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A realidade nas lentes de Raymond Depardon

(*) Nathalie Husson Granzotto

Depois de várias mostras cinematográficas nas principais capitais do Brasil, é a vez do público iguaçuense conferir o trabalho cinematográfico do jornalista, fotógrafo, e cineasta, considerado por alguns críticos como um dos mestres do filme documentário: Raymond Depardon .

A estética

A obra de Raymond Depardon tem certamente dois aspectos significativos. Seja atuando em cinema, fotografia ou jornalismo, seu olhar é basicamente etnográfico e racional, mas não somente quando se dedica a cenários "exóticos" como a África ou o Iêmen.

Ao postar-se com a sua câmera observadora na clínica, na delegacia, no fórum, ele tenta captar a realidade, sem intervenção possível. Nesse sentido, Raymond Depardon é o “anti- Michael Moore ”. E vem a questão a ser discutida: existem documentários ou documentaristas objetivos?

Raymond Depardon quer captar padrões de comportamento - falas, gestual, interações - reveladores do funcionamento da sociedade que está além do recinto fechado e que leva, afinal, a partir das individualidades e histórias de vida, a pensar sobre os disfuncionamentos dessa sociedade, posicionando-se, sem dúvida, do lado dos homens e da humanidade. E, por isso, ele é mencionado sucessor dos grandes fotógrafos humanistas, como Cartier-Bresson e Doisneau, entre outros.

Do outro lado, mas mais no campo da fotografia, Raymond Depardon reinvindica uma certa subjetividade do fotógrafo e da sua vontade de deixar um espaço para "os tempos mortos". E assim, ele é mais próximo da escola americana e de fotógrafos tais como Walker Evans e Robert Frank do que da escola humanista européia.

Sua obra mais significativa é o livro de fotografias " Recueil/Notes " de 1979, dividido entre fotos e textos pessoais escritos na primeira pessoa, entre exigência jornalística, mundo exterior, e autobiografia, mundo interior.

Seu último livro de fotografias de personalidades políticas famosas procura antes de tudo, no meio da ação política, " mostrar a solidão da personalidade política".

Raymond Depardon deve ser sempre lembrado como o documentarista da transparência.

Sua obra nos convida a descobrir as contradições das instituições da sociedade francesa e o lado oculto de toda sociedade.

 

A carreira

Depardon tira as suas primeiras fotografias na fazenda da familia do Garet . Em 1958, com 16 anos, ele se torna assistente do famoso fotógrafo Louis Foucherand .

Foucherand associado com Louis Delmas cria a Agência Delmas onde o jovem Raymond acaba trabalhando no laboratório.

Logo, o rapaz quer se dedicar à nova profissão de repórter, como free- lance .

Em 1960, a Agência Delmas manda Raymond para a expedição SOS- Sahara . Ele realiza uma série de fotografias publicadas no Paris-Match , tendo uma grande repercussão. E o início de uma carreira exemplar é marcada pelo talento, pela integridade e pela energia no trabalho.

Repórter assalariado da agência, ele cobre as guerras de Argélia para o Ministério da Defesa Francês - a África é tema recorrente na sua obra -, e do Vietnã, como também os fatos diários da atualidade e age como um verdadeiro paparazzi atrás dos " people ".

Em 1966, funda a famosa Agência Gamma com seu colega Gilles Caron.

Em 1969, Depardon dirige seu primeiro curta-metragem (A imolação de um jovem estudante em Praga), seguido de outros 30 documentários.

Ele deixa os vários jornais onde trabalhava quando seu amigo Caron morre no Vietnã e, em 1973 , passa a dirigir a Agência Gamma , atraindo a atenção internacional para um trabalho feito no Chile, que recebeu a medalha de ouro do prêmio Robert Capa de fotografia.

Em 1978, passa a fazer parte da Agência Magnum como membro associado.

A obra cinematográfica

Herdeiro do cinema direito ( Richard Leacock , Pennebaker ), Depardon segue o futuro Presidente da República francesa, V. Giscard d´Estaing , na campanha eleitoral de 1974, a pedido dele. No entanto, D´Estaing autorizou a projeção do primeira longo de Depardon , 28 anos depois, em 2002.

Autor de vários curtas que o levam para diferentes lugares no mundo, ele realiza seu segundo longa em 1980. " Numéros zéro " versa sobre o nascimento de um novo jornal, Le Matin , em Paris.

Paciência, discrição e atenção em todos os instantes são as regras de ouro do cineasta que se torna o testemunho do cotidiano dos fotógrafos da Agência Gamma (" Reporters ", prêmio César de melhor documentário e indicação ao Oscar, em 1982), ou dos policiais (" Faits divers ”, 1983). E se infiltra nas instituições fechadas tal como o universo hospitalar (" O asilo de San Clemente ", o serviço das "Urgências" de l ´Hôtel -Dieu , em Paris ) ou a justiça (" Délits flagrants ", 1994), que lhe rende o seu segundo César .

Em 1985, " Empty Quarter , uma mulher na África " é sua primeira tentativa na área da ficção.

Carregado do olhar do humanista ("Áfricas, como está indo com as dores?", 1996), o continente africano é fonte de inspiração para dois outros filmes de ficção: "A cativa do deserto" (1989), rodado na Nigéria, com Sandrine Bonnaire no papel de Françoise Claustre , uma arqueóloga seqüestrada no Tchad pelos homens de Hissène Habré e que Depardon chegou a entrevistar durante o verdadeiro cativeiro. Depois, " Um homem sem o Ocidente " (2002).

Esteta, Depardon tem o gosto para um cinema contemplativo como no filme " Paris ", reflexão sobre o trabalho de realizador, navegando entre ficção e documentário.

Fotógrafo e cineasta de âmbito internacional, Depardon multiplica os projetos (filmes, exposições, livros, publicidades, etc...), mas sempre fiel a alguns temas. Afirmando para a revista Studio que "o verdadeiro documentário é, afinal, mais próximo do teatro", ele roda, em 2004, " 10 e chambre, instants d´audience ", sobre a justiça, nos anos 2000, depois de ter feito " Faits divers " (1983) e " Délits flagrants " (1994).

Filho de agricultor, desde os anos 90 ele se volta para o mundo rural com o projeto " Perfis camponeses ", uma crítica sobre a França rural que vai necessitar mais de dez anos de trabalho.

Em 2007, lançou " Chacun son cinéma " (“A cada um seu cinema”) e " La vie moderne " (“A vida moderna”).

Depardon recebeu também o prêmio Pulitzer , em 1977.

(*) Nathalie Husson Granzotto, francesa, é empresária do ramo editorial em Foz do Iguaçu.

Conheça a programação da Mostra de cinema francês, aqui

 

 
 
 
 
 
 
 
 
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