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Free, free Washington free

(*) Marcio Renato dos Santos

— Preciso cuidar da cabeça. Porque do corpo eu já cuido faz tempo.

Washington verbalizou isso, a frase anterior, para uma mulher em um bar de Curitiba. Ele falou aquilo, a frase, durante uma festa. Festa essa em que ele saiu com uma outra mulher, uma amiga, que freqüenta o circuito cultural noturno da cidade.

— Eu leio pouco. Mas me impressiono muito com o pouco que leio.

Washington enunciou isso, a frase anterior, para uns amigos e outros desconhecidos na mesa de um bar de Curitiba. Ele falou aquilo, a frase, durante uma noite de uma semana de julho. Noite de julho era que choveu e ele, depois da conversa, saiu para fumar maconha e por pouco não foi preso pela polícia local.

— Vamos viver um relacionamento aberto.

Washington propôs a idéia, a da frase anterior, para Gerusa, a mulher que morava com ele. Sugeriu aquilo, a afirmação da outra frase, para Gerusa numa noite do verão passado. Washington e Gerusa conviviam há alguns anos mas Washington não se satisfazia apenas com Gerusa. Ele ainda queria estar com ela. Mas também desejava outras mulheres.

— Você ainda namora a Gerusa?

Washington ouviu a pergunta, da frase anterior, na mesa de um café de Curitiba. Ele estava sentado diante de Mônica, publicitária considerada criativa mas não muito bonita. Mônica viu, numa boate da cidade, Washington beijando Beatriz, também publicitária, não muito criativa mas muito bonita. Washington contou para Mônica que ainda namorava Gerusa. Mas também saía com outras mulheres.

— Ontem a gente bebeu muita cerveja e vinho. Depois uísque. Daí fumamos unzinhos.

Washington contou o feito, o da frase anterior, para um casal de conhecidos. Ele relatou o evento, mencionado naquela outra frase, em meio a uma festa de aniversário realizada em um bar de Curitiba. Washington bebeu cerveja, vinha e uísque, além de ter fumado unzinhos, acompanhado de mais três amigos no apartamento de seus pais, localizado em um bairro quase no sul da cidade. Salientou ainda que o acontecimento foi muito legal.

— Você ainda namora a Gerusa?

Washington ouviu a indagação, a da frase anterior, em um bar de Curitiba. Ele foi questionado por Heitor, colega de trabalho, em meio a uma festa. Heitor viu Washington entrar em um motel acompanhado de Daniele, contato publicitário da agência onde Washington e Heitor trabalham. Washington riu. Heitor se confessou apaixonado por Daniele. Washington não respondeu. Heitor disse que viu a cena porque também entrou no mesmo motel, acompanhado de Luan, diretora de arte da agência.

— Mas as bandas de hoje são boas sim. E os poetas também.

Washington articulou a idéia, a da frase anterior, na mesa de um bar de Curitiba. Ele estava sentado diante de uns amigos e de alguns sujeitos que conheceu naquela noite. Washington defendeu a idéia, aquela, após ouvir outra, que sugeria que a produção artística do presente seria inferior ao que já foi feito em outros passados. Ele, o protagonista deste texto, se quer também personagem-centro da arte contemporânea. Washington não admite questionamentos a respeito do grupo do qual faz parte, a escolinha patética, ops, a escolinha poética da província. Acredita, mesmo, que a história, a poesia, a arte enfim começam e terminam com a sua aparição e de sua turma no planeta.

— Qual o número do celular dessa mulher que liga pra você?

Washington fez essa pergunta, a da frase anterior, para um sujeito que ele conheceu em um bar de Curitiba. Perguntou aquilo, a indagação da outra frase, para um sujeito que disse ter conhecido uma mulher recém-separada de um publicitário que publicou um livro supostamente poético. Washington trabalha com propaganda, publicou um livro e acabou de se separar de uma mulher com quem viveu alguns anos.

— Você está mesmo namorando a Gerusa?

Washington escutou a pergunta, a da frase anterior, em um bar de Curitiba. Ele ouviu mais de uma vez a indagação, aquela, a respeito de seu relacionamento com Gerusa. E foram amigos e amigas que perguntaram. Washington quis saber o porquê das indagações. E os amigos e as amigas disseram. Contaram que viram Gerusa com homens, vários, durante o último mês, em variadas situações. Um dos conhecidos não revelou mas havia saído com Gerusa. Outro, suposto amigo de Washington, também não contou e não apenas saiu como também bateu em Gerusa.

— Você é uÓshington, uó.

Washington recebeu a observação, a da frase anterior, em um bar de Curitiba. Ele conversava com Fernanda, colega de trabalho. Os dois foram a um motel mas não aconteceu o que Fernanda esperava. Washington, no motel, apenas repetia o nome: Gerusa, Gerusa, Gerusa. Fernanda lembrou que foi Washington quem decidiu viver uma relação aberta com Gerusa. Ele, Washington, bebia, gritava, fumava maconha e sorria. Fernanda sugeriu que Washington relaxasse. Washington não relaxava, pensava e não dizia: Mulherada, me salvem.

— Você é uÓshington, uó.

(*) Marcio Renato dos Santos, jornalista, mestre em estudos literários pela UFPR.
O conto foi publicado originalmente na revista Idéias, edição 69.

 

   
 
 
 
 
 
 
 
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