|
De aspecto felpudo e maciez inegável, as meias cumprem seu papel na sociedade, sempre confortando e protegendo os pés da nação. Porém, para muitos, a realidade é outra. A realidade das meias escorrega e solta fiapos no cotidiano de alguns desafortunados.
Não é preciso ter qualquer tipo de curso técnico ou pós-graduação para usar meias. Em muitos casos, para envolver seus pés neste delicado item de algodão e maciez não é preciso sequer saber ler. Nao há um SAC que atenda, porém, as pessoas que encontram dificuldade não em calçar as meias, mas sim em conviver com elas durante um dia todo (que costuma ter 24 horas, se nada mudou desde a última vez que eu contei). Eu sou uma pessoa que não se adapta às meias. Nossas almas não combinam, nossos corações não batem na mesma cadência, não é aquela coisa toda. Resumindo, usar meia me irrita.
Na infância eu tinha um problema muito sério, que era a das meias velhas. Não tinha dinheiro prá ficar comprando meia, então só tinha meias velhas e puídas. Mas eu não me importava muito com isso, afinal eu era criança. O que me incomodava era o fato de que a *boca* delas já estava frouxa (ou "flôcha", como diz a minha vó ;o) e parecia uma boca-de-sino virada prá cima ou uma flor, dependendo do lirismo de quem vê. Isso era muito chato e todo mundo no colégio *me ria* por causa das minhas meias boca-de-sino.
Com a adultecência veio o primeiro emprego. Ainda nova e cheia de sonhos, vislumbrava ter agora ao meu alcance um mundo cheio de meias apertadinhas na canela. São tantas as decepções do mundo adulto! Hoje me lembro com saudade do tempo em que achava que o dinheiro me traria senão felicidade ao menos paz no coração e meias bonitas como nas embalagens das mesmas. De fato nunca mais usei meias boca-de-sino, mas outro problema surgiu. Assim é a vida, um emaranhado de sensações infrútiferas e liquidações na Riachuelo quando você não tem dinheiro. Comigo não seria diferente.
Olhando uma meia ainda no plástico ou mesmo pendurada no varal a uma distância razoável, nota-se um tênue contorno de costura reforçada e graciosa, chamado *calcanhar de meia*. Quem poderá dizer que ele não funciona? Olhando tão belo avanço tecnológico da costura avant-gard quem poderá duvidar que ele não vai ficar no seu calcanhar? Mas não fica. Questão de mira ou malandragem, sempre que coloco a meia o calcanhar ficar prá frente, formando aquele montinho de pano errado que muito me irrita. Mas esse não é o principal problema. Como já disse anteriormente, meu maior problema é conviver diariamente com a meia. Justo eu que gosto tanto de andar de tênis. A vida é mesmo cruel.
É só colocar a meia e andar uma quadra que ela já tá lá no meio do pé, amarfanhada no tênis. Me sinto uma delinqüente, quem vê de cima pensa que eu estou usando tênis sem meia, totalmente UÓ. Na infância, achei que o problema era devido à velhice da meia. Agora vejo, com o passar do anos e com a experiência que eles trazem, que mesmo a meia sendo novinha, elástico bom e aprovado pelo inmetro, mesmo assim, ela ESCORREGA do meu pé e vai parar no fundo do tênis. A cada dois passos tenho que me apoiar no ombro de alguém para arrumá-la. Já fiz muitas amizades assim.
É a técnica do puxa-estica-e-vai. Sem tirar o tênis do pé, enfie o dedo indicador e o polegar dentro do tênis. Ache a ponta da boca da meia. Puxe de uma vez só e sem medo. Não se desequilibre. Pronto. Todo esse malabarismo dura cinco passos, quando você tem que se apoiar de novo em alguém e começar tudo de novo.
A vida é selvagem e impiedosa para os inaptos. Comigo não seria diferente. (*) Tatiani Lopatiuk é contabilista em Foz do Iguaçu.
|