(*)Ronaldo Correia de Brito
Os jornalistas submetem os vencedores do prêmio literário Portugal Telecom a um verdadeiro interrogatório para saber o que eles farão com o dinheiro ganho. A fortuna consiste em cem mil reais para o primeiro lugar, trinta para o segundo e vinte para o terceiro. Ou já aumentou? Comparados aos milhões pagos a jogadores de futebol e pilotos da Fórmula 1, os prêmios literários parecem esmolas. Atestam o desprestígio da literatura, e que nada mudou para os artistas desde a Antiguidade Clássica, a não ser para uns poucos que escrevem como desportistas.
Não pensem que na Grécia a situação era melhor. Nos concursos, os atletas recebiam mais odres de vinhos e potes de azeite por suas façanhas, do que os poetas pelas comédias e tragédias. A Idade Moderna agravou a marginalidade dos artistas que escolheram pela dissidência do mundo burguês. Octávio Paz escreveu que "a poesia é um alimento que a burguesia - como classe - tem sido incapaz de digerir e que por esse motivo uma vez ou outra ela tentou domesticá-la".
Rimbaud e Van Gogh preferiram maldição e loucura, a comerem as migalhas da mesa dos poderosos. Nunca cederam às academias nem à fama ilusória. Os autores de livros de auto-ajuda e romances degustáveis negociam a alma com o diabo para se manterem na lista dos mais vendidos.
Há um ponto em que se confundem corridas de carro, futebol, desfiles de moda, filmes, shows de rock, literatura best seller, tênis e basquetebol: o desejo de sucesso e lucro financeiro. O tenista Roger Federer afirmou numa entrevista: "Adoro carros esportivos e me ligo cada vez mais em roupas de marca. Só viajo de primeira classe. Ter dinheiro faz com que a vida seja muito mais fácil". Sem dúvida, é bem melhor viver com dinheiro. Mas é justo pagar-se tanto a quem desenvolveu apenas habilidades técnicas?
Qual o legado dos desportistas olímpicos? O que significam os centímetros a mais nos cem metros rasos, conquistados por um atleta? Foi através do esforço muscular de homens e mulheres, muitas vezes favorecidos por anabolizantes, que avançamos na hierarquia animal e nos diferenciamos do macaco?
A filosofia, a literatura, a música e a ciência são legados de pessoas que não temeram ir de encontro ao seu tempo, às idéias cristalizadas, às verdades proclamadas como absolutas, enfrentando a morte, a miséria e o exílio. O exemplo de Giordano Bruno, que preferiu ser queimado na fogueira a aceitar a afirmação de que a Terra era o centro do Universo, é obsoleto para o nosso tempo de verdades elásticas e relativas.
Não se admirem dos minguados reais pagos aos escritores, nos prêmios literários. É o que acham que eles valem, embora os envolvam numa nuvem de glamour. O poeta aspira ao reconhecimento, vive no exílio de sua liberdade, a serviço da criação. Seu trabalho não é valorizado e poucos sobrevivem dele. Para não morrer de fome ele busca outras ocupações, algumas delas infamantes.
Não me comove a morte de um jovem corredor de carro. Ele busca o risco e faz do convívio com a morte a razão de viver. É aclamado, conhece a fama, acumula dinheiro. Comove-me o solitário exercício do criador, seu esforço para arrancar do vazio as notas de uma música de Bach, os versos de Whitman, as cores de Monet, os movimentos de Marta Graham, o Davi de Michelangelo.
Escuto os jornalistas se referirem a Beethoven e Ayrton Senna com o mesmo adjetivo "gênio". Creio que em algum espaço que separa a sublimidade da arte e a busca de superação do corpo pelo esporte os gênios se confundem, quebrando-se as fronteiras estabelecidas pelos pensadores e filósofos. Neste caso, a dança se aproxima da ginástica, e o esforço de concentração de um atleta tem a mesma medida do arrebatamento de um bailarino ou de um músico.
O que há de comum entre o atleta e o artista? Qual dos dois transcende a si mesmo, indo além do macaco treinado para equilibrar-se sobre cordas? Há semelhanças e diferenças, imperceptíveis para a massa e seus manipuladores. Muitas vezes eles se tornam iguais na aparência, quando são transformados em meros servidores pagos da propaganda, seja do capitalismo privado ou do Estado.
(*)Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu "Faca" e "Livro dos Homens". Texto publicado originalmente no site Magazine Terra.
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