(*)Toninho Villasboas
Estava eu no primeiro ano na escola Antônio Moraes de Barros. Tinha sete aninhos já, e era o filho mais velho. A Professora, Dona Terezinha Montanhar, motivou a turma: mês de maio, mês das flores, mês de Maria, nenhuma mãe vai ficar sem seu presente. Cada um de nós recebeu até uma poesia pra decorar e declamar na ocasião. Morávamos numa meia-água, lá na Vila São João, parede-meia com os tios baianos. Meu pai, paulista de Lins, um roceiro na cidade, não tinha emprego fixo no momento. Era bóia-fria, mas naquele tempo este termo não era usado ainda, não em Arapongas. Pegava empreitas, se dizia. O dinheiro era pouco, só dava pras compras mais urgentes da semana: arroz, feijão, óleo, açúcar, meio quilo de carne seca - a charque – sabão em pedra... Mas chegou o domingo especial...
Eu, desde o dia anterior, falava sem parar pra pais e tios e pra quem quisesse escutar que eu precisava dar um presente à minha "mamãe". E ninguém se mexia. E ninguém se mexeu mesmo, credo, mas eu não desesperei... Quando deu lá pelas dez e meia da manhã, meu pai voltou da feira e do saco branco encardido foi tirando, coitado, com cerimônia só aquelas comprinhas michas... Ai!
- Pai... - eu o encarei aflito - e cadê o presente de mĩa mãe?
- Quê? Ah, num deu, meu fio! Três contos, não deu nem pru cheiro! Num vê que nem bala-doce pros cêis eu truxe?
Ah! Mas eu virei um bicho! Fechei a cara; que todos notassem que o mar não tava pra peixe... Ninguém notou. Garrei zanzar pelos cantos da casa; não quis comer. Depois saí pro quintal num desassossego que só. Que ressentimento! Esses cão não entende que hoje é o dia das mães! Foi tia Moça que, na janela, coçando o pixaim, deu o alerta:
- Maria..., vai lá ver seu filho; tá lá atrais do mitório, num pranto de choro!
Houve uma falação... Tia Branca, sem desgrudar das panelas fumegantes e dos seus trens bem areados, ao escutar “presente”, estrila:
- Presente? E sem soltar a colherona melada, põe as mãos nas cadeiras... Desdenhando aquela criancice, mania de gente rica, pela janela, por sobre o jirau, dispara:
- Isso é birra, seu cara-de-narrau!
Mas Tia Lu, (saberia ela quem era esse tal Narrau?) dando a última laçada no crochê que tricotava, indignou-se e interferiu:
- Ora... eu fico é desdignada... Criança é gente, ôs minina, e tem coração!
Maĩa então dispôs que Seu Zezĩo voltasse à feira com u mininu, tava na cara que aquilo era as lumbriga - um pirigo! - e que comprasse pois, nem que fosse uma bobaginha.
- Veste a camisa, fílio, e vai com seu pai - organizou a mãe.
Fungando, seu José aceitou de má vontade. Muleque pirracento! Agora deu pra fazer dessas birras. Vote! Uma tia providenciou 200 cruzeiros, e agora eu lembro, foi a própria Tia Branca. Ah, já tá melhorando, pensei. Tomei ar e empinei o narizinho. Tomamos café, bom, quem tomou foi meu pai que fez a sua boquinha, pegando um torremo sargado, depois acendeu um cigarro, ufa! mas fomos. Um quilômetro mais pra arriba, demos com a gentarada, passeando naquele alvoroço. A feira era em frente ao Grupão. Vai daqui, vai dali, os preços horrivis, de tão altos. Deu mei-dia e já estavam desmontando as barracas; era fim de feira.
- Apura, meu fio, senão acaba o movimento, sô!
E caça e escolhe; esse não; talvez aquele ali, ó; mas não; que preço, viche! Volta e remexe nas bancas e caixotes. O pai cumprimentando os mil conhecidos, todo constrangido explica aos feirantes a nova mania do menino... Dei finalmente com um vaso de plástico verde-leitoso. Ergui e girei contra o sol pra vê-lo bem. Tinha linhas decorativas gregas que o circundavam em cima e em baixo. O preço não era lá grandes coisas. No bojo dele havia uma representação de uva em baixo-relevo: sim, era um cacho de uvas, com duas folhas ali, dos lados, o galhinho lascado, assim, em cima e o raminho típico enrolado... As uvas tavam pintadas de branco, roxo e amarelo, e as folhas graúdas eram de um azul esmaecido. Coisa mais linda! O material em si era tão leve que compreendi: por isso é que tinham posto um pouco de cimento no fundo... pra equilibrar... Ai, ficaria tão bonito na mesa da sala! Mas, como sala no puxado não havia, seria na da cozinha mesmo, nas tardes, depois de lavadas as louças, com algumas flores dentro.
- Apura, minino!
- Paga, pai!
Voltamos. Eu, radiante, não via a hora de chegar. E já chegando, corri na frente e chamei todo mundo.
- Mãe!
- Já vô, deixa eu pentiá!
Ela veio lustrosa; desamarrei o embrulho de jornal, jogando o barbante duro prum lado; entreguei o é-pra-senhora-no-seu-dia-mãe e recitei, claro, a po-e-si-a que nem lembro mais qual foi. As tias aplaudiram e riram, gostoso. Minha mãe..., ai, a minha mãe, no seu vestido incendiado de cores quentes, me abraçou com cheiro bom de sabonete palmolive, que contém lanolina, e me beijou. Meu pai sentado na cama, tirando o sapatão apertado, uma pedrinha, suspirou que com essas modas, tão sem-jeito, que a escola incutia nas crianças:
- Hum, num sei, não! Eu num sei como é que eu vou triminá!
Mas Dona Maria elogiou o menino gentil e lhe desejou boa sorte:
- Deus que le dê virrtude, meu fili-o!
A tia Lu fez que ia como as outras, mas não... Abeirou foi mais, sorrateira. Precisava participar de tanto êxito, pois, afinal, na casa de sua patroa, Dona Alcione, também professora, se fazia o mesmo. ‘Péra lá! Disse de repente e passando a mão numa tesoura usada, foi lá pra a frente da casa, perto do alpendre cercado de balaústras trançadas e cortou três dálias pom-pom, cor de groselha, e uma mista, de cores vermelho e branco, que ela tinha regado de propósito com água-de-carne pra conseguir aquela inusual combinação... Deixou os talos compridos, pois o vaso era fundo e pôs agüinha fresca... Pronto!
Depois do almoço, correndo desembestado, como sempre, eu entrava e saía, pra ver e rever aquela mesa coberta com uma humilde toalha e o vaso de minha mãe bem no centro. A mesa nunca esteve mais bonita. Nossa casa agora sabia que era mesmo um “Dia das Mães”!
Foi assim que eu cumpri pela primeira vez com o meu dever de filio, azucrinando a familia inteira, no primeiro dia das mães de que eu tenho notícia, quando corria o ano de 1965!
(*) Toninho Villasboas é brasileiro e mora em Veneza, na Itália.
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