-
-
-
-
-
---
-
 

Um autor para ser admirado

(*) Antonio H. G. Cunha

O autor é o Ildo Carbonera, que veio ao nosso mundo em Sananduva, Rio Grande do Sul, em agosto de 1955. Sei da existência dele desde fevereiro ou março de 1994, quando ele voltou à velha Facisa em Foz do Iguaçu, após concluir o mestrado. Hoje ele faz o doutorado em Porto Alegre, na UFRGS, mas prefere que o tratem muito mais como escritor do que como acadêmico. Por isso tenho muito prazer em lhes falar de Ildo Carbonera autor, autor com personalidade e perfil próprio, idiossincrático, nitidamente.

Faz anos tenho estudado o que os escritores, o que os artistas fazem, e tenho procurado neles sempre alguma coisa inédita, original, que seja particular ou singular em cada um, e penso, agora que Ildo lança outro livro seu, que ele coloca mais um tijolo na construção do seu patrimônio literário, o qual poderá se tornar dentro de poucos anos em parte do patrimônio da literatura gaúcha. Para tanto, se alguém, talvez o Dono do mundo - e não a Academia Brasileira de Letras, pois que esta não pergunta - me viesse indagar se Ildo merece se tornar outro imortal da literatura na terra do eterno Érico Veríssimo, eu afirmaria com convicção que sim.

Escrevo este texto só para dizer por que Carbonera merece nosso exame toda vez que ele publica um novo livro seu. É porque Ildo cumpre aquilo que mais exijo de quem escreve para ser autor-monumento: Ildo consagra um estilo que ainda falta à literatura e que cada nova obra sua que surge apenas vem fixar com linhas mais fortes, nítidas e realçadas a construção desta obra plástica que vem a ser o modo de cada um solidificar sua expressão como uma escultura, uma pintura, seja o que for, mas que é algo visível, acessível a nossos sentidos.

        O livro, que Ildo Carbonera acaba de publicar com o título de Como é um rio?, vem somente reafirmar que ele está cada vez melhor, cada vez mais transparente, como a mais limpa das lentes, o mais reflexivo dos cristais. De agora para adiante, ele inicia sua consagração literária por causa disso. Como uma lupa, seu texto nos leva a modificar algumas percepções do cotidiano. Como um vidro tênue, seu texto brilha ao menor toque de leitura, com a luz que desloca sentidos quase ocultos. Elíptico sempre, Ildo sugere. Seu bom leitor fará curvas com ele. Dobra esquinas no sentido que ele não põe delicadamente entre as linhas. Seu pensamento não é mexido com açúcar. Há afeto, mas não há docilidade. Ele quase perde a ternura e no entanto nos sensibiliza. Então, me pergunto será que este brasileiro em quase tudo ainda sente como seus antepassados italianos?

        Faz dez anos o nas-horas-vagas editor José Vicente Tezza lhe pediu os poemas para colocar no seu pequeno e primeiro livro. Foi uma festa no - agora não mais Facisa - orgulhoso campus de Foz do Iguaçu da Unioeste. Voltando ao Tezza: que felicidade para um autor como Ildo Carbonera ser editado naquelas máquinas artesanais do pai e filho editores, que trabalhavam numa sala no casarão cinza da Vila Adriana! Meus amigos, posso lhes assegurar: esse poeta foi feito poeticamente. Seus poemas inaugurais ganharam uma extensão na prensa, nos livros nascidos à mão. Que alegria para seus colegas professores e para seus alunos terem o livro autografado pelo colega e professor. Eles fizeram fila e providenciei um fundo musical com trilha sonora com as velhas canções italianas que o povo dele conhecia tão bem. O título desse primeiro livrinho: Comunhão & só. Se não me engano, ele foi escolhido após uma conversa nossa. Aliás, quanta coisa fizemos assim! Desde então seus livros de poesia saíram um atrás do outro e com um capricho gráfico de se ver, na medida em que ele foi tomando gosto em ver aparecer suas crias que não eram simplesmente de carne e osso, mas de pensamento e palavra; elas foram vindo: Comunhão & só, A lua e os bares, A emboscada machadiana, Os animais não têm mais para onde ir, Chuva danada,  Destinos humanos, Alguém viu meu avô? e Enfim, juntos! [que reuniu todas as poesias dos livros anteriores].

        Ildo Carbonera conta e canta como um narrador, sente e expressa como um poeta. Em suas poesias há temas de prosa e em sua prosa há temas de poesia. Nem por isso ele é moderno ou pós-moderno. Ildo vem da tradição dos gêneros e apresenta, traz, uma nova versão dela. Ele funde os gêneros por dentro. Por fora, eles permanecem o que sempre foram. Daí o erro da crítica que se precipita, levada pelas aparências, faz juízos equivocados. É preciso interpretar nosso autor como uma síntese inusitada de forma e conteúdo. Por isso devemos lê-lo, por isso devemos admirá-lo. Procure lê-lo como se fosse viajar por terras onde nunca andou. Você vai descobrir cenas estranhas em paisagens habituais, afinal ele não construiu o mundo, nem o reconstruiu, ele simplesmente vê o mundo pelo prisma das suas fortes emoções, com uma vontade de nos expor sua perspectiva do universo que chega a ser comovente, apesar de às vezes mostrar-se irascível, intolerante, irritado. Há nele qualquer coisa do desejo dos animais solitários, que se desmancha quando ele sente um clima de festa, quando ele se ajeita para cantar suas composições ou aqueles rocks que nos fizeram a cabeça na infância e na juventude. Na percepção do mundo, ele vive numa casa dentro de uma floresta inacessível, mas quando se pede a ele que se expresse, ele desce à cidade e comunga a vida pequena porque vê nela tudo o que há de sublime e que tantos não vêem. Desde sua percepção, aí descobrimos que ele está disposto a ser sincero, pois que sua aridez se mostra frente a tudo que não seja autêntico. Então, para ler Ildo é preciso estar livre, estar disponível para entrar numa alma que se fez por dentro, que evoluiu por suas próprias mãos, por seu próprio pensamento, com um quê de roqueiro selvagem misturado com um amor pelos sentimentos expressos por palavras que só os que têm intimidade com a grande literatura poderão avaliar.

(*) Antonio H. G. Cunha é professor universitário.

   
 
 
 
 
 
 
 
Copyright © 2007 guata.com.br - Todos os direitos são reservados.