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O reflexo

(*)Roger Domenech Colacios

Limpando o espelho embaçado com uma velha toalha de rosto pude admirar meu reflexo, e me vendo com olhos brilhantes, vi minhas versões, poética, ilusória e mesmo a mais escondida de todas, a heróica. Poética, pois o brilho no olhar era de paixão, uma paixão que somente a sensibilidade da arte e da vida contemplativa poderia dar aos meus olhos brilhantes. Ilusória porque meu lado racional ainda ativo sabia que aquele não era eu, nem mesmo um reflexo, mas somente o que meus olhos apaixonados queriam ver, e que ainda assim continuava a me iludir. Heróica, pela coragem de confundir minha própria perspectiva sobre mim, seja pela aparência que me agradava em olhar ou pela alegria que sentia em ver aqueles olhos brilhando demonstrando paixão por mim. Talvez o que sentia fosse um narcisismo exacerbado e sem nenhum pudor, me amava como nunca havia me amado, aquele banho que acabara de tomar, representava uma mudança, que o espelho e o reflexo agora me confirmavam. O reflexo persistia em me olhar, cada vez mais brilhante, mais vivo, até mais vivo que eu, sua alma era nítida, sem contrastes e com cores que realçavam a energia que emitia para mim. Certamente algo novo havia surgido neste momento, um novo reflexo de um rosto envelhecido pela vida tortuosa, será que era um recado para me redimir dos pecados? Um aviso de que um horizonte inédito se abria para mim? Ou que eu estava no fim e que o reflexo significava um passado que se despedia para sempre? Talvez sem querer pensar numa resposta e encontrar uma verdade que me afligiria, resolvi aceitar como todas sendo afirmativas, se fosse necessário implorar por perdão e deixar que minha consciência passasse a me esmagar a cada ato, eu me entregaria a este fado. Se, no entanto, fosse preciso olhar ao longe e ver que o mundo não se resumia a pequenez da minha vida, mas que poderia caminhar sobre pedras e espinhos sem temer a dor e a desilusão, eu me entregaria. Mas se tudo isto significava que o fim estava próximo, que seja! Aceito o juízo final e encaro a morte com sua foice a me levar para o destino eterno. O que você quer de mim? O que você significa? Atormenta-me agora com seus olhos brilhantes, posso facilmente passar de amor ao ódio, estou me sentindo um animal acuado por seus predadores, porém, no caso o predador sou eu mesmo. Sem nem mesmo perceber já trato meu reflexo como inimigo, uma coisa intimidadora, um ser vivo, um espírito demoníaco que veio me assombrar. Com uma fé que nunca tive antes, rezei, e rezando sentia as lágrimas caírem dos olhos do reflexo, meu rosto estava seco, nem uma gota de alma rolava sobre minha pele carcomida pelo tempo. Parecia, ou quem sabe fosse, a mais pura verdade, quem tinha alma era o outro, aquele do espelho, eu era um saco vazio, uma cópia mal feita de ser vivente, de ser pensante, era o verdadeiro reflexo...

(*)Historiador e mestrando em História Social pela FFLCH/USP.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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