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OPINIÃO

Estrangeiros da Terra do Nunca

Caos social oculta brilho da tocha em Foz do Iguaçu

* Alexandre Palmar

O cotidiano iguaçuense tem revelado a distância entre os nossos governantes e as prioridades do povo. A demonstração mais recente do abismo ocorreu nos últimos dias, atingindo o auge no fim de semana. Enquanto meia dúzia de políticos acertava quem posaria para a foto segurando a Tocha do Pan, outro fogo transformava a cidade num caldeirão .

Apareceram bem na fotografia o prefeito Paulo Mac Donald Ghisi (PDT); o presidente da Câmara Municipal, Carlos Juliano Budel (PSDB); o secretário municipal de Esportes, Emerson Wagner; secretário municipal de Planejamento, Wádis Vitório Benvenutti. Todos com trajes esportivos. Todos fazendo algo pelo povo, em nome do povo.

(...)

É compreensível o interesse deles pela chama, afinal ecoar a “mensagem de paz” tem sua importância. Vai saber porque outros políticos não fizeram o mesmo no fim de semana. Talvez o governador Roberto Requião (PMDB), o secretário estadual de Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, os “nossos” três deputados estaduais e vereadores, entre outras autoridades, tenham faltado à festa por falta de convite ou por desinteresse mesmo.

Prefiro imaginá-los defronte para os fatos divulgados pela imprensa. Vejamos recente matéria de terça-feira: “ Fim de semana terminou com dez assassinatos em Foz ” — entre eles o caso de um adolescente de 12 anos matando a tiros uma garota de 11 anos (seria namorada dele) no Jardim São Paulo; chacina de quatro homens no Porto Meira; assalto seguido de homicídio de rapaz no centro.

O noticiário da semana passada, aliás, foi uma síntese da onda de violência registrada no município há tempos: estudantes mortos em frente aos colégios, além dos ditos “acertos de conta”. Ah, como é fácil atribuir toda a onda violência à “guerra entre gangues” e eximir-se da culpa levantando supostos antecedentes criminais das vítimas: “Aquele era bandido”. Excelência, cuidado! É raro o integrante da categoria com ficha corrida limpa.

Quem vive nesta cidade ou acompanha as notícias ainda vai lembrar-se de outras crueldades cometidas nos últimos dias fora os crimes fatais: machadada em cabeça de uma criança de apenas duas semanas, estupro de criança de um ano, bala perdida, espancamentos, tortura. A lista, enorme, inclui o crime contra o direito de estudar. Sim, porque hoje muitos jovens pensam duas vezes antes de ir pra escola, principalmente à noite.

Buscar entender a carnificina nos obriga a ir além da repetição por décadas de discurso pronto, como este: “Existe a realidade social, a ausência de oportunidade, a proximidade ao Paraguai, a facilidade com o tráfico de substâncias entorpecentes, brigas. São os maiores fatores que acabam gerando esses crimes contra a vida”, argumentou o titular da Delegacia de Homicídios, Renato Coelho de Jesus, ao Paraná TV /Globo . Conte uma novidade, doutor, porque já vi essa teoria no jornal Nosso Tempo , em 1984.

Algumas dessas frases de efeito mais antigas viraram pérolas. Roberto Requião prometeu “transformar Foz do Iguaçu na cidade mais segura do Brasil”. No mesmo nível está o compromisso do candidato Paulo Mac Donald Ghisi: se eleito assumiria a responsabilidade da segurança no município, já que tal obrigação era renegada pelo governo estadual — do mesmo partido do prefeito do candidato Sâmis da Silva (PMDB), que, apesar da condição de prefeito, também prometia uma cidade mais segura.

Tanto um quanto outro diz dedicar atenção especial aos iguaçuenses, injetando milhões de reais em obras e mais obras, firmando convênios, promovendo audiências, aplicando em programas sociais, na distribuição de renda, e o escambau a quatro. Tudo isso para evitar a degradação humana, impedir que adolescentes entrem para o mundo do crime. Desnecessário aprofundar em torno do título: Foz campeã nacional de assassinatos de jovens.

Seus esforços parecem ser inócuos, como nossa reação. Em qualquer sociedade os disparates reducionistas seriam rejeitados na mesma moeda. Ninguém pode dizer “que a periferia está se matando”, como se a periferia fosse em Marte e marcianos não sentissem dor pela morte. É injusto dizer que na maioria dos 328 assassinatos do ano passado e nos 160 deste morreram bandidos, assim como é irracional dizer que “bandido bom é bandido morto”. Afinal, é dever do Estado evitar, em todas as instâncias, a formação de “bandidos” e a ocorrência de mortes, de quem quer seja. A justiça deve prevalecer em todas as circunstâncias.

Frutífero seria, para entender a cabeça das autoridades, utilizar dois instrumentos de orgulho dos nossos governantes: a “Escolhinha” do Requião e a “Cidade Digital” de Mac Donald. Poderíamos reunir numa sala de aula aqui de Foz todos os eleitos pelo povo, todos os detentores de cargos públicos, enfim, todos os emissários do governo Lula ligados a cidade, todos os representantes do governo estadual e municipal.

Mas isso quando a rede municipal de ensino abrigar computadores com acesso ao Google Earth. O passo seguinte seria cada um deles usar o programa que permite ver imagens de satélite para mostrar em qual mundo vive. De forma lúdica, sem constrangimento. Confirmadas as coordenadas geográficas, descartamos quem confirmar que mora fora da Terra. Refeita a chamada, começa o debate sobre a violência na fronteira.

 

(*) Alexandre Palmar é jornalista, editor do site Megafone, em Foz do Iguaçu

 

 
 

 

 

 
 
 
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