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Eu e o Cão

(*) Carina Paccola

Quando avistei o pastor alemão uns metros à minha frente, diminuí o ritmo da caminhada e pensei em como fazer para me desviar do cão. Não foi preciso. Ele quis desviar antes de mim. E começou a atravessar a rua. Uma rua movimentada.

O sinal estava fechado; os carros reduziram a velocidade e esperaram o cachorro passar. Aí eu vi que seus passos eram trôpegos. Dava a impressão de que as duas patas traseiras estavam vacilantes e que ele não agüentaria ir em frente. Alcançou a outra calçada e parou. Sentou-se.

Eu não conseguia tirar mais meus olhos dele. A sensação de medo transformou-se em comoção. Fiquei comovida com aquele cachorro. Um homem começou a conversar com ele. Eu fiquei estática.

É como se aquele cão representasse a fragilidade humana. Um pastor alemão: uma raça forte, que inspira medo, agora não inspirava mais do que piedade. E os meus olhos se encheram de água.

Eu me via naquele cão. Ali estava o sinal da deterioração inexorável. O tempo se encarregará de nos transformar em seres trôpegos, vacilantes, que vão despertar piedade e comoção.

Carina Paccola é jornalista em Londrina, Paraná.

http://cpaccola.blogspot.com/

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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