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Pimenta na lenda das Cataratas

(*) Mauro Welter

Histórias surreais geralmente misturam amor e aventura e quase sempre começam do mesmo jeito. Essa não foge à regra. Era uma vez uma tribo caingangue situada próxima a um grande e caudaloso rio. As corredeiras se esparramavam em meio a uma reserva florestal impecável. Ao deslizar sobre as pedras, a água formava pequenas ondas brancas que contrastavam com o verde da natureza.

Foi nesse paraíso selvagem que entrou em cena o par romântico da novelinha primitiva. A protagonista era Naipi, a linda e poderosa filha do cacique, uma espécie de Angelina Jolie da época. Ele se chamava Tarobá, um jovem, forte e promissor guerreiro, tipo um Brad Pitt queimado do sol, mas sem câncer de pele. Tal qual os atores contemporâneos, nosso lendário casalzinho também se apaixonou.

O casório tinha tudo pra se consumar. Mas o ibope baixo levou a direção do folhetim a convocar um antagonista para apimentar o enredo. Só a identidade do cara era de assustar: M'boy. Imagine esse nome sendo pronunciado na voz do Cid Moreira, como ele fazia com o Mister M.

- Cadê você, surpreende “M'booooyyy”, vilão de todos os vilões?

Calma, peraí! Tem mais! O bandido não era um índio “moreno, alto, bonito e sensual”. Não! Ele tinha a forma de uma serpente! É, isso mesmo! Uma mega-big-ultra serpente. E pra piorar a situação era considerado o “governador do mundo”, um George W. Bush tupiniquim.

Como todo filho da puta, o monstro usou de seu poder pra amedrontar o cacique. O velho cagão, tentando livrar o dele, ofereceu a gostosa Naipi em consagração, ou seja, literalmente tirou a calcinha da filha pra bem dotada cobra.

Ao saber que a amada seria deflorada por ser tão gigante, Tarobá passou dois dias pensando. Nesse período ele não caçou e nem se alimentou, mas masturbou-se várias vezes.

- Deve haver um jeito dela ser minha, afinal é a única virgem bonita da tribo. O resto é de São Jorge – pensava.

Sentado à beira do rio Iguaçu, olhando o movimento das águas, o guerreiro viu um tronco de árvore deslizar pela correnteza. Sobre ele um casal de quatis reproduzia-se, sem importar-se com o destino. Foi aí que Tarobá teve uma idéia brilhante e original.

- É isso! Vamos fugir!

No dia seguinte, horas antes da amada receber o sobrenome do tirano, o guerreiro chamou-a pela fresta da oca e contou-lhe o plano. Imediatamente Naipi tirou o vestido de palha nupcial, e em trajes íntimos – na época a moda era vestir sutiã de côco para segurar os peitos caídos – pulou a janela. Juntos, de mão dadas, eles correram pelo mato até chegar a um porto clandestino por onde índios criminosos faziam contrabando de cebola.

Ele acomodou-a à frente da canoa e sentou-se logo atrás. Enquanto desciam felizes as águas turbulentas, riam e faziam planos.

- Quero ter muitos, muitos filhos – gritava Naipi.

- Eu também. Tô doido pra começar nossa família, nosso time de futebol!

- Tá, mas se o primogênito for brasileiro vai se chamar Pelé – decidiu a amada.

- Beleza, mas se for argentino quero dar-lhe o nome de Maradona.

- Combinado – disse ela.

Para selar a fuga, o casal ficou em pé na proa e, corpos colados, estendeu os braços unidos para sentir o vento e a energia do amor, cena que mais tarde foi usada do filme Titanic.

Tudo ia de vento em popa quando de repente um ciclone, tipo esses extra-tropical do Jornal da Band, surpreendeu nossos heróis apaixonados, despedaçando a canoa e separando o casal. Eles tentavam nadar um ao encontro do outro, mas um estrondo avassalador rasgou o leito do rio, lançando água e rochas para todos os lados. Era a fúria de M'booooyyy que se infiltrou na terra criando uma imensa fenda.

Antes que os protagonistas morressem afogados, a serpente tratou de garantir sua vingança. Com seu poder, transformou a índia numa pedra central das Cataratas. Já Tarobá virou uma raquítica palmeira. Ao lado dela o monstro traído abriu uma caverna de onde vigia os dois em tempo integral. Quem tem chifre entende, né!

Muito, mas muito tempo depois, já em 1541, um espanhol de nome esquisito deparou-se com o cenário. Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, ao contemplar a mais brava das 275 quedas d'água, teria exclamado:

- Divinamente infernal: um privilégio vê-las; uma temeridade enfrentá-las.

Nascia assim a Garganta do Diabo. Mas esse é um outro capítulo dessa lenda.

Nota do autor: Lenda, de acordo com o dicionário Aurélio, é uma “narração escrita ou oral, de caráter maravilhoso, na qual os fatos históricos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética”.

Mauro Welter é jornalista em Foz do Iguaçu.

 
 
 
 
 
 
 
 
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