Ai (fragmento)
Capítulo 2
(*) Fabio Campana
Quando mais nos aproximamos do centro da cidade, maior o número de crianças nas esquinas. Elas colam seus rostos no vidro do carro. Esmoleres de olhos turvos, enfermos, tão abandonados quanto a matilha de cães pobres e miseráveis que os acompanha.
Marta abriu a janela e o carro foi invadido pelo ar quente da rua. As crianças de sorriso pedinte, dentes cariados, avançaram as mãos em direção ao rosto de Marta.
Mãos pequenas, sujas, agressivas. Marta recua. Toda a sua misericórdia se esvai na contração provocada pelo medo e pelo nojo.
Mantenho a minha janela fechada. Não tenho coragem de abri-la na lembrança de outra situação como esta, em que a menina de não mais que dez anos olhou-me como quem implora disse quer uma chupada, tio, eu fiquei paralisado e só me saiu uma frase comum, automática, o que é isso menina ? Ela olhou-me e indignada respondeu com ar desafiante ehhh seu bobo, eu até já fudo, e senti engulhos e vontade de sair rapidamente dali como se estivesse sendo observado a falar com uma criança que nem sabe pronunciar direito as palavras ma já sabe o seu sentido prático, violento, e se propõe à venda por alguns trocados.
Ontem, ao chegarmos, eu e Marta vimos as ruas inundas dos bairros que brotaram na periferia. Entulhados de gente que já não tem para onde recuar depois do término da construção da represa.
As casas minúsculas, idênticas, muito próximas umas das outras lembram um pombal. Pintadas de branco, construções de janelas tortas e paredes sujas respingadas de barro e impregnadas de poeira.
Ali moravam os operários que construíram Itaipu. Hoje vivem os desempregados de Itaipu. Milhares de homens e mulheres que passaram a vida a percorrer o país construindo barragens. Não sabem fazer outra coisa e já não há usinas em construção.
Um velho espreita a rua pela janela semi-aberta. Mulheres caminham na calçada estreita carregando trouxas na cabeça. Pessoas que não têm para onde ir. Não são daqui e de nenhum lugar. Esperam novo trabalho, mas o país parou, também está à míngua, afogado em dívidas.
Demorei-me demais tentando mostrar a paisagem de minha infância. A cidade ficou irreconhecível, o que só ajudou a confirmar a impressão de que não só eu, mas o meu mundo original está ruindo. É como se me tivessem furtado as provas da infância. Tudo o que parecia eterno aos meus olhos de menino sumiu. A casa de madeira e suas janelas azuis, o jardim de roseiras de mamãe, a cerca que ajudei o pai a fazer, o galpão, o poço. Quase nada ficou. Falta-me uma base física para as lembranças. De pé, apenas a casa grande do avô Vithorino.
Até a rua poeirenta desapareceu. Somou-se ao que era um campinho de futebol e hoje é praça e leva o nome de coronel Jaime Ballestra. Sinto-me usurpado. Quem será o milico ? Talvez um dos interventores na prefeitura da época do regime fardado.
Mais um intruso, foram tantos, explico a Marta. Ela já não ouve, se espreguiça, lenta e manhosa, gata sonolenta. Tem os olhos fundos de cansaço, a voz rouca e nenhum interesse pelas minhas saudades.
Ali está o cinema e já não é um cinema. É um supermercado. Nunca mais John Wayne passará por aqui para esmurrar os bandidos e matar índios nas matinês. Esqueçam os seios de Gina Lollobrigida, as pernas de Marilyn Monroe, a boca de Ava Gardner. Nunca mais se repetirá a pornografia de mulheres alvas e olheiras profundas dos rolos de cinema-mudo na sessão proibida da meia-noite.
A paciência de Marta está se esgotando. Ela tem fome, tem sono, tem vontade de chegar e é incapaz de entender o meu desalento. Pede que eu dirija mais rápido. Falo sobre a cidade e sobre as pessoas sabendo que ela não me escuta. Desenho no ar o mapa invisível dos córregos que se juntaram para formar pequenos rios. Sabia o nome de cada um deles. Desaguavam todos, inclusive o Iguaçu, no grande leito de águas que se arrasta até o Prata. O rio Paraná era, naquele tempo, uma das duas maiores coisas que eu conheci na infância. A outra, sem dúvida, eram as cataratas.
Não é esta a cidade da infância, de ruas também poeirentas, de casas também pobres e talvez ainda mais toscas que estas, mas antes eram protegidas pela esperança de seus moradores.
A cidade da infância não existe. Era cortada pelos arroios e suas pontes de madeira, as ruas margeadas pelos laranjais de frutos dourados e sumarentos colhidos no verão. Marta me olha, desconfiada. Ela conhece a cidade de agora e não acredita que tenha existido outra que pudesse ter sido melhor.
Neste momento, ela estará imaginando o que vai encontrar nas lojas do outro lado do rio. Adora a Babel de ruas asiáticas, de lojas repletas de importados e falsificados que exercem sobre ela fascinação e despertam seu desejo de comprar.
Procuro reconhecer uma casa antiga, um único beco que tenha permanecido intacto, um vestígio ao menos. Sei que a cidade jamais existiu da forma que a guardo na lembrança. A Igreja não é esta. Perdeu sua imponência. A praça que parecia tão extensa reduziu-se as dimensões de acanhado pátio doméstico invadido pelas pragas criadas pelos arquitetos, floreiras de concreto e luminárias de acrílico.
Já não há córregos. Os rios secaram ou foram transformados em canais de esgoto. Seu hálito fétido escapa pelos bueiros e empesta o ar nos dias mais quentes. Nem as esquinas são reconhecíveis. Mudaram o traçado das ruas. No centro, as casas de madeira cederam espaços a pequenos prédios, feios caixotes de alvenaria. Sobraram algumas residências antigas perdidas no meio da nova paisagem. Onde estarão as pessoas que habitavam aquelas casas ?
Logo chegaremos e Marta terá que ouvir, mais uma vez, as lamentações de mamãe, que reinventa o passado para refugiar-se nele. É difícil o entendimento entre as duas.
Marta vive de provisoriedades, de coisas tão fugazes quanto a promessa de felicidade estampada em anúncios de propaganda. As referências de mamãe são imutáveis. Marta vive na dimensão da moda, interessada na novidade que envelhece no prazo máximo uma estação. Nenhuma das suas mais profundas convicções de hoje terá vigência dentro de alguns dias. Ou de algumas horas. Tudo o que deseja é estar envolvida pelo apelo da mais encantadora futilidade.
O mistério em nosso relacionamento é entender o que possa prendê-la em mim, que também detesta o seu tempo e se refugia na imaginação e nas memórias da família, tão voláteis quanto o seu perfume da Casa Dior.
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(*) Fabio Campana é jornalista e escritor em Curitiba.
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