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CONTO
Uma rua no meu tempo
em Foz do Iguaçu

(*)José Vicente Tezza

 

Neste ano eu comemoro quarenta anos de permanência em Foz do Iguaçu. Tempo dedicado às letras em quase duas dezenas de livros literários e em mais de duas centenas de números da histórica revista Painel.
Tempo que traz muitas lembranças, principalmente de uma rua central da cidade: a rua Rio Branco – que começa defronte do quartel da Marinha e termina na avenida Brasil.
Foi nesta pequena rua de três quarteirões que muitos fatos – alguns pitorescos – eu vivi e me transformei num iguaçuense convicto por todos esses anos de plena convivência no seio de um povo amigo por natureza.
Sem obedecer a um cronograma no tempo, digo que foi ali em frente ao antigo Lanches Barril, em concorrida Noite de Autógrafos (na calçada, mesmo!) que em 1982 lancei o livro “Obelisco” e a 2ª edição do “O Diabo de Capanema!, com a presença de amigos e companheiros da imprensa, que lá foram prestigiar os meus trabalhos editoriais.
Nesta mesma rua, no Escritório Contábil Titan, do Sr. Júlio Rocha, por curto período fiz parte do seu quadro funcional, onde aprendi as noções preliminares da profissão que não quis seguir, mas que cheguei a concluir no Curso Técnico, estudando à noite, no Colégio Comercial, anexo ao prédio do Bartolomeu Mitre.
Foi ali, na livraria do simpático Sr. Júlio Piazecki (ele nos deixou em 30 de maio de 1993) que conheci minha companheira e mãe dos meus filhos. Nada mais normal para um poeta encontrar a sua musa num ambiente de livros e revistas, cuja freqüência tem sido uma rotina desde que aprendi a ler e a escrever.
Ali na rua Rio Branco está fincado o primeiro edifício construído na cidade com o nome de Hotel Salvatti, na qual participei de sua inauguração em 1972, como primeiro Chefe do Departamento Pessoal.
Foi entre as paredes de um escritório dessa pioneira edificação vertical iguaçuense, onde eu manuseava papéis contábeis da empresa e dialogava diariamente com os colegas de trabalho Édison Vidal e Saudino Salvatti, que me nasceu a idéia espetacular de lançar um veículo de imprensa. E foi assim que surgiu a revista Painel, com o primeiro número lançado na praça em Março de 1973.
Foi na rua Rio Branco que me servi do modesto estabelecimento da Sra. Porota e da sua cordial atenção, durante um tempo em que ali eu fazia as minhas refeições diárias – com pagamento mensal – e com o sabor caseiro, só comparado ao da minha santa mãe que residia na cidade de Capanema.
Foi também nesta rua que meus filhos tiveram a primeira sensação de assistir a um filme, se encantando com a enorme tela de projeção cinematográfica numa casa de espetáculos, ora em extinção devido a invasão dos sinais da televisão que vicia ao consumo do supérfluo e emburrece as pessoas.
Lembro-me do Banco Auxiliar, cujo prédio já foi demolido, e de seu gerente Tibiriçá Botto Guimarães, quando em 1980 topamos em adquirir as primeiras máquinas tipográficas para a imprimir a revista Painel e nossos livros literários.
Foi na rua Rio Branco, que fui intimado pela primeira vez a comparecer junto à Delegacia de Polícia (hoje demolida e transformada em Praça da Paz – para às moscas, não é ex-prefeito interino Perci Lima?) para esclarecer a um acidente em que me envolvi com o meu fusca e a motocicleta de um filho do ex-prefeito Omar de Oliveira, que tinha na garupa a filha (de nome Rosa, que anos mais tarde (1981) faleceu em acidente de automóvel nas estradas de Curitiba) do engenheiro e ex-pracinha da FEB, Tadeu Gardolinski.
Adivinhe quem eu conheci ali no Escritório Titan e que me ensinou três coisas na vida? O Salvador Ramos! O próprio. Primeiro ele me ensinou a fazer lançamentos e balanços comerciais. Numa noite, em poucas horas de uma noite, ele me ensinou a dirigir uma Kombi (do Hotel das Cataratas, onde eu era funcionário) no trajeto compreendido entre o Colégio Bartolomeu Mitre até as imediações do Hotel Carimã. E com o tempo, aprendi com ele o que é um companheiro “mão-de-vaca”.
Meu único telefone que adquiri (com dinheiro emprestado do amigo fotógrafo Antonio Cantaleano) foi ali no Banestado – o banco do golpe governamental – cujo prédio hoje comporta a repartição da Receita Estadual.
Nesta rua conheci o imigrante japonês Sunao Yamashita (que partiu para sempre em 1987) junto ao seu estabelecimento comercial de secos e molhados.
Nossos encontros ali em frente a porta de sua casa resumia-se da minha passagem para abastecer a dispensa, entregar o último número da revista Painel ou conseguir junto dele um novo contrato publicitário para a mesma.
O encontro ainda era intercalado com um amistoso papo a respeito das palhaçadas políticas locais, da situação da crise nacional, e sobretudo, do saturação dos veículos de comunicação em nosso meio.
Foi na rua Rio Branco que pode acompanhar a apresentação do cantor Roberto Carlos durante um show noturno no Cine Iguaçu (anexo ao Hotel Salvatti) em 1972, e no dia seguinte, tomar conhecimento, quando do seu retorno ao Aeroporto, que o táxi que o transportava se envolveu num grave acidente com um veículo avariado que era rebocado na avenida das Cataratas pelo mecânico e soldado do exército Maceno.
O soldado perdeu a vida e o cantor, com algumas escoriações, seguiu em outro veículo para o Aeroporto.
O último acontecimento que me envolveu na rua Rio Branco foi em dezembro de 1990, quando ali na calçada, na presença de amigos, lancei o histórico livro de letras “Foz e seus Poetas”, obra de fôlego e interessante para estudos escolares no município, pois é uma amostra fiel da evolução literária iguaçuense, contendo em suas 130 páginas, a participação de 50 poetas ocasionais e permanentes, num trabalho por eles desenvolvido em nossa cidade por quase 50 anos.
A boemia e a intelectualidade iguaçuense se reuniam rua Rio Branco.
Para mim, esta rua é meu tempo e vida.

 

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(*)José Vicente Tezza é editor da revista Painel em Foz do Iguaçu. A crônica "Uma rua no meu tempo em Foz do Iguaçu" foi publicada originalmente na revista Painel, em junho de 2007.

   
 
 
 
 
 
 
 
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