Fora pego de surpresa e recuperou-se
- “Tchau! Tchau!” – desligou antes que ela o fizesse.

Ela deixou cair a mão ainda segurando o telefone, deixou cair a máscara, deixou caírem as lágrimas e deixou escapar por seus lábios o lamento de sua alma triste. Quando seus olhos se calaram, tomou o batom vermelho e, no vazio do espelho, marcou o placar.

 

Leia outro conto de Beth Vilasboas, clicando aqui.

 

(*)Beth Vilasboas é formada em Letras. Servidora pública na área de saneamento.

   
 
 
 
 
 
 
 
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