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CONTO
Olhos grandes,
corpos minúsculos

(*)Mara Cecília Lobregat

            Os olhares dialogavam-se e as palavras eram sempre sem muita essência naquela família tradicional. Quatro filhos, uma moça e três rapazes. O pai era reservado e de poucas palavras. A mãe alegre, mas às vezes notava-se no olhar certa doçura amarga como uma dose de Campari no gelo.
            Quando me casei com o caçula cuidaram para que eu, entre uma olhada e outra, me colocasse no lugar de estrangeira. Para mim que descendo de família espanhola abrasileirada nada havia de mais natural que a palavra, o toque, o abraço caloroso. Cresci em meio ao sentido tátil e só via união entre as pessoas por meio de toques e de palavras.
            Não havia discussão familiar. Os almoços domingueiros possuíam a força dos cinco sentidos transmitidos apenas pelos olhares que se entrecruzavam e traduziam-se em aflições angustiantes como se lutassem para verbalizarem-se, ou tocarem-se... A mãe servia o prato do pai. Os filhos desde pequenos adquiram posse sobre seus lugares à mesa. Ninguém sentava no lugar que pertencia ao outro, de vez enquanto um dos estranhos por não ter o hábito de viajar com acento marcado equivocava-se e tomava o lugar de um dos membros da família, mas logo uma olhada de repúdio assegurava de colocá-lo no lugar reservado e que lhe pertencia: o de estrangeiro.
            Foi convivendo em meio a olhares que aprendi a decifrar a vida de cada membro daquela família de olhos imensos e corpos minúsculos. Nem sempre meus braços e minhas mãos obedeciam à convenção familiar e quando me distraia lá estava a estrangeira abraçando o sogro ou acariciando a sogra. O velho nunca demonstrou que lhe agradara os meus abraços calorosos, porém também não deixara jamais transparecer o contrário e assim o meu caráter terno parecia-lhes falsidade ou bajulação e nunca compreenderam que certos seres carregam consigo a necessidade de serem aceitos e amados. Esse fato me incomodava e quanto mais vivia junto deles mais eu dominava a linguagem do olhar. Transformou-se num querer sem medidas conviver com pessoas de olhos grandes e corpos tão pequenos.
            O patriarca era quem mais despertava o meu anseio em descobrir suas vontades, pensamentos, afinal, era o olho maior da família, depois dele o filho do meio no qual depositara toda confiança e admiração. Os demais possuíam olhos menos importantes e de pouca expressão. Era algo incontrolável o meu quase desespero em tornar-me membro daqueles olhares doados a mim e que me colocavam sempre na posição de estrangeira. O meu amor por eles crescia domingo após domingo ou em encontros planejados em datas comemorativas nas quais os olhares assumiam outras nuances, pareciam menos formais e mais verdadeiros.
            Durante muito tempo passava horas imaginando que comportamento ou palavra deveria pronunciar para declarar aquele amor verdadeiro àquela família que eu ansiara em fazer parte sem que desconfiassem de minhas intenções. Houve momentos que permiti que meus olhos fossem maiores que minha boca então via meu corpo agonizar até quase murchar, mas o velho não compreendia tamanho esforço e traduzia minha quietude em problemas conjugais e logo questionava o filho da importância da unidade familiar. O filho, que era meu marido, olhava-o com estranheza e me beijava a testa como se quisesse dizer que tudo estava caminhando em perfeita harmonia, e a sua visão cansada voltava-se para mim de certa maneira procurando confirmar o que o filho acabara de formalizar com um beijo.
            E a cada domingo que anoitecia mais escuro parecia o rumo que eu deveria tomar para pertencer aquele grupo de pessoas unidas por grandes olhos e corpos diminutos. Meu anseio não era apenas em conquistar a confiança e o amor do velho como também de certa forma um tanto pretensiosa ensiná-lo a observar o mundo não somente com os olhos, mas deixar que o seu corpo desproporcional interagisse inteiramente com os outros membros da família e quem sabe permitir-lhes olhos mais expressivos e menos angustiados. Na verdade creio que o patriarca sabia que seus imensos olhos não davam conta de nutrir as lacunas deixadas pela falta de diálogos entre ele e os seus filhos.
            Um dos estrangeiros que vivia no seio familiar resolvera de repente desmembrar-se do grupo ao qual nunca havia de fato feito parte. A matriarca tornou-se aflita com a separação do filho. Outros estrangeiros juntaram-se a decisão do primeiro e também partiram para o seus. Houve o estarrecimento dos irmãos e dos pais o que proporcionou total desequilíbrio na convivência domingueira daqueles seres de olhos grandes e de repente as bocas daqueles seres foram tomando espaço no resto do corpo e os olhos quase chegaram à proporção perfeita.
            A instabilidade familiar coincidiu com a doença respiratória da mãe que em dois amargos anos entre idas e vindas ao hospital cominou-se com o seu falecimento. A morte traz consigo a rebeldia e a revolução e os olhos com esperteza aproveitaram o momento e provocaram sua própria greve. E intimaram as bocas a terem uma justa participação na guerra que aos poucos se instalara naqueles corpos desproporcionais e assim os membros da família passaram a exercitar suas vozes e quanto mais as palavras eram pronunciadas, mais um se ressentia do outro.
            O filho do meio que o pai sempre depositara admiração e confiança passou a ser questionado pelos irmãos. Talvez a carência proporcionada pelos anos de diálogos mudos havia dado-lhes o direito de reivindicar um pouco mais de espaço no grupo quando na verdade o que ansiavam era a certeza de serem tão amados e admirados pelo pai como o irmão do meio o era.     E o almoço domingueiro naquela casa já não se fortalecia apenas pelas simples trocas de olhares. Para mim as mudanças no cotidiano deles soaram-me decepcionantes, porque eu já me acostumara a conhecê-los pelos longos diálogos de olhares. Ouvir suas vozes desordenadas resultou em uma situação nova e a cada encontro de família as minhas teorias e hipóteses a respeito de cada membro evaporavam-se e o que parecia sólido tornava-se liquido e escorregadio. Aos meus ouvidos nada parecia construir um sentido. Com a progressão natural do tempo observei que suas bocas tomaram os seus lugares nos corpos minúsculos daqueles seres e como as coisas tendem a acomodarem-se um equilíbrio insólito instalou-se na vida daqueles seres.
            O patriarca não sugeria circunstância de desconforto e já não trazia na face um ar tão amargo. Seu estado era metamórfico e a doçura resistia em depositar-se nele, pois sua pele havia adquirido ao longo dos anos uma impermeabilidade natural.
            Queixava-se de vista curta. Demorava a reconhecer as pessoas e o globo ocular revestiu-se de uma película esbranquiçada. Os filhos levaram-no ao oftalmologista que diagnosticou falecimento da córnea devido ao diabetes em estágio avançado. Desta vez sua boca não pode mais resistir à armadilha que seus olhos pregaram-lhe e então as palavras começaram a escaparem-lhe dos lábios e dominar um território maior do seu corpo que não era mais tão minúsculo. Após cirurgia de transplante de córnea o médico constatou que o organismo rejeitara ao transplante e sua visão permaneceu na escuridão.
            Alguns meses depois deram inicio a febres noturnas e diagnosticou-se uma infecção na próstata seguida de perda de memória e do urologista passou ao neurologista. Depois de intermináveis exames veio o cármico veredicto: uma doença degenerativa: “alzheimer”. A enfermidade do ancião motivou a união dos filhos menos à participação de estrangeiros e como a minha posição no núcleo familiar sempre fora essa novamente meus olhos cresceram e minha boca calava-se. Notei que com a doença do meu sogro que evoluía meus olhos evoluíam juntos e meu corpo havia tomado uma forma desproporcional, mas a família via menos e ouvia com maior apuro as palavras que sonorizavam no espaço domiciliar. Com o retorno ao estado infantil, efeito proveniente da doença, em uma reunião extraordinária resolveu-se que a contratação de uma enfermeira era inevitável, mas com a emenda de que se faria um revezamento e que cada irmão pernoitaria ao lado do pai e aqueles com menos encargos passariam as tardes auxiliando a profissional de saúde. O contrato foi fechado com a concordância de todos os irmãos.
            A mim e a minha cunhada ficou o encargo de cuidá-lo. Ela no período matutino, eu nas tardes ensolaradas e cheias de vida. E meus olhos voltavam com receio à justa proporção a qual sempre tivera sobre meu corpo.
            Aos domingos brotavam nas conversas dos filhos sentimentos melancólicos a respeito do estado de saúde do velho, mas em mim crescia uma alegria natural e as lágrimas derramadas por eles não exerciam sobre mim nenhum sentimento de compaixão, porque diferente deles a progressão da doença de meu sogro desvelava sentimentos que eu nutrira desde que me assentei em terra desconhecida. Sentimentos como o desejo de pertencimento, de aceitação, de confiabilidade que só uma criança reconhece e compreende e afinal o meu sogro de maneira incompreendida pelos filhos aos poucos retornava a infância. Não me dava conta da sua enfermidade, via apenas uma porta que se abria na minha direção a qual almejara há tanto tempo e que agora estava próxima de ser alcançada. No início causava-me estranheza ver um homem de quase dois metros, austero e comandante empoçar-se da alma de um menino sedento por atenção e amor. Amor era tudo que ambicionava em doar-lhe e quanto mais eu interagia com ele mais era insaciável minha dedicação e amor. Caprichava em cozinhar o jantar que lhe servia na boca e depois lhe contava histórias que sua cegueira compreendia e os ouvidos embebedados pelo som da minha voz agradeciam com um sorriso sereno e transparente. Ao distanciar-se da vida adulta suas recordações falhavam e eu não passava da moça que o cuidava, porém eu era a moça que lhe oferecia não apenas o alimento oferecia-lhe também a admiração, a confiança e o amor incondicional, sentimentos que só um coração jovem confia em receber de estranhos.
            A enfermidade já dominava o seu organismo por completo então passei não só a admirá-lo como também a observar que a sua alma estava curada e o seu corpo doente havia adquirido uma justa proporção. A pesar da cegueira ele passou a enxergar a vida através da boca que verbalizou o resto do corpo e os cinco sentidos passaram a atuar na vida daqueles seres de olhos grandes e copos minúsculos como em um balé no qual a história é construída na interação entre o ritmo do som, do movimento, do cheiro, e do tocar-se que ultrapassam a compreensão da natureza humana que movida pelos costumes necessita morrer para renascer...                      

                        
(*) Mara Cecília Lobregat é professora de Língua Portuguesa em Foz do Iguaçu

   
 
 
 
 
 
 
 
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