O incrível Hans
(*) Jose Nami Sobrinho
Aqui, uma personalidade volitiva sobrevoa não só o real do cotidiano, mas o irreal, o adimensional, o atemporal e o profético...
A personalidade dá conselhos; debocha, mostra alguns aspectos sobre as dúvidas, as verdades, os risos e as sombras dos mortais, e; com certo senso de humor irônico, tudo é direcionado para o literário livresco. Qualquer semelhança, não é mera coincidência. Você bem poderia ter sido parte disso tudo, como se fora um imposto embutido na fonte ...
Todos se divertiam na festa do clube dos alemães lá pelo lado sul da cidadezinha de... A noitinha era de primavera. O ventinho suave fazia o acordeom, a corneta e as canções de uma banda medíocre passear pelos vales e atravessar o pico das montanhas.
Salsicha, repolho, joelho de porco e chope pra todo lado... somente o incrível Hans, esse mísero cidadão tributável que sofrendo vários estupros econômico-financeiros imputado por vorazes canibais civilizados contemporâneos, agora sim; sem nenhum crédito nos bancos; meio que sonolento e periférico, ocultava um cadáver de tristeza porque descobrira sua deusa de perenal beleza ocultando um cadáver de traição. E nessa ocultação toda, a festa seguia avante:
– Ora Hans! Não vá se matar! Não seja tão lúgubre! Seu campo-santo ainda está distante, não busque autógrafo à “tenebrosa do alfanje”... É perigoso. Cada qual traz seu tempo de existência terrestre pré-fixado. Matar-se é crime hediondo; é grande ofensa a Deus. Fique por aí mesmo, não pare a marcha normal de sua vida. Retire esse cruel romantismo alemão do peito e sua vida até que será suportável.
Aí por baixo, nessa densa vibração terrestre, seus neutrais amigos de trago já não se importam muito; nada sabem sobre o outro lado do mundo, menos ainda, aqueles outros que agora ocupam altos cargos em algum estado maior de qualquer coisa... antes, se diziam amigos e eram até esféricos, agora; são todos cometas retilíneos e se dizem tão somente conhecidos seus Hans – só conhecidos – viraram estratosféricos...
Tais indivíduos facilmente o esquecem... Mas olhe Hans, eles ainda continuam tolos... e essas coisas passam, passam rápido. Fosse um “cargueiro” jogando dinheiro do céu só para você; não contestaria esse “anjo das trevas” que circunda o eixo terrestre cravando os dentes e vampirizando mais um outro inocente aqui nesta mescla de “Terceiro Mundo” com “Países Emergentes”. Magnetizado, você também entraria na dança e diria maravilhas desse capitalismo globalizado tão selvagem (quem tem mais vai comendo quem tem menos...) tão paradoxalmente liberal... A mágica viria dos céus; seria igualzinho ao capital mágico que flutua por sobre a cabeça de alguns maiorais que de bandulho pra cima, em alguma ilha paradisíaca, executam transferências de capital... Nunca mais se ouviria o incrível Hans, por vezes depressivo moderno; cheio de paixões, cifras e dígitos mentais; tocar no assunto dos sistemas e anti-sistemas; no assunto dos falsos profetas; das falsas religiões e das falsas doutrinas... especificamente, essa coisa de modelos econômicos e políticos perfeitos,aqui neste mundo sentimentalmente imperfeito. Ora, o incrível e indefinível Hans, também entraria naquele sono profundo – naquela letargia dos deslumbrados... Não mais aprovaria uma nova “Revolução Francesa Globalizada” (liberdade igualdade e fraternidade novamente? Pra quê? Se tudo foi e é mentira... hay cambio de las moscas, pero las mierdas son las mismas...).
Mudaria seu ponto de vista; não mais se preocuparia com as injustiças e problemáticas do mundo... Nunca mais diria pra ninguém, (mesmo numa festa onde se come salsicha, repolho e joelho de porco) assim como se fosse um misto de ambientalista e historiador consagrado que a crônica da morte anunciada desta atual civilização planetária (como fora Lemúria, Atlântida e outras...) tivera mesmo inicio lá na Idade Média, com a queda do Feudalismo e o advento do Capitalismo... Nesse tempo, “los científicos”, nem ao menos cogitavam da possibilidade futura de uma inversão total da corrente do Atlântico ou desprendimento maciço das calotas polares...
Alguns daqueles que ali estão e circundam o Hans sustentam a tese de que foram as trinta moedas de prata que Judas Iscariotis recebeu para trair o Cristo, a origem da idéia sombria que deu sustentação à causa desse imperativo regime imperfeito... outros deles; vão mais além: foi Júlio César, “o dono” das moedas do Império Romano que dominava o mundo – a energia dominante de tal moeda trazia sua imagem e inscrição gravadas – tudo concorrendo para a dissipação anunciada desta civilização. Ora, tudo são ciclos... as coisas vão, e as coisas voltam... então; virá o fim... (se nada for feito, virá mesmo...)
Hans, aqui entre nós, chegue mais um pouquinho e ouça: de maneira geral, há na origem de quase todas as grandes fortunas, alguma desonestidade, algum não sei quê de estranho; mas não é proibido ser rico e um “camelo passar no buraco de uma agulha” – possuir fortuna honestamente e deixar que outros vivam e também a possuam; isso é válido, não há pecado nisso...
Zaqueu, o baixote que por causa da multidão correu à frente e subiu numa figueira brava para ver Jesus Cristo passar em Jericó, matou a charada: o rico chefe dos publicanos teve vergonha na cara; sua consciência o atormentava: resolveu dar metade de sua fortuna aos pobres e quadruplicar àqueles a quem até então prejudicara defraudando-os na arrecadação de impostos. Descobriu que não era comunista; conheceu Jesus e percebeu que havia um Deus lá em cima coordenando as leis da “Mecânica celeste”. Tampouco, era capitalista: o “bolo do Delfim”, não poderia estar contido só na mão de meia dúzia de usurários segurando o dinheiro nos cofres com especulações gananciosas, e assim, tornar ainda mais perverso, o mísero capital de giro do pobre – originando fome, miséria e desemprego...
Daí foi que uma luz entrou em sua consciência. Sem dúvida, a seta que o conduziria para o lado negro do umbral, fora modificada...
Assim, o “Progresso que leva ao Regresso” tivera mesmo inicio, bem antes do degelo dos pólos quando por ai, não havia automóveis, aviões supersônicos, indústrias lançando toneladas de carbono no ar; cloro flúor carbono, chuva ácida, enriquecimento de urânio, fissão, fusão nuclear – bomba atômica; bomba de hidrogênio... gás mostarda...
O “Progresso que leva ao Regresso”, já se encontrava latente na cabeça dos mortais. Entrou em curso; teve sua expansão máxima aqui nesta civilização atual do dinheiro, quando, pela busca vergonhosa de conforto, bens materiais e poder, em detrimento à simplicidade do viver; os Mega Avarentos, (refinados mestres da insinceridade e do egoísmo) começaram a embromar cada vez mais os puros de coração, os ingênuos – os Mega Otários...
A voracidade desses avarentos foi sobrecarregando cada vez mais esses ingênuos e puros de coração... Hum! Deveras universalista o inacreditável Hans: temporal atemporal e às vezes; adimensional e profético... agora sim, temos aqui um homem de espírito! Um homem que em tais processos de êxtase, quando absorvido por essas reflexões ocultas aos simples encarnados, se faz necessário alguém estalar os dedos para que volte a si.
Mas, voltando ao assunto supracitado: será Hans, que realmente, muito dinheiro e muito poder já não afetariam sua massa cefálica e seu espírito? Não seria mais um sovina aqui no meio de tantos que já existem? Divaguemos um pouco: “fosse um cargueiro jogando dinheiro do céu só pra você”... sua “deusa de encantos imortais” deixaria aquele novo secretário que ali está e que só serve para abastecê-la e transportá-la ( chouffeur) e voltaria voando para os seus braços... daqui pra frente, você que é tão universalista, viveria só pra ela, e ela; já não mais rolaria convulsa cheia de ódio e stress por causa de contas a pagar. Os dois riscariam do mapa o trauma terrível causado por aquele office boy impiedoso; aquele estafeta de mau agouro, um tremendo pássaro negro enviado por um maldito juiz para bater à porta do seu desprezível tugúrio às margens daquele beco sombrio e sem saída, para então; proceder àquele maldito despejo – ha! ha! ha! Dio Cristo! Quantas maldições! Quantos teoremas e processos inacabados! Quantos nomes substituíveis! Que panorama... Que mundo cane... não vejo aqui nesta comilança toda; nenhum cachorrinho vira-lata balançando o rabo para o “cornuto Hans”... Caro Hans, ela esqueceria tudo; você já não precisaria de um muro de sete metros de altura –, uma paliçada de presídio de segurança máxima semelhante ao “Império Exportação” de algum país de primeiro mundo qualquer, para fechar o cerco e privatizar os belos encantos sensuais da dita cuja... Você também esqueceria aquele maldito secretário esnobe que fê-lo sofrer tanto. Aquele maldito secretário que mijou em seu território e lhe roubou o lugar de assistente número um aqui nesta surreal e romântica historinha que nem mesmo Freud explica... ha! ha! ha! Que bárbaro desastre! Que absoluta e absurda comédia... Para a personalidade volitiva que por aqui sobrevoa –, escárnio, deboche; risos às gargalhadas... mas, para os sentimentos do incrível Hans –, um malefício tremendo; uma tragédia total – estão sufocando o pobre do rapaz...
Um dia lá na geral – bem antes desse golpe sentimental pregado pelo destino – você bem que riu da cara dele e disse-me com certo ar de arrogância nada característico: esse cara é mesmo um “cabeça de bagre”, um ponta imbecil; não sabe nada de bola – é certo que corre como um cavalo; mas pensa como um burro... o jogo está afunilado e ele só cruza na diagonal – não faz previsão nenhuma da jogada e ainda diz que eu, o “incrível Hans”, é que nada tenho de profético – só conto mentiras no meu “Dèjávu”... O tongo é mesmo um “Gardenal da vida”, parece que usa uma tarja preta nos olhos... será que não percebe? Por ali sempre haverá uma linha de zagueiros “fungando no cangote” do atacante; dificultando-lhe o giro – assim não dá – só mesmo um “gol espírita num cruzamento equivocado”... Imbecil! Porque não vai à linha de fundo e cruza para o atacante escorar de frente e não de costas para o gol? Se treinasse de centroavante aprenderia algumas coisinhas lá nas pontas – perceberia como melhor servir os companheiros de ataque.
Por aí segue a vida, senhor Hans... Perdeu a concentração? “Deu sopa pro azar?” Sei, foi aquele sambinha da “Velha Guarda da Portela” – “depois da Porta Arrombada Acordei”...
Agora, não fique aí chorando as pitangas como se fosse um pneu furado ou cuspindo fogo como se fosse um dragão... O “papo aranha” que o secretário jogou nela deu certo – deixou você atônito – num emaranhado sem fim. O céu estava azul. Não havia previsão nenhuma de chuva e ele disse: acho que vai chover... Ora Hans, você deu um risinho de escárnio e novamente subestimou a potencialidade do “cara”... não houve muito tempo e lá estavam os dois agarradinhos – uma total surpresa desagradável.
Caro Hans! Não vá se matar! Não seja tão lúgubre! Pare de vomitar salsicha! Não olhe mais para a mesa do lado esquerdo do fim da festa. Abandone o estupefaciente vício romântico de amar que só lhe traz sofrimentos, desgostos e zombarias. Veja só; lá está o dândi rindo de sua cara novamente...
Pensando bem, dos componentes da mesa cento e oitenta o mais sutil é mesmo o Hans– as belas cabeças de raciocínio lógico e filosófico já se foram – os outros que aqui estão, conversam muito e dizem pouco... blá, blá, blá blá – mediocridades ambiciosas, banalidades irrelevantes, posso afirmar que por aqui, há um bando de pernósticos colonizados.
– Hans, vá pentear esse misto de touceira e capim colonião... passe uma brilhantina, cuide-se, tente esquecer sua dor; mas não fique dormindo sentado no vaso do banheiro – a descarga aberta... algum sócio remido; algum puxa-saco querendo fazer média; ou quem sabe, o próprio diretor administrativo há de encontrá-lo em tal situação deprimente; há de enviar uma cartinha bem fantasiosa para o presidente do Conselho Deliberativo... Olhe Hans, em seu “doloroso regresso” lá do W.C. causado por suas terríveis hemorróidas e sua terrível dor sentimental; aqui estarei para as soluções de seus problemas... terei imenso prazer em ajudá-lo. Tentarei arrancá-lo dessa fossa... desse lixão profundo...
Enquanto isso, continuam os no, no, nos os blá, blá, blás e as mediocridades ambiciosas, e, temos aqui novamente, Hans voltando ao assunto da mesa cento e oitenta: aqui do lado, ele bem pode visualizar e captar meus pensamentos.
– Pois bem, Hans. Com esse dinheiro do “fosse”... poderíamos nos valer de certas imagens, certos pensamentos e plasmar tudo no seguinte: em vez de um SP2 customizado mas fora de linha dê pra ela uma eterna Ferrari, ou quem sabe; um eterno Bugatti... em vez de uma bijuteria cheia de amor e paixão; um colar de pérolas, ou algumas barras de ouro maciço como lastro para segurança do imprevisível... em vez de flores; algumas Ações das Bolsas da Europa, mesmo sabendo que foram eles os causadores da fome, devastações, miséria e guerra na África... Ainda, em vez de flores; algumas Ações na Bolsa de Nova York, ou aquela majestosa ilha ligada por um braço de rio despoluído, cujo coração ainda pulsa e, em cujas águas límpidas extremas e cristalinas, encontramos peixinhos coloridos graciosos e vivos... lá, você que é um poeta viciado no romantismo alemão, poderia muito bem passear de barco e penetrar sua bela alma naqueles olhos magnéticos que “para você” sempre foram profundos e magníficos...
Pode ser que um dia ela ofereça carinho e amor sinceros... por enquanto, o domínio flagrante, ainda é dela; você nada mais é que um alienado operário padrão... seu maior prazer atual é jogar ping-pong sofrivelmente na associação dos operários... ha! ha! ha! Todavia, não perca a esperança Hans (não imagine como tudo poderia estar pior aí pelas bandas que margeiam o Trópico de Capricórnio...) siga o ritmo presenteando-a com um mp3, um mp4, um mp5 um mp6... um mpn... até que tudo se transforme em amor transcendental nessa seqüência de computação e consumo...
– Ora, Hans! Não vá se matar! Não seja tão lúgubre!Não brinque com a morte Hans! Pois esta sim é zombeteira e cruel... bem diferente aqui deste meu senso de humor tão leve...
Portanto, depois dessas conferências todas, ciente de que sua personalidade é mesmo digna de um simpósio, agora falo sério: não desafie Deus, Hans! Não queira ser o professor de Deus! Não acredita em mim? Ficará ligado ao corpo. Suas preces não serão atendidas durante um longo tempo (uma eternidade). Seu terrível arbítrio trará conseqüências drásticas devido à detenção violenta da trajetória do seu espírito – isso não romperá o laço que vos prende ao corpo. Antes que tudo vire carcaça, sentirá os vermes roendo suas entranhas. O inferno de Dante será brisa suave diante das amarguras pavorosas de tal martírio... o apodrecimento, o odor nauseante das vísceras, os músculos, as fibras se decompondo... se desprendendo dos ossos... não haverá pior filme de horror que este...
Assim, eu peço que me ajude a afastar a legião negra que por vezes quer lançá-lo ao abismo; tenha bons sentimentos e pensamentos Hans, peça auxílio a Deus porque sozinho estou tendo dificuldades. Você não está se ajudando e fica difícil ajudá-lo... se por imprudência, não souber se transferir naturalmente segundo a lei; eu aqui, também não poderei estar até segundas ordens superiores, para ai sim, poder desligá-lo do corpo físico; poder ensiná-lo a atravessar paredes e, finalmente, poder ensiná-lo a voar...
(*) José Nami Sobrinho é escritor e professor de tênis de campo, em Foz do Iguaçu
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