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CRÔNICA
Na barbearia do Cabral,
o preço não sobe há seis anos

(*)Alexandre Palmar

A cena tem se repetido há anos. Em dia qualquer do mês, Heitor acorda, escova os dentes, vê sua imagem no espelho e percebe que seus cabelos estão imensos. Ele sustenta aquilo que o povo normalmente chama de “cabelo ruim”: nem escova, nem gel fixador amenizam o crescimento. Experiente, sabe que a única solução é cortar o mal pela raiz.

Sem marcar hora, procura seu barbeiro. Cabral é daqueles profissionais com estilo. Aos 65 anos, ainda pergunta se é para cortar a barba ou cabelo, embora o cliente nem tenha sinais de penugens no rosto. Foi assim quando Heitor estreou no Salão Popular, em Foz do Iguaçu.

Mas atualmente o bate-papo é sobre jogadores de futebol e o presidente da república. A conversa esbarra quando o barbeiro vai cobrar pelo serviço. “São cinco reais, seu moço”, tem repetido Cabral por vários anos. Mesmo intrigado com o congelamento do preço, Heitor paga sem falar nada, afinal se comentar algo, o barbeiro poderá sentir-se livre para aumentar o valor do corte.

A confiança na manutenção é tamanha que Heitor se dá ao luxo de, em dias de aparar a “juba”, apenas garantir a presença de uma nota de cinco reais no bolso.
Nos últimos meses, essa segurança começou a intrigá-lo. Enquanto cortava a cabeleira na semana passada, não agüentou e perguntou ao Ceará (sempre o tratou pelo apelido), sobre a façanha. “Como o senhor pode manter o mesmo preço do corte há tanto tempo, com essa inflação mascarada?”, indagou o rapaz.

“Seu moço, é fácil explicar. Já perdi mercado para esses salões que cobram R$ 1,99 pelo corte, mas têm lucro em outros serviços. Não posso competir com eles. Se aumentar o preço, corro o risco de perder clientes. Estou com esse preço vai completar seis anos e vou continuar nessa. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, brincou Ceará.

Após pagar a conta, o cliente saiu tranqüilo do salão, com a certeza de que pelo menos no próximo mês poderá levar apenas uma nota no bolso parar o corte de cabelo. Agora, Heitor sabe que seu barbeiro não muda de opinião de uma hora para outra, como os políticos que passam da esquerda para direita, traindo seus eleitores.

(*) Alexandre Palmar é jornalista e integra o MEGAFONE. Publicado no jornal "Folha de Londrina", em 20 de abril de 2001.

   
 
 
 
 
 
 
 
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