-
-
-
-
-
---
-
Voltar à página principal
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------




CRÔNICA
Greve das Musas

(*)Chico de Alencar

Um poeta restrito a si mesmo. É o que sempre fui. Versos mal rimados, mudos e, impotentes para gritar o amor, a paz e a harmonia. Teimoso, mesmo assim, insisti em riscar por aí - naareia, nos troncos das árvores, em folhas avulsas, em todos os espaços - a vontade louca de querer o bem.

Veio sempre a maré, o outono e o vento e apagaram a mensagem, que pouco importa, ninguém leu também. Poeta de si mesmo é assim. São trovas tolas, repetentes, dizem de sonhos que não viram, falam de paixões inexistentes.

Ah! Mas eu sempre quis ser da vida, o beija-flor insaciável e a flor sugada.

Colher e palpar da vida as sutilezas, o perfume, a cor.

Sublimar o amor a todos os seres, adorá-los grandes e respeitá-los pequenos.

E os primeiros anos aconteceram na herança de meus queridos pais, cercados de bem querer. A escola chegou, a bicicleta, o primeiro cigarro... O mundo foi se pintando de feio, as notícias falando de guerras e os sinos repicando a morte. Ser soldado ou poeta?

Os exércitos armados desfilando nas ruas, tolos e cadentes, "marchando pela paz". Eram jovens incautos, puros e crentes. Nas páginas do mundo, as manchetes do poder. As lutas pelo ouro, pelo petróleo, pelas terras. As trincheiras armadas contra irmãos de outra cor. Da mesma cor.

Era assim, tinha que ser assim... Os velhos mandaram! Ah, os velhos! A sabedoria da vida, acumulada, produzida, disposta. Era só colher. Colher dos conselhos, o partido certo, a religião perfeita, o caminho dos céus... A verdade que aprenderam com os mais velhos ainda, a direção que os antigos pautaram. Era seguir, ou errar.

Começara a rebeldia. Poeta, ou soldado?

- Soldado! - grita o demônio, no peito em fogo.

- Poeta! - chora o anjo, na última esperança.

- Soldado! - ordena o governo.

- Poeta! - desarma a criança.

A dualidade já existe em mim. O bem e o mal. O certo e o errado. O querer e o não querer. Surge a primeira taça. Ela amarga no início, desinibe no meio e faz chorar no final. Pouco importa: ela é fuga e leva para longe os desenganos, a dor, a tristeza. As garrafas se sucedem, as noites se esticam, as madrugadas são longas e a depressão é letal. Não são mais largos os caminhos, agora. Estreitos, espinhosos e pedras. Começa o aprendizado. A verdade tem hora.

A vida é uma droga. A fuga é mais rápida, o sono e o sonho não vão acabar. A droga é a vida. A mente embolada, os olhos embaraçados só fazem esquecer.O risco é fácil. O sexo loucura. É gostoso viver, gargalhar, fingir que não vê.

Ma é preciso fugir. Não há mais tempo e insistir é morrer. Não há mais forças, porém. A prece da mãe, o medo do pai, o desdém do amigo. São trevas, são pesadelos, é o terror e o descaminho. Os olhos no fundo, é tarde... demais.

Ah, mas quem diria! Loucos, cantadores e poetas não foram feitos só para sofrer. Quem seriam os filhos dos deuses? Os cantadores, os poetas e os loucos, ou seriam os guerreiros, os desamantes?

E uma musa surgiu no meu caminho.

Seu rosto era de uma criança e o corpo de uma linda mulher. Ela - ainda por cima - se chamava Maria. Era meiga, sorria com a luz dos olhos e me chamou de "meu bem". No começo eu sorri, havia um túnel, havia uma luz. Depois me escondi. O medo de fazê-la sofrer me assustou muito mais do que a perspectiva do meu próprio sofrimento.

Teimosa, entretanto, Maria sorria e me fazia sorrir. Corria aos meus olhos, como quem fugia, mas esperava e abria seus braços para mim. O sonho não havia findado e eu mal podia crer. As flores se abriam por onde ela passava e o vento maroto brincava em seu peito, jogando seus cabelos morenos para trás.

No mato revolto, meu corpo lascivo e o seu, louco e solto. Braços abertos acolhiam a paixão, nos olhos brilhavam o amor e a paz. As noites agora sorriam em ternas serenatas. Não havia mais medo nem vazio nas horas a dois. Na simbiose mágica da vida, nossos corpos se fundiram. Um após o outro, três filhotes estufaram seu ventre e brotaram para a vida, também.

A musa de meus eternos sonhos aparecera. A poesia estava de volta. Adeus as escuro medo, ao túnel negro e sem lugar nenhum. Nunca mais as noites insólitas, a busca vazia. Nunca mais o desamor, a incerteza, a solidão. Um horizonte novo, o calor humano, o afeto, a família.

Um poeta encontra sua musa e põe-se a pensar: que tal se um dia as musas todas fizessem greve... Os pintores, os músicos e os cantadores emudecidos. Os escultores, os compositores, os dançarinos, desamados e desamantes... Os pacifistas, os humanistas, os filósofos e os gênios do bem... Todos, pobrezinhos, sem suas musas!

Não, não, não... Esta é a poesia que não quero escrever jamais!

(*)Chico de Alencar é jornalista em Foz do Iguaçu. A crônica "Greve das Musas" faz parte do livro "Crônicas do paraíso", editado pelo autor no ano de 2008.

   
 
 
 
 
 
 
 
Copyright © 2007 guata.com.br - Todos os direitos são reservados.