(*)Silvio Campana
Chegou às lágrimas. O líquido salgado correu pelo rosto e encharcou os lábios daquele gosto de saudade e indecisão. Os dias dele são assim. Procura sempre subterfúgios quando fala desse assunto que tanto aperta o coração e apresenta seu rosto à solidez da razão. Fez o de sempre, olhou pela janela que abria na claridade da manhã e terminava entre os pinheiros ralos do bosque em frente à casa de dois pisos. O sol a pino naquele dia tentava se esconder nas nuvens brancas do céu de outono. Nas roupas desarrumadas, jogadas em cima da gaveta do armário de madeira antiga, percebeu a ausência prematura da mulher.
Foi sempre assim a cada manhã, durante anos. Denise sai para aquele trabalho inútil que arranjou como bibliotecária da escola de Farmácia e espalha um silêncio no quarto. Marca um tabuleiro com suas roupas jogadas pelo chão e nos pertences do cômodo. Aqui, perto da cama, e ali, emperrando a porta do banheiro, toda a displicência e sua marca de sedução.
Apesar de mais solitário, sempre consegue se recuperar da melancolia. Mas, desta vez, o jeito frio da morte parece que entrou pela clarabóia do banheiro e avisou-o do que poderia acontecer. Uma dor fina subiu pelo fio das costas e, a chegar à nuca, afundou em perpendicular, na procura do coração. A sorte, intensa, espetou Joel.
Denise deve estar lá, pensou baixinho. Esperando que ninguém mais ouvisse a sua confissão. Deve estar contando livros, atendendo gente que nem sabe o que quer. Depois, vem com o holerite na mão, a cadernetinha das contas e a mesma lengalenga sobre uma saída a dois para a falta de dinheiro.
O jato de água quente do chuveiro varreu o corpo. Misterioso no espelho misturou a pasta de dente e a determinação de não lembrar. Os dentes arreganharam no bafo quente que jogou à porta de vidro do armarinho. Escanhoou o queixo gordo e o filete vermelho sujou a pia branca e encardida. A mão contornou o lábio, espalhando um cheiro de aloé vera e menta.
- O passado não serve, disse. O passado é uma mistura suja de impotência e a chance que não volta mais.
No andar de baixo do sobrado, o barulho acusou a cozinheira começando a por a mesa. Uma mulher feia e servil. Sim senhor, não senhor. Muito obrigado, seu Joel. Não há de quê, dona Denise. A boca entortando o cigarro e enrugando mais a cara desbotada e invisível já há alguns anos.
Os pratos da mesa, o ensopado no fogo e a mesma resposta lá, no andar de cima se ajeitando.
- Dona Adélia, diga pra Denise que não volto para almoçar; À noite eu explico.
Ordenou enquanto vencia os degraus escorregando o corrimão entre os dedos. A velha não teve nem tempo de dizer que tudo já estava arrumado e que não levava nem meia hora pra esposa chegar. Na poltrona do canto da copa, os animais continuaram entocados, atentos e silenciosos. Um, branco, acompanhou seus passos sem pressa quando ele foi até a porta da sala, onde o vento macio acariciou a pele úmida com o cheiro das alfazemas do canteiro mal cuidado. Lá, na rua, o trânsito era pequeno e convidava-o a sair.
Todo dia é assim. Quando ela sai antes, voltam as imagens de que poderia ser diferente. Pensa em contar a todos de que não é assim que será feliz. Mas daí a dúvida volta e ele fecha o rosto numa sisudez que espanta.
Prefere contar os passos trocados entre as crianças que voltam da escola e as lojas dos árabes, pequenas e abandonadas naquele quadrilátero da cidade que habita. Sua matemática simples derrota a verdade dos fatos e quando vê já está procurando o “370”, que naquele horário parece que some em uma das tantas esquinas do trajeto. São minutos infindáveis à procura do ônibus lento que, então, vem à última hora, lotado e barulhento ao seu encontro. Na última quinta, por exemplo, esperou quase meia hora e, quando embarcou, ainda teve de suportar a conversa do bêbado que ia do seu lado com um hare Krishina e a briga do homem que insistia sobre o troco com o cobrador. Enquanto tentava saber de outra linha alternativa para ir ao emprego, escutava o passageiro gritar impropriedades do tipo que ninguém era decente sem exigir moedas de volta.
- Denise não gosta que se fale, mas o povo é tão banal.
As palavras presas entre a língua e os lábios cerrados. Escondeu o preconceito de uma companheira de espera, uma mulher simpática que mostrou num sorriso o caminho para quem pretende chegar à Rua Duque de Caxias a pé, sem se apertar nos coletivos urbanos.
Andou, sentou, trabalhou. E então ele chorou. Sozinho, a cerveja, às seis, depois do escritório, despertou uma mágoa daquilo tudo. Ainda era época, mas a paixão pela judia e o gosto de ter um sonho inexplicavelmente possível insistiam em acontecer. O frio da espinha voltou. Denise era uma boa mulher, mas não era mais a mesma. Era alguém que podia lhe fazer um bem, mas não era mais o contraponto de algo, possível e importante.
- O passado é algo sujo, sufocou com um relâmpago o pensamento.
Trocou-o pela bibliotecária, que a essa altura enfrentava a disponibilidade de fichas e catálogos, autores e leitores. Tão dóceis e inúteis em suas mãos. Ela lá, pensando uma chegada em casa, à procura de alguém confortável, mudo e imperceptível.
- Para que servem os livros? Pensou enquanto o relógio atrás da cabeça do gerente do escritório marcava 18 horas.
Bebeu o de sempre. Esmurrou a mesinha e aumentou alguns goles. Depois de certa época, o final do expediente na agência começou a convidá-lo para essa prática. O medo de se transformar em um poço de recordações o tornou um jogador. Era assim que apostava com o próprio ânimo. Quando as lembranças começavam a brotar, ele fazia o jogo numa roleta que ditava se ele iria cruzar a rua e voltar para o “370” ou não.
O comentário sobre a demora dos ônibus, guardou para Márcia, a gerente do bar. Minha amiga Márcia é aquele tipo de gente, milhares de almas em uma só, sempre atenta como uma gata no balcão do bar. Disponível para agir em silêncio perante as vontades dos clientes. Joel disse e gostou daquele tipo de tristeza. No fundo, Eunice não passava de orgulho. Ela era a própria forma de desvendar-se para o mundo com uma confiabilidade nos humanos.
Denise já era a prova de que não havia errado nunca.
- Uma mulher inteligente e bonita.
Admitiu que, objetivamente, a esposa era a sua chave para ser lúcido. Pegou o telefone e as duas fichas que a mulher do bar fez correr no balcão. De supetão, lembrou o número de casa.
- Alô, é você? A mão pequena de Denise acariciou um dos gatos, enquanto esperava a frase conhecida.
- Eu atrasei, mas já estou chegando. Levo só um minuto com aquele quibe que você tanto gosta. Eu te amo!
Atropelou o clichê das palavras com o movimento pendular da cabeça. A mulher do bar olhou num rasgo de ironia e compreensão, enquanto começava a preparar o prato laminado misturando hortelã e cebola ao trigo na carne vermelha e crua. Na ponta do balcão, o copo de cerveja, o rosto silencioso e a vida só.
- Você me entende, né, Márcia? E esperou o aceno de sempre na cara risonha e calada da anfitriã.
O “370” apontou na esquina do outro quarteirão. Suas luzes iluminaram a placa de preferencial enquanto Joel correu, aplicou equilíbrio no marmitex e desviou-se com urgência dos carros. Enquanto isso, no andar térreo da casa, Denise aprontava o azeite, a pimenta, os pratos e os talheres para a chegada da encomenda para banquete.
As luzes da casa de dois pisos se apagaram já pra lá das três da manhã.
Veja outro conto de Silvio Campaana, clicando aqui.
(*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu, Paraná.
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