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Candidato

(*) Silvio Campana

Num sorriso amarelo pagou o dono do boteco e voltou para a rua.
Martin, pega o carro... Essa gente ingrata ainda me paga!
No rádio do carro nada do nome.
Lista oficiosa, é claro. Mas voto que é bom, sumiu. Pensou, acendendo o cigarro.
E todo aquele trabalho lá, nas bandas de Califórnia, Paranacity e Colorado?
O chapéu novo de vaqueiro na mão ia formando um mapa, falso, como nos filmes de mocinho e bandido.
Hein, seu Martin?!
O olho arregalado, a boca calada. O auxiliar não deu nem um pio.
Da sala, cheiraram o quente da fritura. E a cozinheira veio trazendo o rádio de pilha na mão enquanto adiantava a notícia: Doutor, têm uns que já estão eleitos e o senhor, até agora, nada...

O rosto do candidato fechou mais ainda. O nariz abriu duas ventosas e o estômago acusou banana frita no óleo queimado.
É só projeção ainda. Não liga, não, seu Rubens.
Esse pessoal que tá na frente é tudo picareta, Martin. Tudo papagaio de pirata, isso sim. Nunca deixaram uma beira no palanque. Lembra, em Maringá? Foi só o governador subir, que os cornos ficaram se segurando nele. Uma vergonha!

Acho que dói o orgulho dele . Martin sentou e pensou. Depois, pensou melhor. Acho que dói mais é o bolso dele .

Gente safada também aqueles teus amigos, viu? Só queriam dançar com a mulherada, campanha mesmo nunca aconteceu... A boca lambuzada pela terceira banana.
...Um dia ainda precisam e aí vai ser um toma no cú, com todas as letras. Desculpe dona Leonora, mas é que traição assim é coisa que magoa a gente!
Eu entendo, doutor.

Um suspiro saiu lá do fundo:
Sabe, o mundo dá tantas voltas, mas a gente não esquece ingratidão.
O auxiliar concordou; a cabeça pra cima e pra baixo, tentando sentir a guilhotina.

E a Marisa?
Viajou hoje de manhã pra casa de sua sogra, seu Rubens. Só ficou a Marilda.
Martin sentou com o rádio no colo, querendo ouvir alguma chance.
Aumenta o volume aí... A voz afônica gritou lá, do final do corredor.
Se o senhor quiser, eu busco pilha nova.

... Mercados Correia, informam no calor das apurações...

O auxiliar fechou a cara com o terceiro protesto do chefe.
Dessa vez até comunista na lista. Depois o povo não sabe nem em quem votou. É bom pra eles aprenderem. Eles gostam, Martin. Você vai ver, não dá dois meses e todos entregam o rabo. Que compromissos, que nada. Viram tudo por dinheiro, cargo. Prostitutas, dessas bem depravadas, fazendo discurso contra a gente, mas gostando do bem bom. O resto, oh, eles deixam em casa.

O ressentimento pulou no copo em duas pedras de gelo explodindo o Ballantine´s paraguaio.
E você, não vai beber?

A filha entrou na sala e cortou a resposta.
Pai, larga esse rádio senão você adoece. Não é, Martin?
O safado concordou como um genro, em silêncio, medindo o contorno das pernas bonitas na calça capri.

Merda, Martin. Tá vendo? Votar que é bom, não soube, dizendo que perdeu a chance de tirar o título. Culpa da mãe que não exigiu.


O ar carregado arregalando os olhos do auxiliar. (Esse cara vai ter um troço).
Na parede da sala, deu de cheio com o diploma de Direito do quase sogro. Olhou com desprezo o nome da escola do interior paulista. (Assim até eu, pagando, eles mandam por correspondência).

Tá escutando? Porecatu, Bela Vista... – a mesma ladainha arreganhou a sobrancelha peluda do candidato -. No fim, é tudo a mesma coisa. Lembra do velho do armazém em Jacarezinho? Nhem, nheim, nheim e coisa e tal.... O senhor pode contar com a gente, só na família são mais de vinte pra trabalhar... Falando nisso, você mandou o carro que pediram?

Carro, gasolina, dinheiro, material de propaganda. Tudo do jeito que o senhor tratou.
Martin gaguejou enquanto recapitulava as pernas esguias da franguinha até a altura da bundinha redonda. Um bom motivo pra se aturar o velho e sua política capenga.

Pois é, tudo pra ajudar a convencer aquela mineirada. E daí, eu pergunto, cadê os votos? Me mostra! A vontade é de dizer na cara o que eles são pra mim.
Pegou um punhado de amendoim e botou na boca e um gole veio em seguida.

Martin aproveitou o silêncio para pensar melhor. Olhou outro quadro na parede e comparou o advogado com aquela besta que não falava coisa com coisa na televisão. Quem ia acreditar na eleição de um imbecil? Além do bom emprego na secretaria de saúde compensava o vexame. E depois, candidaturas são assim mesmo.

Martin! Deu a parcial de Guairacá. Pô, aquela cambada. Do prefeito ao último dos funcionários. Lembra da pose? Nós somos Alencar, mas deputado é com o senhor. E eu, burro...

O aspone balançou a cabeça mais do que nunca. Confirmando a tragédia.

Não adianta, Martin, lidar com o povo é só pra arranjar ferida na gente. Apoiaram o irmão do Alencar, tá na cara.

O aspone entristeceu o rosto, num tom de piedade. O suspiro veio lá do fundo, sincero: - É doutor, acho que vou tomar mais uma dose.

Acha que dá pra reverter isso?

O senhor sabe, eleição só termina mesmo é no último voto, e a nossa, quer dizer, a sua campanha foi boa...

Mas cadê Guairá, Paissandu? Sumiram com aqueles dois que você arrumou.

A cara do aspone virou tomate. Pensou num palavrão para desviar a responsabilidade, mas o que fez foi desligar o rádio. O almoço fumegando, na mesa da sala.

Não vou comer, Leonora.

Come um pouco que ajuda, doutor. Você também, Martin.

De tarde foram até a apuração local. O ginásio cheio, a cabeça pensando desculpas.

Melhora o ânimo, seu Rubens, ainda dá pra chegar lá.

As palavras do auxiliar não muito convincentes atropelaram na entrada a algazarra do local de apuração. Ginásio lotado, lá, do outro lado, a torcida do rival, fazia um carnaval.

Vai ver, perdi até aqui na cidade.

Seu Rubens, eu votei no senhor.
Um braço puxava-o para o lado e anunciava a lealdade de toda uma família. A conversa cínica irritando e produzindo um sorriso amarelo no candidato e em seu auxiliar. Logo ali na frente, mais gente.

Falsos, porra!

Martin ia só olhando por cima do ombro de seu Rubens.

Estamos torcendo pelo senhor...

Boa tarde, deputado.

No fundo da garganta do aspone, o riso já fazia cócegas.

Vê pra mim a quadragésima quarta, lá acho que eu arrasei.

Na boca miúda, um gosto amargo ia murchando o sorriso amarelo. E do outro lado, a festa!

Aqueles safados. Dobradinha só na hora de pagar gráfica. Na hora de fazer campanha, preferiram gente de fora. Uma ingratidão, Martin.

Seu Rubens...

Pô, Martin, onde você andou?

A coisa não tá boa. Na quarenta e quatro, nós, oh!
A mão espalmada subindo e descendo no cone da outra mão.

Seu Rubens empalideceu de vez. Voto? Um aqui, outro ali. A vontade de botar fogo em tudo e sumir. O pessoal andando de lá pra cá, nem aí para o aceno. Sina de candidato derrotado, achou melhor voltar para casa. Talvez uma rápida no bar das irmãs Cardoso. Ficou sem saber. E o ressentimento corroendo o corpo.

Martin, vamos? Martin?!
O olhar já percorria a multidão em volta, para lá e para cá. A peste do aspone lá do outro lado do ginásio, em plena festa inimiga.
Traidor!

Voltou sozinho, reconheceu no vidro do carro os plásticos amarelados do Alencar e do Álvaro, grudados feito uma coisa só. Tentou arrancar e conseguiu um pouco de cola por baixo da unha carcomida durante a noite.
Peste!

Ligou o carro, sentiu o sacolejo do pneu no meio-fio e olhou sozinho o espaço entre a rua e ele. No banco traseiro, a papelada se misturando com o paletó de comício. No banco da frente, uma dor no peito e outra no bolso...doíam!

(*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu.

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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