-
-
-
-
-
---
-
Voltar à página principal
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------




CRÔNICA
Será que vai dar?

(*)Juvêncio Mazzarollo

Recentemente, o diretor geral da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), o japonês Koichiro Matsuura, publicou artigo intitulado “Pode a humanidade ainda ser salva?”. O título é eloqüente, assustador e desafiador. Nem precisa de resposta para causar perplexidade e preocupação. O simples fato de a pergunta ser pertinente dá a dimensão do perigo que ronda a humanidade e do desafio que se coloca para ela, para nós, pois sim..

Aquele “ainda” da pergunta incomoda. O advérbio denota que a perdição da humanidade está próxima ou já ultrapassou o point of no return (o ponto de onde não há retorno). Chama atenção para uma dura realidade: apesar de todos os estragos já feitos no planeta, será a manutenção da vida possível? Já não se foi longe demais?

A resposta pode ser “Sim, a humanidade ainda pode ser salva”, mas pode ser também “Não, a humanidade não pode mais ser salva”. Qual, afinal, a resposta de Matsuura?

Enquanto lia o texto do sábio japonês, até certa altura tive uma sensação de otimismo, na medida em que ele ia mostrando que “a humanidade pode, sim, ainda ser salva”. Porém, à medida que fui chegando ao final da leitura, meu otimismo foi murchando até se esvaziar quase por completo. O que me fez afundar nesse estado depressivo foram as condições apontadas pelo autor do artigo para que a resposta positiva seja adequada.

“Precisamos de mais conhecimento, mais contenção, menos matéria, mudança de atitudes, mais concretude e mais ética e política” – essa, em síntese, a fórmula que Matsuura oferece para que a humanidade possa ainda ser salva.

Entretanto, caso se tenha realmente passado do pont of no return, mesmo que a fórmula seja efetivamente implementada, não haverá salvação, apenas retardamento do fim. Mas admita-se que ainda não chegamos ao fatídico point e que as chances de salvação sejam reais. Nesse caso, o que perturba é saber da pequena, quase nenhuma possibilidade que se vislumbra de que haja vontade e capacidade humanas de promover a profunda mudança nos seus modos de viver e tratar o planeta que lhe dá vida.

O grande passo a dar é reduzir drástica e urgentemente a pressão da humanidade sobre os recursos naturais, mas o que acontece é que a pressão só aumenta, sem que haja um indicativo de uma reversão nesse processo suicida, nesse avanço rumo ao precipício. O desmatamento zero, por exemplo, deveria ser compromisso mundial, país por país – e já. Mas cadê? A motosserra fala mais alto.

A civilização científico-tecnológico-capitalista criou coisas demais, muitas desnecessárias, mas que se tornaram indispensáveis. E agora, como provê-las? Ou dispensá-las para sempre? Será possível extinguir o automóvel? Mais: há bocas demais, gente demais no mundo. Tudo está ultrapassando os limites do que a Terra dispõe e do que a humanidade precisa tirar dela.

Quando Deus ordenou aos humanos “crescei e multiplicai-vos”, esqueceu de recomendar: “Não pensem, porém, que a Terra é fonte infinita e inesgotável de recursos.” Sem levar isso em conta, a humanidade está em 6,5 bilhões de indivíduos, quando a Terra comporta cerca da metade disso.

Aí está, pois, aquele que talvez seja o maior erro estratégico da humanidade em toda sua trajetória: a incapacidade de planejar o povoamento e a exploração do planeta respeitando seus limites.

(*)Juvêncio Mazzarollo é jornalista ambiental em Foz do Iguaçu. (j.mazzarollo@uol.com.br)

   
 
 
 
 
 
 
 
Copyright © 2007 guata.com.br - Todos os direitos são reservados.