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Jão em: o luxo e o lixo

(*) Lizal

Jão pega seu carrinho de catar papelão e outros materiais recicláveis e sai na luta diária em busca do pão. Caminha até o centro da cidade. O calor é insuportável, mas ele resiste firmemente, tomando da água já quente que leva em uma garrafa descartável.

Ele pára em frente a um hotel, observa e depois entra com seu carrinho no pátio. Em um dos cantos do muro havia uma montanha de lixo de materiais de construção, provenientes de uma reforma que estavam fazendo em alguns cômodos do hotel. Junto ao lixo estavam latas, garrafas e outros materiais de interesse de Jão. Começou então a recolher e a jogar dentro de seu carrinho. O dono do hotel presenciou a cena e foi ao seu encontro dizendo:

- Sai já daqui, seu lixeiro. É proibida a entrada de mendigos e lixeiros.

- Eu não sou lixeiro, trabalho na melhoria do meio ambiente, disse Jão, todo orgulhoso.

O dono do hotel soltou uma gargalhada satírica e disse com tom de deboche:

- Não tá parecendo; pra mim você é um mendigo, um lixeiro...

- O senhor está enganado.

- Me explique então.

- Retirando o lixo do seu pátio, estou evitando que venha a se proliferar animais peçonhentos; baratas, escorpiões, ratos; e até o mosquito da dengue.

O dono do hotel riu da cara de Jão e disse em seguida:

- Você é pior que os animais peçonhentos; você é um mendigo, sujo; você me envergonha, espanta meus clientes. Vai saindo, se não eu chamo a polícia.

Após dizer isso, caminhou para dentro do hotel. Jão continuou ali e após juntar tudo o que lhe interessava parou na porta do hotel e ficou observando os clientes almoçarem. O dono se zangou e correu até a porta gritando:

- Some daqui agora, seu lixo!!! Ou vou chamar a polícia.

Jão apenas sorriu, deixando o homem confuso.

- Agora você vai me escutar. – disse Jão, olhando fixamente nos olhos do homem, que desviou o olhar.

- O lixo pode ser luxo e o luxo pode ser lixo; tudo depende da situação e do ponto de vista. O senhor olha pro lixo e só vê a sujeira, a podridão. Eu olho pro lixo e enxergo o luxo, pois vejo o meu ganha pão, o material escolar de meu filho e o presente de minha mulher. O senhor olha-se no espelho e vê o luxo; vê uma pessoa bem sucedida, um empresário com vários funcionários, mansão, carros. E eu olho pro senhor e vejo o lixo, por causa da sua atitude, arrogância e incompreensão.

Após dizer isso e deixar o dono do hotel com a cara no chão, Jão saiu com seu carrinho de dentro do pátio e seguiu seu caminho.

(*) Lizal é ativista do movimento Hip Hop, editor do fanzine "Cartel do Rap", em Foz do Iguaçu. lizal_u1000di@hotmail.com

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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